A Espada

    espadaPor Flávio Martins Pingo - -Quem é o melhor no uso da espada? perguntou o guerreiro ao mestre. -Vá até o campo perto do castelo, disse o mestre. Ali existe uma rocha. Insulte-a. O guerreiro, surpreso, retrucou: -Porque devo fazer isto? A rocha jamais me responderá de volta. -Então, ataque-a com sua espada, disse o mestre. -Tampouco farei isto, respondeu o discípulo. Minha espada se quebrará se o fizer. E se atacá-la com minhas mãos, ferirei meus dedos sem conseguir nada. Mas minha pergunta é outra: quem é o melhor no uso da espada? O melhor no uso da espada é aquele que se parece com uma rocha, disse o mestre. Sem desembainhar a lâmina, consegue mostrar ...

    que ninguém poderá vencê-lo. Tem-se o costume de considerar a espada como uma tradição essencialmente guerreira e, portanto, motivo de temor. Não se pode contestar que existe esse aspecto guerreiro neste símbolo; porém, seu sentido esotérico transcende seu caráter de violência e é encontrado em várias Ordens e crenças religiosas.

    Para um oficial das Forças Armadas, a espada representa não só a autoridade como também a vida militar a ser descortinada. Seja na declaração de aspirante, nomeação ou promoção ao primeiro posto, ela lhe é entregue, cerimoniosamente, como um símbolo material da autoridade e que deve ser usada na aplicação dos mais legítimos princípios da honra cultuados e praticados na carreira.

    O espadim do cadete da Academia Militar das Agulhas Negras e a espada de oficial general, réplicas da espada invencível do Duque de Caxias, enaltecem a aplicação daqueles princípios e valores, dos quais se destacam a responsabilidade, competência, a  bondade, a aplicação da justiça,  o respeito e o amor á Pátria e a tudo que a ela diz respeito.

    Caracteriza-se, portanto, não como um simbolismo puro, mas sim como um instrumento de exaltação do que existe de mais belo e puro na carreira do oficial: o uso da espada, ou da autoridade militar investida, para se cumprir os deveres e obrigações militares.

    Muitos a tratam apenas como uma peça metálica e que só o oficial detém.

    Entretanto, a cultura oriental nos revela uma expressiva sabedoria em relação a este símbolo militar.

    Para compreendê-la, devemos concebê-la como uma trilha a ser percorrida, a exemplo das artes marciais, que possuem um caminho interno constituído na forma de uma senda espiritual.

    Esta senda, dentro das artes guerreiras, é chamada de BUDO, e sua maior expressão é, sem dúvida, a conhecida pelos mestres como I AI DO. E esta é , dentre aquelas artes, a mais refinada e conservadora do espírito do BUDO. Utiliza-se a espada –Kataná- como arma cerimonial e seu treinamento e sua disciplina consistem em dominar o desembainhar, o corte e o embainhar dessa arma.

    O I AI DO fora utilizado inicialmente pelos samurais como forma de se defender de golpes inesperados. Consistia em um treinamento dos instintos para responder, rapidamente, a qualquer tipo de ataque imprevisto, principalmente quando o samurai se encontrasse meditando.

    Manejar bem a espada é uma tarefa difícil, mas não só pelo aspecto técnico, que é exigido a níveis próximos da perfeição, como pelo equilíbrio e pela capacidade de discernimento do praticante. A espada é símbolo da vontade do espírito e deve ser tratada de modo especial. As katanás no Japão possuíam um tratamento singular desde sua forja, que era executada artesanalmente por monges que dedicavam toda sua vida a esse sagrado ofício.

    A manufatura da espada japonesa  não era um simples ato de fabricar um objeto para uma batalha ou utilização específica: o mestre-espadeiro colocava seu espírito em todas as fases da fabricação, chegando ao ponto de abster-se de sexo, bebidas, carne e da presença das pessoas comuns durante todo o processo. Seu ateliê era um santuário sagrado, sendo o aço dobrado sobre si próprio em operações de forjamento sucessivo. O sentimento colocado em cada martelada era um ato religioso que conferia um espírito à sua lâmina, nas imersões na água, nas passadas na pedra de afiar, e a deixava viva com a energia de seu criador.

