O Incidente de Aurora

aurora3O primeiro relato ocorreu primeiro em Sacramento, Califórnia, na noite de 17 de novembro de 1896 - uma luz estranha em um chuvoso céu noturno. Nesta primeira noite ele foi visto por dezenas de pessoas. A maioria viu apenas uma luz. Outros disseram ter visto uma forma escura de charuto atrás da luz. A descrição mais detalhada veio através de um motorista de bonde chamado Lowery, que disse ter visto uma máquina voadora manipulada por dois homens pedalando. Quando a história chegou aos jornais no próximo dia, causou uma série de controvérsias.

Os jornais Sacramento Bee e o San Francisco Call deram ampla atenção ao caso, e enviaram repórteres para entrevistarem as testemunhas. Em contraste, o San Francisco Chronicle descartou toda a coisa. Depois de alguns dias, a história se apagou.

Mas no dia 22 de novembro, o "dirigível misterioso" voltou. Ele passou sobre Sacramento e apareceu sobre Oakland, São Francisco e São José. Nos próximos dias o dirigível foi visto por toda parte na Califórnia. O ápice foi na noite de 25 de novembro, quando ele apareceu em onze lugares ao longo do estado, incluindo Auburn, Chico, Fresno, Hayward, Napa, Oakland, Pasadena, Petaluma, Sacramento, San Lorenzo e Visalia.

Desde o princípio, o fenômeno foi chamado de "dirigível" [airship]. Embora fosse quase sempre visto à noite, testemunhas afirmavam que podiam ver uma forma vaga atrás da luz forte. Elas falaram de fuselagens em forma de charuto, asas batendo e grandes rodas como a de um navio de pás. Algumas disseram ter ouvido vozes, seja em sotaques americanos ou em línguas desconhecidas.

Os relatos ficaram mais surpreendentes enquanto o mês passava. O Coronel Shaw de Stockton reivindicou ter encontrado seres não-humanos com o dirigível em uma estrada rural. Um homem em Indio alegou ter ido a bordo da nave para um vôo.

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Se aquelas luzes realmente fossem de uma máquina voadora, quem era seu criador? Havia vários pretendentes à honra. Logo após os primeiros avistamentos, um advogado de São Francisco chamado George D. Collins anunciou que tinha sido contratado para representar o inventor do dirigível, que preferiu permanecer anônimo. Depois de alguns dias Collins se retratou de suas declarações, e disse que tinha sido um mal-entendido.

Pouco depois, William H. H. Hart, ex-promotor geral da Califórnia, proclamou que estava em comunicação com o inventor misterioso, e que o dirigível seria brevemente usado para bombardear a guarnição espanhola de Havana e liberar Cuba. Mas quando pressionado por detalhes e provas, Hart também voltou atrás em suas alegações.

O número de relatos na Califórnia diminuía ao mesmo tempo que novembro chegava ao fim. Houve uma breve aparição no dia 4 de dezembro, com avistamentos de dirigíveis no Brown Valley, Davis, Dixon, North Bloomfield, São Francisco e Vallejo. Então os céus ficaram quietos.

Em 7 de dezembro, a Califórnia tinha se cansado do dirigível - ou vice-versa. Os relatos foram sumindo das notícias e as mentes das pessoas se voltaram para assuntos mais mundanos. Mas a mania de dirigíveis não havia acabado. Longe disto; os avistamentos de dirigíveis tinham se movido para o leste.


O Dirigível Nas Pradarias


Começando em janeiro e continuando até abril de 1897, uma grande onda de avistamentos de dirigíveis cruzou lentamente as Grandes Planícies de oeste para leste. Como na Califórnia, a maioria dos relatos era de uma luz brilhante no céu noturno, temperados com alguns contos mais impressionantes. Foram relatados avistamentos por toda parte no centro dos EUA.

Nebraska era um foco de atividade de dirigíveis. O primeiro avistamento relatado chegou em fins de janeiro, e descrições em jornais dos avistamentos continuaram por meses. O ápice da onda de Nebraska foi em abril, quando as agradáveis noites de primavera convidaram as pessoas para fora para observar os céus. Os diretores de uma de um comércio em Omaha adquiriram uma carta supostamente do inventor do dirigível, que assinou "A.C. Clinton" e pediu três milhões de pés quadrados de espaço para exibir sua máquina. Ele não apareceu.

