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    O Olho de Hórus – Philae O Princípio Feminino (Episódio 10) Parte 1

    amon_e_mutAproveitando a extensão da Ilha de Philae, dedicada desde tempos remotos ao culto de Isis, a força feminina geradora da espiritualidade na consciência do homem, veremos como a mulher ocupava um lugar privilegiado na hierarquizada sociedade egípcia. O universo egípcio estava fundamentado na dualidade, no masculino e no feminino, iguais entre si, responsáveis por gerar a ordem em meio ao caos, responsáveis por tornar o mundo cada vez mais perfeito para depois conservá-lo eternamente. Os sacerdotes do Olho de Horus ensinaram ao seu povo que o Deus único, o que está em todas as partes, tem uma parte masculina, a sabedoria com a informação absoluta, e uma parte feminina, a substância homogênea com o amor infinito.

    No topo do seu ordenado mundo divino, Atum, como era chamado esse deus único, sabedoria absoluta mesmo antes da manifestação do universo, já tinha uma parte feminina chamada Nun. Era a substância virginal, a matéria não diferenciada e homogênea, as águas ancestrais, o amor infinito. Atum e Nun, a dupla original, que se encontrava em repouso, ativa sua vontade divina, terminando o equilíbrio existente. Ao fazê-lo, transformam-se em Ptah e Sehkmet, o mesmo deus único, porém, com outras características distintas, pois sua própria vontade o pois em movimento. Ptah, a parte masculina do deus único, emite em formação criadora e Sehkmet, a parte feminina a gera em sua substancia de amor, manifestando-se o Fiat lux, a energia e a substancia radiante em movimento.

    Ptah e Sehkmet são o fogo multiplicador de tudo o que foi criado, eles geram outras duplas de divindades criadoras, as forças fundamentais, que foram chamadas Nethers, extensão da causa primeira em um universo divino. A ação desse fogo radiante por si mesmo, sobre a substância amniótica original gera Tefnut, a evaporação úmida, e Shu, o ar em movimento. Essa dupla divindade, Tefnut e Shu, o vapor e o ar em movimento, ajudam a modificar o espírito original, tornando-o denso, fazendo com que se materialize ao ser acionado e gere uma nova dupla; Jeb a Terra, e Nut, o céu. Dessa forma foram criados os mundos diferenciados no espaço, os reinos minerais sob a forma de sóis e planetas, os sistemas solares e as galáxias.

     

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    Neste mundo divino, nascem outras duas duplas; Osiris e Isis, Seth e Nephtys. Essa duas duplas de forças fundamentais em oposição se encarregam do processo evolutivo de todas as formas matérias no universo, para transformá-las novamente em espírito. Assim, pela ação das divindades criadoras a matéria original se transforma. Diversas combinações matemáticas produzem diferentes estruturas vibratórias, fazendo surgir nos planetas o reino vegetal, estacionário, e o reino animal, em movimento. Depois, em outro ato de criação, o deus único gera seu filho, a consciência do homem. Outra dupla, dessa vez humana, formada por um homem e uma mulher, e com capacidade de multiplicar-se. Ao fazer isso, Ptah e Sehkmet, a dupla que cria o universo, transforma-se em Amon e Mut, os princípios masculino e feminino do deus único, quando cria o homem. Foram feitos a sua imagem e semelhança, com a capacidade de criar em sua mente, de modelar e construir. Tem livre-arbítrio, para que ao compreender o resultado de suas decisões se tornem sábios, num processo evolutivo que leva muitas vidas.

    A estrutura egípcia do universo divino e humano estava fundamentada na dualidade, por tudo isso, a mulher com sua amorosa presença, tinha um papel muito importante na sociedade. Desde a rainha do Egito que gera o faraó, às sacerdotisas dedicadas ao culto de Isis e Hathor, e até a mais humilde mãe do mais simples trabalhador eram respeitadas e consideradas iguais aos homens. A ilha de Philae era dedicada a Isis, a figura que como mãe de Horus, simbolizava a maternidade. Isis ocupava no coração dos egípcios o mesmo lugar que hoje ocupa a Virgem Maria no coração dos católicos. Após milhares de anos ainda restam centenas de suas esculturas. Em muitas delas Isis aparece dando proteção e amor materno a um Horus recém nascido, em uma pose que qualquer católico identificaria como a mãe de Jesus.

     

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    A ilha recebia as iniciadas e sacerdotisas dedicadas ao seu culto, em uma sociedade igualitária. Centenas de mulheres chamadas Hemwet-neter eram responsáveis pelo treinamento musical, cantos, bailes, e pelo toque do sistro durante os rituais em todos os templos do Egito. Isis é a personificação da maternidade dedicada, da fidelidade e da delicadeza feminina. Isis fornece a substância, as emoções superiores, o êxtase, a intuição, que com o acúmulo de amor e verdade, tornam possível a geração de Horus, a consciência imortal e permanente. Isis é a força que leva o homem a espiritualidade em todas as suas reencarnações, enquanto vai abandonando aos poucos sua animalidade original, e transformando-se em um ser respeitoso, flexível e sábio. Esse ser vai em direção a consciência permanente, simbolizada por Horus, seu filho imortal. Isis é a matriz dessa consciência permanente. Ela gera no mundo interior de todo homem as emoções superiores, conseguindo que eleve sua freqüência de vibração. Isis manda desde as dimensões superiores, em direção a consciência, a inspiração que produz as idéias e que dão lugar as artes.

