História e Cultura

Bat Masterson além da lenda

Bat Masterson além da lenda

Em 25 de outubro de 1921, em Nova York, Bat Masterson não estava diante de um pistoleiro, de um bando de assaltantes ou de uma multidão em um saloon. Estava sentado à sua mesa, trabalhando como jornalista esportivo, quando sofreu um ataque cardíaco. Morreu aos 67 anos — longe das pradarias, dos revólveres e da poeira que ajudaram a fabricar sua reputação. A cena parece escrita para desmontar um mito.

O homem lembrado como delegado de fronteira, jogador profissional e atirador do Velho Oeste terminou a vida entre papéis, notícias e prazos de redação. Bat Masterson foi menos uma caricatura de pistoleiro e mais uma criatura de transição: nasceu no Oeste violento e envelheceu na América urbana, industrial e midiática.

De Bartholomew, no Canadá, a “Bat” Masterson

MASTERSON FOTO

William Barclay “Bat” Masterson nasceu em 26 de novembro de 1853, em Henryville, Quebec, então parte do Canada East. Seu nome de batismo aparece em registros e biografias como Bartholomew Masterson; a forma William Barclay surgiu na vida adulta e passou a ser associada ao personagem público que ele construiu. Era filho de Thomas Masterson, canadense de origem irlandesa, e Catherine McGurk, nascida na Irlanda. A família se mudaria para os Estados Unidos, como tantas outras que atravessaram a fronteira em busca de terra, trabalho e uma chance de começar de novo. O futuro delegado cresceu nesse ambiente de deslocamento, num país que ainda se expandia para o Oeste a golpes de trilho, gado e armas.

A origem do apelido “Bat” é menos sólida do que a lenda costuma sugerir. Uma história popular diz que um morcego teria entrado na igreja durante seu batismo e dado origem ao nome. É uma imagem irresistível — quase um roteiro de cinema —, mas não há evidência confiável de que esse episódio tenha realmente acontecido. Outra possibilidade é que “Bat” tenha sido simplesmente uma abreviação de Bartholomew. A diferença parece pequena. Não é. O Velho Oeste foi povoado por fatos, mas sua memória foi embalada por histórias que sabiam vender uma boa cena.

A primeira morte e a reputação que veio depois

Masterson chegou ao Texas ainda jovem e trabalhou como caçador de búfalos e batedor. Em 1874, esteve ligado à defesa de Adobe Walls, um episódio marcante da Guerra do Rio Vermelho, conflito que envolveu tropas americanas, caçadores e povos indígenas das planícies. Essa experiência o colocou dentro do universo que mais tarde seria transformado em folclore nacional. Seu primeiro tiroteio ocorreu em 1876, em Sweetwater, Texas, local que depois seria conhecido como Mobeetie. A briga teria começado por causa de uma mulher. Masterson foi ferido na perna, e o homem que o confrontou, Melvin King, morreu. O detalhe que costuma desaparecer nas versões romantizadas é simples: ele não saiu ileso, nem o episódio foi um duelo limpo de salão. Foi uma briga confusa, rápida e brutal, como eram muitos confrontos no Oeste real.

O ferimento deixaria Masterson mancando pelo resto da vida. A bengala que se tornaria sua marca visual não era apenas um acessório elegante: ajudava a sustentar uma perna danificada. A cultura popular preferiu transformar a limitação física em pose. O homem ferido virou o cavalheiro impecável que caminhava com uma bengala como quem anuncia que já venceu a própria lenda. Em 1876, Masterson encontrou Wyatt Earp em Dodge City, no Kansas. A cidade era um ponto de passagem de boiadeiros, comerciantes, jogadores, prostitutas, pistoleiros e homens da lei. A fronteira não funcionava como uma linha entre civilização e barbárie. Funcionava mais como uma sala lotada, onde todos disputavam espaço e quase ninguém tinha certeza de quem mandava.

Masterson tornou-se delegado em Dodge City e, mais tarde, xerife do condado de Ford. Exerceu o cargo até 1879. Durante esse período, esteve associado a figuras como Wyatt Earp, Doc Holliday e outros nomes que acabariam reunidos, décadas depois, numa espécie de panteão do Oeste americano. Só que a imagem de “justiceiro solitário” não corresponde bem à realidade. A lei era frequentemente exercida por alianças pessoais, interesses econômicos e demonstrações de força. Um delegado podia ser respeitado numa noite e acusado de abuso na manhã seguinte. A fronteira tinha distintivos, mas não tinha a estabilidade institucional que hoje associamos à polícia e à Justiça.