O dirigível foi avistado primeiro no Kansas no dia 26 de março, e relatos continuaram por abril e começo de maio. A estória mais surpreendente de Kansas veio de um fazendeiro chamado Alexander Hamilton, na pequena cidade de Le Roy. De acordo com Hamilton, o dirigível tinha passado em sua fazenda na noite de 20 de abril. Os pilotos laçaram um novilho do rebanho de Hamilton e levaram-no pelo ar. O Sr. Hamilton até fez uma declaração tabeliada de doze homens proeminentes de Le Roy, atestando sua honestidade e veracidade.

Chicago também esperou o dirigível com grande antecipação, e não foi desapontada. As luzes misteriosas chegaram a Illinois no começo de abril, e duraram pela primeira metade do mês. Depois de um punhado de relatos durante a primeira semana de abril, uma série espetacular de avistamentos de dirigíveis varreram Illinois e Indiana durante a semana de 9-16 de abril, com 110 relatos ao longo do curso de sete noites. Foi visto por toda parte em Illinois, freqüentemente em partes diferentes do estado na mesma noite.

Não muito longe, em Wisconsin, um fazendeiro encontrou uma carta, aparentemente dos pilotos do dirigível, descrevendo sua construção no Tennessee. Outras cartas apareceram no Michigan e Texas, obviamente brincadeiras. A mais célebre "mensagem do dirigível" foi descoberta em Astoria, Illinois. Estava endereçada a Thomas Edison, e era aparentemente um relatório codificado a ele do piloto do dirigível misterioso. O grande inventor chamou-a de uma "pura fraude."

Depois de Illinois e Indiana, os avistamentos começaram a desaparecer. Eles não terminaram de uma só vez; relatos ainda estavam sendo publicados em junho de 1897. Mas eles ficaram dispersos e eram poucos em número. A grande onda da mania de dirigível tinha terminado e retrocedido.

A pequena cidade de Aurora no estado do Texas, teve um incidente ainda mais dramático. No dia 19 de abril o Dallas Morning News informou que o dirigível tinha colidido com um moinho de vento em Aurora e explodido. O corpo do piloto foi recuperado, e identificado como um nativo do planeta Marte. Alguns dos restos revelaram também o material marcado com um tipo de hieroglyfo. Os moradores da cidade deram à pobre pequena criatura um enterro apropriado no cemeterio local. Este incidente, se é verdadeiro ou não, teve apenas bastante publicidade. Foi feito até um filme, “The Aurora Encounter” em 1986, estrelando Jack Elam. A notícia do acidente espalhou rapidamente, mesmo naquele tempo. Um artigo de jornal do evento ainda existe, escrito por E.E. Haydon, repórter para o Dallas Morning News. Abaixo está o artigo original:

Aproximadamente 6 horas da manhã em Aurora apareceu de forma repentina o dirigível qual sobrevoava ao redor do país. Estava viajando para o norte e muito mais próximo à terra do que antes. Era evidente que alguma maquinaria era avariada, porque estava a uma velocidade de somente dez ou doze milhas por hora, eaproximava-se gradualmente para a terra. Quando alcançou a parte norte da cidade, estava sobrevoando a área pública e colidiu com a torre do moinho de vento do juiz Proctor e se despedaçou com uma explosão terrível, dispersando restos sobre diversos acres da terra, destruindo o tanque do moinho de vento e de água e destruindo o jardim de flores do juiz. O suposto piloto da nave parecia ser o úniico a bordo e estava bastante disfiguado de sua forma original, foi escolhida até a mostra para mostrar que não era um habitante deste mundo.


Possíveis Explicações


Mas o que todas essas pessoas estavam vendo cem anos atrás? Uma coisa que é certa é que elas não estavam vendo nenhum dirigível real. Dirigíveis existiam na época, é verdade. O dirigível "La France" tinha voado um curso circular controlado em 1885 fora de Paris, e na Alemanha o Conde Zepelim estava construindo seu primeiro "Luftschiff" no Lago Constance. Esforços para construir uma máquina voadora dirigível na América datam de tão cedo quanto 1865, quando Solomon Andrews de Perth Amboy voou seu Aereon contra o vento em Nova Jersey. Em 1867, Frederick Marriott de São Francisco construiu uma nave chamada Avitor que teve muitas de suas características mencionadas em relatos do dirigível misterioso - uma fuselagem em forma de charuto e asas. Um modelo em escala voou, mas Marriott nunca construiu uma versão tripulada.

