Sabe aquela sensação de que uma franquia clássica já tinha dado o que tinha que dar, sendo mastigada até virar pó e cuspida em formato de prequels confusas que tentavam explicar demais a origem do mal? Pois é, a gente tava nesse barco furado navegando pelos mares de Prometheus e Alien: Covenant, até que a 20th Century Fox, agora sob o guarda-chuva implacável da Disney, decidiu que era hora de voltar para o básico, sujo e claustrofóbico que a gente ama, e foi assim que, no longínquo 16 de agosto de 2024,
Alien: Romulus chegou aos cinemas mundiais não apenas como o sétimo capítulo dessa saga lendária, mas como um verdadeiro sopro de ar fresco, ainda que esse ar tenha cheiro de enxofre, sangue e óleo de máquina espacial.
O Resgate do Terror Claustrofóbico e a Visão de Fede Álvarez
Para entender o peso desse lançamento, a gente precisa olhar para a cadeira do diretor, ocupada pelo uruguaio Fede Álvarez, um cara que não chegou aqui de paraquedas, mas sim construiu sua reputação entregando tensão pura em obras como a refilmagem de Evil Dead e o sufocante O Homem nas Trevas, o que fez dele a escolha perfeita para pilotar uma nave onde o espaço é limitado e o perigo espreita em cada duto de ventilação. Ridley Scott, o pai da criatura e produtor do longa, teve a sabedoria de recuar e deixar Álvarez fazer o que ele faz de melhor, que é transformar o terror em uma experiência física, quase tátil, onde a câmera parece suar junto com os personagens e a trilha sonora gruda na sua nuvem como uma promessa de morte iminente.
A trama nos joga no meio de jovens colonizadores de uma estação espacial mineradora, gente comum, trabalhadores braçais do cosmos que estão cansados de serem moídos pela engrenagem corporativa da Weyland-Yutani, e essa escolha de focar em personagens marginalizados e desesperados para escapar de seu destino trágico conecta o filme diretamente com a alma operária do Alien original de 1979, lembrando a gente de que, no espaço, o verdadeiro monstro muitas vezes usa terno e gravata e está mais interessado no lucro do que na sua sobrevivência.
A Verdade Nua e Crua: Nostalgia, Falhas e o Elefante Robótico na Sala
Agora, como a gente combinou que aqui não tem maquiagem e a verdade dos fatos tem que ser escancarada sem qualquer filtro, precisamos ter uma conversa franca sobre os tropeços e as escolhas no mínimo controversas que Alien: Romulus carrega em seu casco, porque nem tudo são flores nesse retorno triunfante ao espaço. O terceiro ato do filme, por exemplo, tende a abandonar um pouco a sutileza do terror gotejante para abraçar uma ação espacial mais exagerada e repleta de explosões, o que pode frustrar os puristas que preferem o suspense psicológico e a vulnerabilidade humana em detrimento de tiroteios contra hordas de xenomorfos, parecendo que o roteiro teve medo de confiar na própria tensão e decidiu apelar para o espetáculo visual.
Mas a polêmica que realmente dividiu os fãs e levantou debates acalorados sobre os limites da ética e da tecnologia em Hollywood foi a decisão de usar inteligência artificial e manipulação digital para ressuscitar o rosto e a voz do lendário Ian Holm, o eterno androide Ash do primeiro filme, criando uma sequência que, embora seja um acerto narrativo genial para conectar as Eras, deixa um gosto amargo na boca de quem assiste ao perceber que estamos assistindo a um fantasma digital, o que levanta questões gigantescas sobre até onde a indústria está disposta a ir para reciclar o passado, mesmo quando o ator original já partiu dessa para melhor.
Números, Bilheteria e a Realidade Implacável de Hollywood
Quando a gente olha para a planilha fria e calculista da bilheteria, arrecadar cerca de US$ 350 milhões globalmente pode parecer um número modesto se comparado aos arrasa-quarteirões de super-heróis que dominam as telonas, mas no contexto atual de um cinema pós-pandemia onde filmes de terror e ficção científica com classificação etária restrita (R-rated nos EUA) lutam por cada centavo, esse valor é um atestado de saúde maravilhoso e a prova de que o público adulto ainda está sedento por histórias originais, sangrentas e que não tratam a audiência como criança.
Com um orçamento estimado em torno de US$ 80 milhões, sem contar os custos astronômicos de marketing que a Disney injetou para vender a ideia de que o monstro mais famoso do cinema estava de volta às suas raízes, Alien: Romulus não apenas pagou seus custos como garantiu um lucro robusto, garantindo que a franquia continue viva e respirando, o que é um milagre numa era em que os estúdios têm pavor de investir em propriedades intelectuais que não sejam adaptações de brinquedos ou multiversos infinitos.
A Crítica Social que a Franquia Nunca Esqueceu
No fim das contas, o que faz a franquia Alien resistir ao teste do tempo não são apenas as mandíbulas internas dos xenomorfos ou o design biomecânico genial de H.R. Giger, mas a sua capacidade brutal de espelhar as ansiedades de cada época, e Romulus não foge à regra ao nos mostrar que, não importa o quanto a tecnologia avance e a humanidade colonize as estrelas, a exploração do trabalhador pelo grande capital continua sendo a verdadeira face do horror, com jovens sendo sacrificados em altar de corporações que veem a vida humana como um mero dano colateral aceitável.
É essa mistura de terror visceral, crítica social afiada e um respeito genuíno pela mitologia construída por Ridley Scott e James Cameron que transforma Alien: Romulus em uma experiência que vai muito além de um simples passeio no parque de diversões espacial, consolidando-se como uma obra que honra o legado do passado enquanto abre, com as mãos sujas de sangue e ácido, as portas para o que quer que venha a ser o futuro dessa saga inesquecível.



