A Múmia do Pão de Açúcar: o Corpo Preso na Rocha que o Rio de Janeiro Nunca Conseguiu Explicar. Imagina só: você está escalando um dos cartões-postais mais fotografados do planeta, o vento bate gelado no rosto, e de repente sente um cabelo comprido roçando no seu ombro. Você olha para o lado. E lá está ele. Um corpo. Preso pela garganta numa fenda de pedra, ali há meses, ressecado como uma múmia egípcia, encarando o Rio de Janeiro do alto dos seus 396 metros de altura.
Não é roteiro de filme de terror. Aconteceu de verdade, numa manhã de setembro de 1949, no Pão de Açúcar. E o pior: até hoje, mais de sete décadas depois, ninguém sabe quem era aquele homem, como ele foi parar lá e por que motivo o corpo dele ficou entalado justamente naquele ponto, num dos trechos mais inacessíveis da montanha. Se você acha que já ouviu falar de todo tipo de mistério carioca, espera só até conhecer a história da Múmia da Gallotti.
Cinco amigos, uma trilha nunca explorada

Era dia 19 de setembro de 1949, mais ou menos sete da manhã, quando cinco rapazes se encontraram na Praça General Tibúrcio, na Praia Vermelha. Antônio Marcos de Oliveira, Laércio Martins, Patrick White, Ricardo Menescal e Tadeusz Hollup faziam parte do Clube Excursionista Carioca, o CEC, e tinham um plano ambicioso para aquele sábado: escalar o Pão de Açúcar por um caminho que ninguém jamais tinha aberto.
Até ali, existiam três vias conhecidas para chegar ao topo. Os cinco resolveram ignorar todas elas. Escolheram abrir uma quarta rota, mais íngreme, mais traiçoeira, num sistema labiríntico de fendas na rocha. Essa trilha levaria quase cinco anos para ser totalmente concluída e, quando finalmente foi vencida, em dezembro de 1954, ganhou um nome em homenagem ao senador Francisco Benjamin Gallotti: Chaminé Gallotti. Durante décadas, foi considerada a escalada mais difícil de todo o montanhismo brasileiro, um desafio que exigiria, ao final das contas, mais de 40 grampos cravados na pedra para se tornar viável. Mas naquela manhã de 1949, tudo o que os cinco amigos tinham eram cordas de sisal, coturnos com tachas e a coragem um tanto inconsequente da juventude. Equipamento rudimentar para os padrões de hoje, o suficiente para uma aventura e tanto naquela época.
Um sapato largado no meio do mato

