Dica de Cinema

Quando a Luz Mata em Moscou

Quando a Luz Mata em Moscou

Quando a luz vira o maior perigo do planeta (e Moscou vira o pior destino turístico da história). Imagina só: você tá num barzinho chique em Moscou, bebendo, flertando, reclamando da vida. De repente o céu acende como se alguém tivesse ligado um monte de auroras boreais de mentira. Todo mundo olha pra cima, tira foto, acha lindo. E aí… puf. A pessoa ao seu lado vira cinza. Literalmente. Desintegra na sua frente. As luzes da cidade apagam. O silêncio cai como uma laje.

E você descobre que o inimigo é invisível, se alimenta de eletricidade e te caça pelo calor do corpo. Bem-vindo a A Hora da Escuridão (The Darkest Hour, 2011). O filme que tentou ser o Extermínio versão russa, o Guerra dos Mundos low budget e acabou virando aquele soco no estômago que a crítica nunca perdoou… mas que muita gente ainda lembra com um “caramba, que ideia louca”.

Moscou não é Nova York (e isso muda tudo)

A maioria dos filmes de invasão alienígena começa nos Estados Unidos. Casa Branca, Empire State, Times Square em chamas. A Hora da Escuridão resolveu fazer diferente. A história se passa inteira em Moscou. E não é um Moscou de cartão-postal. É a cidade real, cinzenta, imponente, com a Praça Vermelha vazia, o rio Moscou congelado de solidão e aqueles prédios soviéticos que parecem ter sido feitos pra aguentar o fim do mundo.

Dois americanos, Sean (Emile Hirsch) e Ben (Max Minghella), chegam pra vender um aplicativo de rede social. Só que o sócio sueco, Skyler (Joel Kinnaman, anos antes de virar o Robocop e o Will de For All Mankind), já roubou a ideia e fechou o negócio sozinho. Frustrados, os caras vão pra balada. Lá encontram Natalie (Olivia Thirlby) e Anne (Rachael Taylor), duas turistas americanas. Cinco minutos de química forçada depois, o céu resolve explodir.

Os alienígenas não chegam de nave. Chegam como luz. São seres de pura energia, praticamente invisíveis, que desintegram qualquer humano que tocam e drenam toda a eletricidade da cidade. Celulares, postes, carros… tudo morto. Moscou vira um deserto de cinzas e silêncio.

A regra invertida do medo

Aqui tá o pulo do gato (e o que salva o filme de ser só mais um clone). Nesses filmes, a escuridão geralmente é o vilão. Você tem medo do que não vê. Em A Hora da Escuridão é o contrário. A escuridão é segura. A luz é a morte andando. Os alienígenas carregam um campo de energia. Quando se aproximam, qualquer lâmpada, mesmo desligada, acende. Celular vibra. Rádio liga sozinho. Os sobreviventes descobrem isso na marra e começam a usar lâmpadas penduradas no pescoço como detector de movimento. Se a luz acende… corre.

É uma inversão inteligente. O filme brinca com a ideia de que o perigo agora é o que você vê. E isso cria cenas de tensão genuína: um grupo andando por corredores escuros, ouvindo o silêncio, sabendo que qualquer clarão pode ser o fim. Eles também descobrem outras regras: os bichos se guiam pelo calor corporal e não enxergam através de concreto grosso. Ou seja, um prédio bem construído vira bunker. Uma gaiola de Faraday (aquela estrutura metálica que bloqueia campos eletromagnéticos) vira o santo graal. Tem até um russo inventor, Sergei, que monta uma arma de micro-ondas improvisada. Ciência de fundo de quintal misturada com desespero puro.

