Você já se pegou torcendo pro vilão? Não daquele jeito envergonhado, “ai, que personagem complexo”. Torcendo mesmo, com o fígado, pra ele explodir aquele caubói espacial insuportável que insiste em dar discurso sobre esperança enquanto seus amigos são mastigados por um buraco no chão. Se sim, bem-vindo. Você entende O Retorno de Jedi melhor do que a maioria.
Porque, convenhamos, entre o Luke monge franciscano da década de 80 e o garoto chorão de Tatooine, tem um abismo que só a paciência de Darth Vader — e a nossa — poderia atravessar. E é justamente nesse abismo que o filme de 1983 se equilibra, dançando entre o ridículo e o sublime, nos lembrando por que amamos uma galáxia muito, muito distante... mesmo quando ela nos dá vontade de jogar pipoca na tela.
Pensa comigo: estamos em 1983. O mundo já tinha visto O Império Contra-Ataca, com aquele final que te deixava com um gosto amargo de derrota na boca. Han Solo congelado, Luke sem a mão e a revelação mais bombástica do cinema. A pressão em cima de George Lucas e do diretor Richard Marquand era monstruosa. Eles precisavam fechar a conta. Não era só amarrar as pontas soltas, era satisfazer uma legião de fãs enlouquecidos, vender boneco — ah, muitos bonecos — e, de quebra, criar um final épico que fizesse sentido espiritual e emocional. A solução que encontraram foi, no mínimo, curiosa: vamos jogar a Aliança Rebelde numa missão suicida pra destruir uma segunda Estrela da Morte, enquanto o nosso herói Jedi vai resolver uns problemas de família. Sim, a trama central de O Retorno de Jedi é basicamente uma sessão de terapia familiar com sabres de luz, intercalada por uma guerra no meio do mato.
É exatamente essa estrutura tripla que faz o filme ser uma montanha-russa de qualidade. De um lado, a missão em Endor. Ah, Endor... aquela lua florestal que parece o quintal da casa da sua avó, mas infestado de criaturinhas que são uma mistura de ursinho de pelúcia com mini ninjas canibais. A introdução dos Ewoks é o divisor de águas. Tem gente que os odeia com todas as forças. Dizem que é o momento em que Lucas, de vez, enfiou o pé na jaca do merchandising, sacrificando a credibilidade da saga por ursinhos fofinhos que derrotam a elite do exército imperial com troncos e cipós. E olha, não dá pra dizer que estão totalmente errados. É surreal ver um stormtrooper, supostamente a força de choque do Império, tomando uma pedrada na cabeça e caindo durinho. Mas também tem algo de brilhantemente subversivo aí. É a natureza engolindo a máquina. É o Vietnã espacial, com a tecnologia de ponta sendo humilhada por quem conhece o terreno. Chame de fofo, chame de ridículo, mas é uma escolha narrativa que, gostando ou não, fincou os pés na cultura pop. Ninguém esquece aquela música comemorativa no final.
Enquanto isso, no espaço, Lando Calrissian e Almirante Ackbar comandam o ataque à nova Estrela da Morte. É aí que o filme nos dá uma das citações mais meméticas e amadas da saga: “É uma armadilha!”. Ackbar, um peixe-humanoide, grita isso com um desespero tão genuíno que transcendeu a ficção. A batalha espacial é um primor técnico pra época, frenética, cheia de naves zunindo e explosões pipocando, uma coreografia do caos que te deixa grudado na cadeira. A sensação de claustrofobia, de estar encurralado, é real. O plano do Imperador era tão sórdido quanto genial: usar a estação espacial inoperante como isca e aniquilar a frota rebelde de uma vez por todas. É o Império jogando xadrez 4D, enquanto os heróis mal conseguem jogar damas.
Mas a alma do filme, o verdadeiro coração pulsante que faz a gente engolir os ursinhos e as “armadilhas”, está na sala do trono da segunda Estrela da Morte. O triângulo amoroso-odioso entre Luke, Vader e o Imperador Palpatine é o teatro shakespeariano que a saga prometia. Luke não está lá pra lutar, mas pra salvar. Ele é o único que acredita que debaixo daquela armadura preta e da respiração mecânica ainda existe Anakin Skywalker. A ironia é tão cruel quanto um raio do Imperador: o garoto que saiu de Tatooine querendo aventura e lutar contra o Império se torna o monge pacifista que joga seu sabre de luz no chão. “Sou um Jedi, como meu pai antes de mim.” Essa frase não é uma rendição, é uma vitória moral. É o momento em que Luke se torna, de fato, um Jedi. Ele vence não pela força, mas pela compaixão.
E aí chegamos no Imperador. Ian McDiarmid entrega uma atuação que é puro suco da vilania. Ele não quer só matar Luke, ele quer saborear a queda do garoto. Cada palavra, cada sussurro venenoso, é uma agulhada pra converter a raiva de Luke em ódio. A tortura com os raios da Força é a cena mais sádica da trilogia original. É desconfortável, é cruel, e Luke está ali, agonizando, implorando pelo pai. O que acontece a seguir é uma das redenções mais impactantes do cinema. Vader olha pro filho, olha pro mestre, e a carcaça do homem que um dia foi Anakin simplesmente não aguenta mais. Ele pega o Imperador — uma figura tão poderosa que dominava a galáxia com uma mão e uma gargalhada — e o arremessa num poço como quem joga um saco de lixo. Pronto. Acabou. O maior vilão da galáxia morto pelo maior gesto de paternidade tardia da história. Sem coreografia complexa. Só uma decisão.
