Dica de Cinema

A Produção Caótica Que Quase Enterrou A Franquia

A Produção Caótica Que Quase Enterrou A Franquia

Alien 3: O Caos Nos Bastidores Que Transformou o Filme de David Fincher em uma Obra-Prima Maldita. Se você esperava que a Ellen Ripley fosse ter um descanso merecido depois de descer o sarrafo na Rainha Alien em 1986, o ano de 1992 guardava um balde d'água fria monumental — ou melhor, um banho de ácido. Lançado em 22 de maio de 1992, Alien 3 chegou aos cinemas não apenas para continuar uma das franquias mais amadas da ficção científica, mas para estilhaçar qualquer expectativa do público.

E o pior: fez isso sangrando de verdade nos bastidores. Dirigido por um jovem David Fincher em sua estreia no cinema, o filme é hoje cultuado como um clássico incompreendido. Mas, na época? Foi um verdadeiro massacre de crítica e público. A verdade nua e crua é que Alien 3 quase enterrou a saga espacial de vez, vítima de uma produção caótica que mudou de rumo tantas vezes que o milagre não foi ter ficado ruim, mas ter chegado às telas.

O choque inicial: quando a esperança morre na primeira cena

Quer um jeito rápido de irritar uma legião de fãs? Mate os personagens favoritos deles logo nos primeiros minutos de projeção, sem cerimônia. Foi exatamente isso que Alien 3 fez. Lembra daquela sensação aconchegante de alívio no final de Aliens: O Resgate, quando Ripley, a pequena Newt, o cabo Hicks e o androide Bishop pareciam salvos? Esqueça. O filme começa jogando a cápsula deles no planeta-prisão Fiorina "Fury" 161. No impacto, Newt e Hicks batem as botas de forma brutal e anticlimática. Bishop vira sucata e apenas Ripley sobrevive — sozinha, careca, cercada por dezenas de presos homicidas e estupradores, com um ovo de Alien escondido na nave. Essa escolha narrativa corajosa deu o tom niilista do filme. Não há finais felizes no universo de Alien. A sobrevivência é apenas um adiamento temporário da tragédia. Para a audiência de 1992, matar Newt e Hicks foi uma traição imperdoável. Mas olhando para trás, foi o único jeito de manter Ripley isolada e totalmente vulnerável, sem rede de apoio.

O inferno na Terra (ou melhor, em Fury 161): Uma produção sem roteiro

Se a história dentro da tela era desesperadora, o que acontecia nos bastidores era um verdadeiro filme de terror de orçamento estourado. A produção de Alien 3 é amplamente considerada uma das mais desastrosas da história de Hollywood. Antes de David Fincher assumir o barco, a 20th Century Fox já tinha queimado milhões de dólares em roteiros descartados. Houve uma ideia genial de transformar a história num thriller tecnológico assinado pelo escritor William Gibson, onde Hicks era o protagonista e Ripley ficava em coma. Houve também a icônica proposta de um mosteiro espacial habitado por monges luditas (sim, um bando de religiosos no espaço lutando contra xenomorfos com machados e paus).

Quando a Fox finalmente decidiu misturar pedaços dessas ideias e contratar diretores, o projeto já tinha passado pelas mãos de Vincent Ward, que abandonou o barco após divergências criativas monstruosas. O estúdio contratou David Fincher — que até então só dirigia clipes musicais de sucesso para Madonna e George Michael — com uma ideia fixa na cabeça: “Precisamos rodar o filme agora!”. O detalhe minúsculo? As filmagens começaram sem um roteiro finalizado. Os atores apareciam no set de manhã sem saber o que iam gravar naquele dia. Páginas de roteiro eram escritas às pressas em jatinhos particulares e entregues no set enquanto a câmera já rodava. Executivos da Fox viviam no cangote de Fincher, cortando cenas, exigindo mudanças e sufocando a visão artística do diretor a cada segundo.