    Isis impulsiona a busca e o reconhecimento de Deus, impulsiona ao caminho a espiritualidade, fazendo com que cada homem livremente em seu interior possa sentir a emoção superior de adorá-lo e que o levará ao êxtase. A esta força maternal do universo foi dedicada a Ilha de Philae, uma ilha granítica no centro do Nilo, situada imediatamente após a primeira catarata ao norte da Núbia, na fronteira entre o reino egípcio e o reino cushita. Philae quer dizer ilha ou montículo sobre as águas que emergiu no tempo de Rá. Este nome sugere o uso sagrado deste lugar desde a mais remota antiguidade. Durante milhares de anos, os belos templos ali localizados, serviram de ponto de divulgação da cultura, da religião e da arte egípcia em direção a Núbia e ao Sudão. As ruínas mais antigas se encontram no canto sudeste. Ali existia um pequeno templo núbio orientado para a estrela Canopus e dedicado a uma divindade chamada Mandulis. O templo foi destruído em alguma das antigas guerras entre egípcios e núbios. Ao lado de suas ruínas os núbios construíram outro templo dedicado a Arensnuphis. Esse é o nome que deram a Osíris, o companheiro de Isis.

    Os egípcios passaram a controlar a ilha e construíram um primeiro templo dedicado a Isis. No ano 1.250 a.C. Ramsés II deixou um marco em que afirma telo reconstruído. O faraó Tarrarca faz o mesmo no ano 680 a.C., e 120 anos depois, no ano de 560 a.C., o faraó Amasís mandou talhar as imagens de seu pilono. 300 anos mais tarde, no canto sul, Nectanebo construiu um pequeno templo. No ano 250 a.C., os faraós ptolemaicos, herdeiros de Alexandre Magno, decidiram reorientar o eixo do templo em 21° para enfocar novamente a estrela Canopus, que tinha se deslocado com o movimento do sistema solar. Os templos estrelares eram desmontados e reconstruídos a cada 300 ou 400 anos, para enquadrar a estrela que estudavam, pois o movimento do sistema solar pela galáxia, a tirava da orientação dos pilonos. O templo deveria ser inteiramente desmontado para adequar-se ao novo eixo, mas nesses tempos finais, os Ptolomeus estavam mais interessados na Grécia e Macedônia, por suas rivalidades com os outros reis Helênicos, com quem Alexandre Magno dividiu seu império. Sua localização em uma ilha tornava esse trabalho ainda mais difícil, por isso decidiram construir um templo com um segundo pilono que enquadrasse adequadamente a abóboda celeste, sem modificar o templo.

    Alexandria tinha se tornado a capital do Egito e ogrego o seu idioma oficial. No ano 31 a.C., Cleópatra VII foi derrotada na batalha de Action. Com seu suicídio, o Egito caiu na mão de Otavio, que se converteu em Augustus, o primeiro imperador romano. Os imperadores romanos construíram outros templos em Philae. Trajano começou a construção de um pequeno templo que nunca foi terminado. Seus capteis representam um feixe de papiros sobre os que ainda se encontram uns cubos de pedra que nunca chegaram a ser talhados com a efígie de Hathor. Philae foi um dos últimos lugares em todo Egito onde permaneceram sacerdotes dedicados ao culto antigo. Ali surgiram seitas gnósticas que mais tarde, com o nome de rosa-cruzes, maçons e iluminates, manteriam em segredo os conhecimentos egípcios. No ano de 553 d.C., a ilha, um dos últimos bastiões do chamado paganismo egípcio, foi dedicada a Santo Estevão e a Virgem Maria por um decreto do imperador Justiniano. No século XX, a ilha de Philae foi submersa pela represa de Assuahn. Com fundos da UNESCO, o templo e as demais construções foram desmontados, peça a peça, e reconstruídos na ilha de Alguikhia, a quem se deu a forma da ilha original.

    O templo foi orientado da mesma forma que o original. Norman Lokir registrou o eixo do templo original aos 76,5° sudoeste, com o intuito de focalizar os movimentos da estrela Canopus sobre o polo sul. Esta é a mesma estrela a qual estava orientado o templo de Edfu. Originalmente, as duas torres do pilono enquadravam Canopus, a estrela polar do sul, aos 15° sobre o horizonte, durante milhares de noites. Uma nova confirmação de que todos os templos egípcios estavam orientados para uma estrela ou para o sol. Do Nilo, já se vê a imponente construção com os dois pilonos que formam o grande pátio interno e a extensa colunata que forma um pátio que termina em frente ao pequeno templo de Nectanebo. O grande pátio externo tem uma forma de trapézio pela disposição de uma colunata dupla, formada por 32 colunas construídas em um ângulo que se abre em direção ao templo, produzindo uma ilusão de maior profundidade. As colunas, e um extenso muro que tem a distancias regulares, uma serie de janelas que se abrem para o Nilo, formam um imenso corredor. Todas as colunas são diferentes, como um conjunto de papiros. Seus capteis floreados de cores vivas tinham diferentes formas. As mulheres se iniciavam como sacerdotisas nos templos dedicados ao culto das divindades femininas, como Isis ou Hathor. Neles, educavam as responsáveis pela musica e pela dança que acompanhavam os rituais de todos os templos do Egito.

    PARTE 2

     

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