A beleza trágica da morte de Vader é que ela não é gloriosa. Ele pede pra Luke tirar sua máscara, e nós vemos Sebastian Shaw, um ator com olhos de cachorro arrependido, pedindo desculpas com um sorriso frágil. É um instante de humanidade tão crua que você quase esquece que esse cara explodiu um planeta e cortou a mão do próprio filho. Quase. A saga sempre foi sobre redenção, e esse momento sela o pacto com o espectador. A cremação do corpo de Vader na fogueira em Endor, enquanto Luke observa com uma melancolia serena, é o ponto final. A festa que acontece logo depois, com toda a galáxia vibrando e os fantasmas da Força de Obi-Wan, Yoda e Anakin sorridentes, é o merecido alívio cômico-espiritual. É a catarse.
Por trás das câmeras, o filme era um vespeiro de criatividade e dor de cabeça. George Lucas, exausto e brigado com o sindicato de diretores, chamou o galês Richard Marquand — um sujeito pouco conhecido e, teoricamente, maleável — para dirigir. A ideia de Lucas era ter alguém que executasse sua visão sem muitos questionamentos. Mas a produção foi tensa. Marquand tinha que lidar com uma equipe que já trabalhava com Lucas há anos e, naturalmente, respondia diretamente ao chefão. As gravações na floresta de sequoias na Califórnia, que serviram de Endor, foram um pesadelo logístico, com chuva e lama. E os Ewoks, que pra nós são fantoches fofinhos, eram atores com máscaras sufocantes e figurinos que viravam saunas portáteis.
O filme tem algumas escolhas criativas que foram frutos de mudanças de última hora. Tatooine, por exemplo, quase foi o planeta onde a segunda Estrela da Morte orbitava, e não Endor. Pensa que loucura: Luke voltando pra casa, lutando sobre as areias que o viram crescer. A ideia foi descartada, dizem, justamente porque Lucas queria um contraste visual mais impactante com o cinza tecnológico do Império, algo mais verde e primitivo. Outro ponto curioso é a famosa cena da Princesa Leia de biquíni dourado no palácio de Jabba. Tornou-se um fetiche geracional e, ao mesmo tempo, uma fonte eterna de polêmica. Para Carrie Fisher, foi um momento de força: Leia estrangula seu captor com a própria corrente que a prendia. Mas Fisher passou anos tendo pesadelos com aquele biquíni, e sempre comentou, com seu humor ácido, que era a roupa que a transformou em estátua de cera pra sempre. A realidade dos fatos, sem maquiagem, é essa: um ícone pop nascido de uma combinação desconfortável de empoderamento e objetificação, uma dualidade que persegue a franquia até hoje.
O fantasma de Anakin no final, aliás, foi remendado na edição especial de 1997. Originalmente, era o mesmo Sebastian Shaw. Lucas, querendo amarrar com a nova trilogia, enfiou o Hayden Christensen no lugar. Uma escolha que até hoje divide fãs entre os que acham lógico — afinal, Anakin “morreu” jovem — e os que acham um sacrilégio com a carga emocional da cena original. E já que falamos em verdades nuas e cruas, é preciso dizer: O Retorno de Jedi, apesar de ser um colosso de bilheteria e crítica na época, é constantemente visto como o patinho feio da trilogia clássica. A estrutura é mais episódica, o ritmo oscila, e o humor dos Ewoks destoa do tom sombrio que O Império Contra-Ataca havia estabelecido. Mas é exatamente essa irregularidade que o torna tão humano. É um filme que se permite ser bobo, ser sentimental, ser exagerado. Não tem a perfeição cirúrgica do capítulo anterior, mas tem coração sobrando.
E tem a maior batalha de sabres de luz da era clássica. Luke e Vader no breu, iluminados apenas pelo brilho verde e vermelho, enquanto o coral de John Williams explode em fúria e tristeza. É uma luta que transcende a esgrima coreografada: é um filho batendo no pai, um pai se defendendo do filho, tudo orquestrado por uma trilha sonora que é, disparada, uma das melhores já compostas para o cinema. O tema “The Emperor’s Throne Room” é pura maldade em notas musicais. John Williams não compôs só uma música, ele costurou o tecido emocional dessa história.
O Retorno de Jedi encerra ciclos de um jeito que a franquia nunca mais conseguiu replicar. Fecha a história de Luke, fecha a história de Anakin, e nos deixa com a sensação de que a galáxia, enfim, pode respirar. O filme seguinte cronologicamente, O Despertar da Força, tentou nos vender um retorno que, no fundo, desfez muito do que foi conquistado aqui. Mas isso é outra conversa. O que fica de 1983 é a imagem de uma fogueira crepitando, uma festa com alienígenas bizarros dançando, e três fantasmas sorridentes aprovando tudo em silêncio. É brega? É. Mas é um brega que a gente abraça, porque a jornada até ali foi longa, doeu, e a gente merecia um pouco de paz e ursinhos tocando tambor. Quem não merecia, pelo visto, eram os stormtroopers.