Mas nenhum dos dirigíveis em existência em 1896 poderia voar mais que algumas milhas no ar parado. Não seria antes de pelo menos vinte anos que um dirigível que poderia voar de São Francisco para Chicago existisse. E o simples pensamento de tentar pousar um blimp primitivo nas Montanhas Rochosas e Grandes Planícies durante o inverno - presumivelmente sem uma tripulação de chão - era tenebroso, para dizer isto suavemente.

A explicação popular em círculos OVNI é que o dirigível não era o produto da tecnologia terrestre de 1896. Obviamente deveria ter sido uma nave de outro mundo - ou várias naves, uma vez que as luzes foram vistas em lugares extensamente separados ao mesmo tempo. É impossível provar que não havia nenhuma espaçonave alienígena sobrevoando a América em 1897; se uma pessoa acredita ou não é puramente uma questão de fé. Mas há outras explicações que são mais prováveis, embora não tão cativantes.


A Imprensa e o Dirigível


A mania de dirigíveis foi o primeiro fenômeno de jornal. Jornais rivais freqüentemente apoiavam explicações diferentes. Em São Francisco, o Call era o proponente mais entusiástico do dirigível, enquanto o Chronicle era mais reservado e o Examiner repetidamente descartou todo o caso.

Os jornais de Hearst seguiram um padrão duplo curioso. Na Califórnia onde o Call e outros jornais pequenos tinham agarrado na história, o San Francisco Examiner de William Randolph Hearst era cético. Mas os jornais de Hearst do leste deram muita atenção para a história, já que este era o tipo de história que o magnata adorava.

Os jornais podem ter dado para seus leitores o que eles queriam ouvir, inventando relatos de avistamentos de dirigíveis. Se isto parecer uma ética questionável, deve ser recordado que o jornalismo era muito mais informal no século dezenove. Brincadeiras, trotes, eram comuns - da inevitável história de Primeiro de Abril sobre serpentes do mar ou trutas peludas, a enganações elaboradas como a Fraude da Lua de Richard Adams Locke ou a Fraude do Balão de Edgar Allen Poe.

Vale notar que uma proporção grande de avistamentos de dirigível foi publicada em relativamente poucos jornais. A maioria dos relatos da Califórnia apareceu no San Francisco Call. Metade de todos os avistamentos de Nebraska foram publicados no Omaha Bee. O Atchison Champion era o principal jornal sobre o dirigível em Kansas, e o Dallas Morning News publicou muitos avistamentos do Texas. Quando a mania chegou a Illinois e Indiana, era o Chicago Times-Herald que era o repórter mais entusiástico de avistamentos de dirigíveis. Estes não eram sempre os maiores ou mais influentes jornais de suas regiões. Grandes jornais como o Chicago Tribune ou o San Francisco Chronicle tenderam a minimizar o caso do dirigível, mas jornais menores famintos por assinantes foram atraídos pela história.

A progressão lenta de avistamentos de dirigíveis pelo continente pode não ser o movimento de qualquer veículo, mas sim a onda de propagação de histórias de jornal inspiradas por relatos semelhantes em cidades próximas.


Pregadores de Peças


Pregar peças [practical joking] era muito mais comum no século 19 do que é hoje. Seria certamente possível para alguém lendo os relatos do misterioso "dirigível" construir um balão de ar quente de papel e inspirar alguns avistamentos. Pelo menos um caso disto foi verificado, em Nebraska. Alguns dos jornais anti-dirigível acusaram os jornais pró-dirigível de deliberadamente lançar balões ou pipas para criar interesse.

Até mais simples é alegar um falso avistamento. As duas histórias mais surpreendentes do dirigível parecem ambas mentiras evidentes. A estória de "abdução bovina" de Alexander Hamilton e o acidente de Aurora eram simplesmente invenções. No caso de Hamilton era mais um pouco de diversão; anos depois, o editor do jornal no qual o conto apareceu primeiro recordou que Hamilton e alguns outros estavam brincando no escritório do jornal uma tarde e inventaram a história da vaca.

O evento de Aurora obteve algum escrutínio de investigadores OVNI nos anos setenta, motivado pela possibilidade de encontrar restos alienígenas em uma pequena cidade do Texas. Mas suas pesquisas só revelaram que não houve nenhum acidente e nenhum alien enterrado. Tudo foi inventado pelo Dallas Morning em Aurora, possivelmente como um modo de adquirir um pouco de publicidade gratuita para a cidade.