O elenco: caras bonitos em apuros

Emile Hirsch tenta carregar o filme nas costas. O cara tinha acabado de fazer Na Natureza Selvagem e ainda carregava aquele ar de “eu sou o próximo grande ator americano”. Aqui ele faz o típico herói de ficção científica: inteligente o suficiente pra descobrir as fraquezas dos aliens, mas não tanto pra não cometer as mesmas besteiras de sempre. Olivia Thirlby (a mesma de Juno) é a personagem mais decente do grupo. Rachael Taylor e Max Minghella cumprem tabela. Joel Kinnaman já mostra o charme sarcástico que depois explodiria em The Killing e Altered Carbon. O problema é que o roteiro (assinado por Jon Spaihts, o mesmo de Prometheus e Passengers) não dá tempo pra ninguém respirar. Os personagens são esboços. A gente sabe o mínimo necessário pra torcer pra eles não virarem cinza. E pronto.

Bastidores: fumaça, 3D e um produtor russo visionário

O filme foi rodado quase inteiro em Moscou, em 3D nativo (não conversão). Chris Gorak, o diretor, vinha de direção de arte em Clube da Luta e Minority Report. Era a estreia dele como diretor de longa. Timur Bekmambetov (o russo de Guardiões da Noite e Wanted) produziu e abriu as portas da cidade. Fecharam partes da Praça Vermelha. Esvaziaram ruas. Foi um negócio logístico de louco. Só que em agosto de 2010 Moscou pegou fogo. Incêndios florestais encheram a cidade de fumaça tóxica. A produção parou três semanas. Muita coisa teve que ser limpa digitalmente depois. O orçamento ficou em torno de 30 a 35 milhões de dólares. Arrecadou cerca de 64,6 milhões no mundo todo. Ou seja: não foi um desastre financeiro, mas também não pagou o café.

A crítica, porém, foi cruel. Rotten Tomatoes deu 12%. Metacritic 18. Consenso geral: “pode ser a hora mais escura da carreira de todo mundo envolvido”. No Brasil a recepção não foi muito diferente. Críticos reclamaram de clichês, personagens rasos e efeitos que, apesar de competentes, não impressionavam.

O que o filme acerta (e o que erra feio)

Acertos:

A ambientação. Moscou deserta é hipnótica. Aqueles planos largos da cidade cinza, coberta de cinzas humanas, têm uma melancolia que Hollywood raramente consegue.
A inversão luz/escuridão. É o tipo de ideia que fica na cabeça. O fato de os aliens não terem motivação explícita no começo. Eles só chegam, matam e mineram metais condutores. Depois a gente descobre que estão literalmente sugando a Terra. Sem discurso, sem embaixador alienígena. Só fome.

Erros:

Personagens de papel. Você esquece o nome de metade deles antes do intervalo (e o filme tem só 89 minutos).
Ritmo irregular. Tem momentos de tensão genuína e depois longos trechos de “vamos andando por aí até achar o próximo plot point”.
O final deixa a porta aberta pra sequência que nunca veio. E todo mundo torceu pra não vir.

Por que ainda vale a pena (se você topa o pacote)

A Hora da Escuridão não é um clássico. Longe disso. É um filme de gênero que tentou inovar no cenário e na natureza do inimigo, mas se perdeu na execução. Ainda assim, tem algo de fascinante nele. É o tipo de produção que mostra o que acontece quando Hollywood e a indústria russa tentam conversar: sai algo estranho, meio desajeitado, mas com personalidade. Hoje, olhando de longe, ele parece um fóssil interessante de uma época em que todo mundo queria fazer o próximo grande filme de invasão. Guerra dos Mundos (2005), Cloverfield, Skyline, Battle: Los Angeles… a lista é longa. A Hora da Escuridão tentou se diferenciar com a localização e a invisibilidade dos aliens. Não deu certo do jeito que esperavam. Mas a ideia de que a escuridão pode ser o seu melhor amigo ainda ressoa.

Então, se você gosta de ficção científica com cheiro de cinza e eletricidade estática, de cidades vazias e regras inventadas na hora do desespero… talvez valha a pena revisitar. Só não espere obra-prima. Espere aquele filme que você começa “só pra ver como é” e termina pensando: “pô, os aliens invisíveis foram uma ideia boa pra caramba… pena que o resto não acompanhou”. E é isso. Às vezes a hora mais escura não é a pior. Às vezes é só a mais estranha.

A HORA DA ESCURIDAO ELENCO

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