    Existe uma história que é relacionada ao espírito do artesão que era colocado nas fibras do aço: o mais famoso armeiro japonês-  MASSAMUNÉ, conhecido pelo seu espírito bom, sempre que podia ajudava as pessoas de seu vilarejo, via suas obras como um objeto artístico e instrumento para a busca da paz. Seu melhor discípulo foi MURAMASA, que apesar de aprender toda a técnica da arte, possuía um espírito ruim,e  devido a isso foi excluído do ateliê.

    Conta-se que ao colocar-se duas espadas, uma de MASSAMUNÉ e outra de MURAMASA em um regato, quando folhas são jogadas na água, elas são atraídas e cortadas pela lâmina da segunda e repelidas pela primeira. Isto é relacionado pelos estudiosos ao sentimento ruim que Muramasa colocava em suas lâminas.

    Ao conhecer esta arte marcial, a sublime arte de guerrear e de viver dos samurais, percebi sua semelhança com o ofício das armas e a destinação do oficial na estrutura militar de paz e de guerra.

    Lembrei da espada do samurai, que deve sempre estar bem limpa, polida, pura e sem nódoas, pois representa  sua alma, segundo o célebre Shogun TOKUGAWA IEYASU. A espada do oficial das Forças Armadas também.

    Capacete de TOKUGAWA EIYASU

    Certo dia divagava, quando me perguntaram sobre Virtudes. E novamente me vieram , fortes, implacáveis, justiceiras, as imagens das espadas que tinha na minha mente e os juramentos que fiz sobre elas. A crença de que a kataná , com o tempo, assume a personalidade do seu manejador me assustava. A espada, como a alma do samurai, sempre limpa e pura, seria o meu guia e pude responder com segurança sobre aquela característica da raça humana, que só dignifica quem a pratica.
    Juntas, estavam agora, na virtude, a minha espada de oficial, usada durante quase trinta anos, e a kataná que também me orgulho.

    Sim era ela, a espada fazedora de justiça que me alertava. Teria de mostrar-me sempre digno para portá-la e honrá-la, projetando na sua lâmina a pureza e o esplendor da virtude.

    De acordo com Helena Pietrova Blavatsky, na sua Doutrina Secreta, “ existe um outro aspecto em que ela simboliza:-... a luta que o homem deve conduzir contra os “Inimigos da Luz” e contrários à ordem e à Unidade de Deus.   A “guerra” sempre estabeleceu o equilíbrio e a harmonia (ou justiça) e assim, proporcionou a unificação de certo modo, dos elementos em oposição entre si.

    Isso quer dizer que o seu fim normal e sem dúvida sua única razão de ser, é a paz que só pode ser verdadeiramente obtida pela submissão à vontade divina colocando cada elemento em seu lugar com a finalidade de fazê-los todos concorrerem para a realização consciente de um mesmo Plano”.

    Era a missão definitiva de segurança desempenhada humildemente pela espada do guerreiro.

    A dualidade da espada-guerreira e de paz- nos conduz a harmonia e tolerância necessárias na nossa caminhada.

    É a busca do eixo no qual as oposições se reconciliam, entrando em equilíbrio justo e perfeito.

    Ver na espada o símbolo da honra e esforçar-se a merecê-la, tornando-a seu guia na senda espiritual, procurando sempre, de acordo com Helena Blavatsky, “... cumprir a missão do Guerreiro de Luz, que tem a sublime tarefa de projetar em sua lâmina toda a pureza, todo o esplendor e mostrar aos menos afortunados o verdadeiro caminho para a unidade de Deus e toda a Glória do Templo. Ao se fazer merecedor, não mais será um homem comum”.

    Para concluir, a espada ao mesmo tempo em que nos serve, no seu silêncio, de guia na senda espiritual, apontando para a necessidade da pureza da Alma, nos observa apontando seu gume para as nossas paixões não vencidas.

    Diz a espada do samurai- “Que não me desembainhe sem  motivo e não me embainhe sem honra.”

    E Não cora o sabre ombrear com a pena, diz ditado conhecido na caserna brasileira.

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