O homem da lei que também vivia do jogo

Quando deixou os cargos oficiais, Masterson não se transformou de repente num cidadão pacato. Trabalhou como jogador profissional, atividade que o acompanharia por anos. O faro era-dependente, as mesas eram ambientes de risco, e a reputação valia quase tanto quanto as cartas. Ele também exerceu funções como delegado federal em Trinidad, Colorado. Sua carreira no Oeste não foi uma linha reta, mas uma sucessão de papéis que hoje parecem incompatíveis: caçador de búfalos, batedor militar, delegado, jogador e homem de imprensa. Essa mistura explica seu poder de sobrevivência. Masterson entendia a violência, mas também compreendia o valor da aparência. Sabia quando exibir autoridade, quando negociar e quando deixar que os outros acreditassem que ele era mais perigoso do que realmente precisava ser.

De pistoleiro famoso a homem de jornal

Em 1884, Masterson publicou em Dodge City o jornal Vox Populi, voltado à política local. A iniciativa revela uma faceta pouco lembrada: ele não queria apenas aparecer nas histórias dos outros. Queria ajudar a escrevê-las. Anos mais tarde, já em Nova York, tornou-se colunista e editor de esportes do New York Morning Telegraph. Escreveu sobre boxe, corridas de cavalos e outros esportes, acompanhando uma cidade que nada tinha a ver com as ruas de terra de Dodge City. O velho Oeste começava a desaparecer — e Masterson encontrou um novo palco nas páginas dos jornais.

Sua ligação com Theodore Roosevelt também contribuiu para manter sua projeção pública. Entre 1905 e 1909, aparece associado ao cargo de marshal dos Estados Unidos no Distrito Sul de Nova York, embora as descrições populares muitas vezes simplifiquem sua função como a de um “deputado indicado pelo presidente”. O título exato importa porque mostra a diferença entre a lenda e a burocracia real: mesmo um personagem de fronteira precisava circular por nomeações, repartições e redes políticas. Roosevelt gostava de homens que carregavam consigo a aura da ação. Masterson, por sua vez, sabia usar a própria biografia como uma espécie de cartão de visita. No Oeste, sua arma ajudou a construir o nome; em Nova York, foi o nome que passou a trabalhar por ele.

O mito ganhou bengala, chapéu e horário nobre

MASTERSON CINEMA

A transformação definitiva ocorreu depois de sua morte. Entre 1958 e 1961, a NBC exibiu Bat Masterson, série de televisão estrelada por Gene Barry. Foram 108 episódios de um personagem elegante, galante e controlado, quase sempre vestido com apuro, chapéu-coco e bengala. A produção televisiva não pretendia reproduzir o homem histórico em todos os seus contornos. Criou uma versão palatável para o público doméstico: um jogador sofisticado, capaz de enfrentar bandidos sem perder a compostura. O revólver dividia espaço com a etiqueta. A violência vinha coreografada, limpa, pronta para o intervalo comercial.

A Dell Comics levou a série para os quadrinhos em Four Color Comics nº 1013 e, depois, em Bat Masterson nº 2 a 9, publicados entre 1960 e 1962. As capas usavam fotografias da produção televisiva. O roteirista foi Gaylord Du Bois, e um dos primeiros trabalhos do desenhista Neal Adams também apareceu nessa adaptação. Foi assim que Masterson passou por três mortes diferentes. Primeiro, morreu como homem histórico, sentado em sua mesa de trabalho. Depois, foi reinventado pela televisão. Por fim, ganhou uma nova vida nas páginas coloridas dos quadrinhos.

O que sobra quando a lenda perde o brilho?

Sobra um homem mais interessante do que o herói perfeito. Bat Masterson participou de um período marcado por violência, expansão territorial, conflitos com povos indígenas, jogos de poder e construção acelerada de instituições. Beneficiou-se desse ambiente e também ajudou a moldar sua própria reputação dentro dele. Não há necessidade de transformá-lo em santo nem em demônio. A verdade é menos confortável: ele foi um profissional da fronteira, alguém que transitou entre o trabalho armado, o entretenimento, a política e a imprensa. Sua história mostra como a América aprendeu a converter homens violentos em celebridades — primeiro nos jornais, depois no rádio, na televisão e nos quadrinhos.

Talvez a imagem mais precisa de Bat Masterson não seja a do pistoleiro com a bengala, mas a do jornalista que morreu escrevendo. O Oeste que o tornou famoso já havia virado memória. E ele, que um dia viveu de sobreviver à bala, terminou sobrevivendo de outra coisa: da capacidade de transformar a própria vida em narrativa. A pergunta incômoda fica aberta: quantos dos heróis que ainda admiramos foram, na verdade, apenas homens habilidosos o bastante para controlar a versão da história que chegou até nós?