David Fincher vs. O Estúdio: O parto doloroso de um gênio

O clima no set era tão tóxico que o próprio David Fincher jurou nunca mais dirigir um filme de estúdio nos moldes tradicionais (promessa que ele quebeu anos depois, mas com muito mais controle criativo). O diretor queria um filme sombrio, sujo, claustrofóbico e existencialista. A Fox queria monstros correndo atrás de gente e explosões grandiosas. O resultado dessa queda de braço foi um massacre na sala de edição. A Fox tirou o controle criativo de Fincher, reeditou o filme por conta própria, adicionou cenas extras e mudou o final. Exausto, frustrado e traído pelo estúdio, Fincher lavou as mãos e abandonou o projeto antes da finalização, recusando-se a falar sobre o filme por anos. Mesmo com toda essa interferência, o DNA visual de Fincher permaneceu intacto. A paleta de cores amarelada e suja, os enquadramentos simétricos impecáveis, o jogo de sombras e a atmosfera opressiva gritam o talento precoce do homem que mais tarde nos presentearia com Seven e Clube da Luta.

A estética da lama, da careca e do monstro em quatro patas

Apesar de todos os tropeços de bastidores, Alien 3 acertou em cheio em sua identidade visual e conceitual. Esqueça os corredores industriais futuristas e limpos do primeiro filme ou a marcialidade militar de Aliens. Fury 161 é o fundo do poço da galáxia: uma refinaria de minérios decrépita, habitada por presos que raspam a cabeça para evitar piolhos e encontram uma fé distorcida no meio do desespero. E falando no monstro: pela primeira vez na franquia, o Alien não nasceu de um humano. O hospedeiro foi um cachorro (ou um boi, dependendo da versão), dando origem ao chamado Dog-Alien ou Runner. Em vez de andar erguido em duas patas imitando um bicho-papão humanoide, essa nova criatura corre de quatro, em quatro patas, serpenteando pelos dutos de ventilação com uma velocidade assustadora, parecendo um predador felino ou canino implacável. A ausência de armas de fogo modernas na prisão — os detentos usam apenas ferramentas de ferro velho, chumbo derretido e portas corta-fogo para tentar conter a fera — devolve à franquia o seu DNA original: o terror de sobrevivência primitivo. É o homem desarmado contra a perfeição biológica da caça.

O veredito do tempo: De ovelha negra a clássico cult

Quando estreou em maio de 1992, Alien 3 arrecadou bilheteria respeitável por causa do peso do nome da franquia, mas foi massacrado pela crítica e rejeitado pelo público. Parecia o fim melancólico para a jornada de Ellen Ripley, que encerra o filme se jogando em uma caldeira de metal incandescente para impedir que a corporação Weyland-Yutani ponha as mãos na rainha alienígena dentro de seu peito. Era um final corajoso, definitivo e trágico. No entanto, o tempo tem o hábito curioso de fazer justiça. Anos mais tarde, em 2003, a Fox lançou a antologia Alien Quadrilogy em DVD, trazendo a lendária Assembly Cut (versão de montagem) de Alien 3. Embora Fincher não tenha participado diretamente dessa restauração, o corte recuperou trinta minutos de cenas deletadas que reestruturaram a narrativa, deram mais profundidade aos detentos, mudaram a origem do alienígena (usando o boi em vez do cachorro) e alinharam o filme muito mais à visão soturna original do diretor.

Hoje em dia, a percepção mudou completamente. O que antes era visto como um desastre incoerente é celebrado como uma obra ousada, um estudo sobre mortalidade, culpa, religião e aceitação da morte. Alien 3 não é perfeito — e nunca escondeu as cicatrizes de sua produção conturbada —, mas é exatamente essa imperfeição visceral que o torna fascinante. No fim das contas, a saga de Ripley em Fury 161 nos provou que, mesmo nas situações mais desesperadoras, a dignidade humana e o livre-arbítrio ainda podem morder de volta. E quer saber? Poucos filmes ousaram tanto para cair de pé no abismo.

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