Também há alguma evidência para sugerir que muitos dos relatos nas Grandes Planícies foram criados por um grupo de trabalhadores e operadores de telégrafo de estradas de ferro. Equipados com seu próprio sistema de comunicação pelo país, e com muito tempo livre nas longas noites de inverno, os telegrafistas de via férrea eram o equivalente em 1890 dos viciados em Internet modernos. Eles podem bem ter tido um papel em começar ou promulgar os relatos.


Fenômenos naturais


A maioria das causas naturais pode ser excluída como explicações para os avistamentos de dirigível. Uma vez que o dirigível foi visto em um grande número de estados ao longo de um período de seis meses, o que quer que fosse devia ser duradouro e extensamente visível. Isso elimina fenômenos de vida curta como relâmpagos globulares, aurora boreal ou meteoros.

O culpado mais provável é o planeta Vênus. Durante o inverno de 1896-97 ele era visível no céu noturno, e estava em seu brilho máximo no dia 23 de março - exatamente no ápice da mania de dirigíveis. Muitos dos relatos de dirigíveis foram em noites nubladas. O disco luminoso de Vênus brilhando através de nuvens em movimento poderia parecer ser um dirigível em vôo.

Pássaros migratórios poderiam ser responsáveis por alguns avistamentos, especialmente sobre cidades com novos sistemas de iluminação. A primavera é afinal de contas a estação em que pássaros retornam do inverno. Pássaros poderiam responder pelas descrições ocasionais de asas batendo no dirigível misterioso.

Finalmente, o poder da sugestão não pode ser subestimado. Uma vez que as pessoas ouviram falar do dirigível e começaram a ir fora olhar, qualquer coisa luminosa ou desconhecida no céu seria obviamente a máquina misteriosa.


Grandes Expectativas


Embora nenhuma máquina voadora dirigível já tivesse provado ser prática, o vôo era um tópico quente nos anos de 1890, e 1896 foi um grande ano para a aeronáutica. Samuel Langley, o pioneiro da aviação secretário do Smithsonian, manteve álbuns de recortes contendo notas de jornal sobre o vôo, colecionados de jornais ao redor do país. Seu volume de 1896 inclui relatos de pelo menos dez inventores que reivindicavam ter conquistado o ar antes dos avistamentos começarem, e o livro de Langley não inclui recortes sobre suas próprias experiências em maio daquele ano, quando ele fez voar um modelo não tripulado.

Claramente, dirigíveis estavam "no ar," por assim dizer. E em nenhuma parte mais que em São Francisco. O San Francisco Call publicou um artigo em setembro de 1896 descrevendo o dirigível patenteado de um inventor, inclusive com uma grande ilustração. A máquina era cilíndrica, com asas que batiam, portinholas, e rodas - todas as características vistas durante a mania de dirigíveis um mês depois. Significativamente, o Call era o jornal mais vigorosamente pró-dirigível na Califórnia.

Assim, quando as pessoas viram Vênus brilhando a noite céu, seus pensamentos se voltaram naturalmente para os dirigíveis. Nas pradarias, pode ter havido um elemento forte de pensamento tendencioso envolvido. Na ocasião, as vias férreas quase tinham um monopólio em transporte nas grandes planícies, e controlavam muitas legislaturas de estado. Uma forma nova de transporte aéreo terminaria com o reinado dos barões de trens.

O paralelo com a onda de "discos voadores" em fins dos anos 40 e começo dos anos 50 é notável. Com o advento dos foguetes e do poder atômico durante a Segunda Guerra Mundial, a conquista do espaço parecia estar à mão. Cientistas notáveis como Wehrner von Braun escreveram artigos otimistas sobre a viagem espacial em revistas de circulação em massa como a Collier's. Assim, quando as pessoas olharam para cima e viram algo luminoso e desconhecido, pensaram imediatamente em espaçonaves.

Atualmente, há um cinismo difundido a respeito do governo, incerteza sobre o mundo pós-Guerra Fria, e uma desconfiança de novas tecnologias. Pessoas que vêem luzes no céu agora as chamam de "helicópteros negros" - os agentes sinistros de opressão espreitando no ar.


Fonte: http://www.balloonlife.com/publications/balloon_life/9607/airship.htm
          http://www.ufocasebook.com/Aurora.html

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