Ainda na base do morro, antes mesmo de encostar a mão na rocha, o grupo passou por uma clareira na Mata Atlântica. E lá, largado entre as árvores, um sapato de mulher, gasto e deteriorado pelo tempo. Tadeusz Hollup, o mais novo do grupo, tinha 19 anos e um senso de humor à flor da pele. Olhou para o calçado, riu, e brincou com os colegas: será que, daqui a pouco, eles não iam acabar encontrando a dona daquele sapato? Ninguém deu muita bola. Hollup chutou o sapato para longe e a turma seguiu escalando. Ele contaria essa cena décadas depois, já com quase 90 anos, numa entrevista ao Esporte Espetacular, da TV Globo, em 2017. Hollup morreu em agosto de 2018, aos 88 anos, sendo o último sobrevivente daquele grupo que abriu a Gallotti. E, até o fim da vida, guardou a lembrança de ter tratado como piada algo que, horas depois, deixaria de ser engraçado.
O achado que ninguém esperava
A escalada seguiu seu curso. Por volta das 11h30 da manhã, Antônio Marcos de Oliveira, o caçula do grupo, com apenas 18 anos, avançava sozinho por um trecho mais alto quando o vento soprou mais forte. Alguma coisa comprida e escura bateu no seu ombro. Ele olhou de canto de olho. Era cabelo. Cabelo humano. Oliveira levou o maior susto da vida dele. Ali, entalado numa fenda estreita que os alpinistas apelidariam de "chaminé", estava um corpo preso pela garganta na rocha. Gritou para os companheiros mais abaixo: tinha um morto ali em cima. Hollup e Menescal, lembrando da brincadeira do sapato, caíram na gargalhada, achando que era mais uma piada do garoto. Só que dessa vez não era brincadeira nenhuma.
Quando os outros subiram e viram o corpo de perto, o clima mudou completamente. O cadáver tinha cabelos longos, o que, à primeira vista, fez todo mundo pensar que fosse de uma mulher. E o detalhe mais estranho de todos: em vez de estar em decomposição, como seria de se esperar depois de tanto tempo exposto ao tempo, o corpo estava seco, endurecido, mumificado. Uma múmia, ali, pendurada numa das paisagens mais bonitas do Brasil. Os cinco decidiram, ali mesmo, interromper a escalada. Aquela conquista tão sonhada da nova via teria que esperar mais alguns anos. Agora havia algo bem mais urgente para resolver: chamar a polícia.
A perícia que virou notícia em todo o Rio
No dia seguinte, o grupo voltou à Urca acompanhado de policiais, legistas e uma verdadeira multidão de repórteres. Usando grampos, martelos e brocas, eles próprios ajudaram a descer o corpo até a clareira, onde os bombeiros aguardavam. A cena virou manchete em praticamente todos os jornais cariocas. E foi aí que a primeira grande suposição desabou. O legista José Seve Neto examinou o corpo e chegou a uma conclusão que pegou todo mundo de surpresa: apesar da cabeleira longa, aquele não era o corpo de uma mulher, e sim de um homem. Segundo o laudo publicado n'O Globo em 20 de setembro de 1949, tratava-se de um indivíduo branco, de compleição franzina, cerca de 1,60 metro de altura e aparentando uns 35 anos de idade. Vestia um suéter e uma camisa de algodão sem mangas. Não havia fraturas, marcas de bala ou de faca. E, o que tornaria tudo ainda mais complicado: nenhum documento de identificação. Os peritos calcularam que o corpo já estava ali havia pelo menos seis meses.
Por que o corpo virou uma múmia?

Talvez essa seja a parte mais fascinante de toda a história: como um cadáver, exposto ao relento numa das montanhas mais úmidas e batidas pelo vento do Rio, conseguiu se transformar numa múmia em vez de simplesmente apodrecer? A resposta está na proximidade com o mar. Segundo explica o químico Emiliano Chemello, da Universidade de Caxias do Sul, a maresia carrega uma concentração alta de sal, e o sal tem uma propriedade e tanto: ele absorve a umidade do ambiente ao redor, inclusive dos tecidos de um corpo. Isso retarda drasticamente o processo natural de decomposição. É basicamente o mesmo princípio usado pelos egípcios milênios atrás, quando embalsamavam seus mortos com natrão, um minério rico em carbonato de sódio, aplicado tanto por dentro quanto por cima do cadáver para acelerar a desidratação. No Pão de Açúcar, quem fez esse trabalho foi a própria natureza: vento constante, sol forte e ar carregado de sal, dia após dia, mês após mês, até transformar aquele corpo em algo parecido com as múmias que a gente só espera ver dentro de um museu.
Quem era, afinal, a Múmia da Gallotti?
Aqui está o verdadeiro coração do mistério. Apesar de toda a repercussão na imprensa, das fotos publicadas, do caso rodando o Rio inteiro, absolutamente ninguém apareceu no Instituto Médico Legal para reconhecer aquele corpo. Nenhum parente. Nenhum amigo. Nenhuma pista concreta. E, décadas depois, a identidade do homem continua um enigma completo. Isso não impediu, claro, que surgissem teorias, e cada uma delas revela um pedaço diferente do Rio de Janeiro daquela época. Uma das primeiras versões, defendida pelo extinto jornal A Noite, apontava que o corpo pertenceria a um morador de rua que teria se perdido na mata e, de alguma forma, despencado morro abaixo até ficar preso naquela fenda.
Já Rodolfo Campos, roteirista e diretor do curta-metragem A Múmia da Gallotti, de 2009, defende uma hipótese bem diferente e bem mais delicada: para ele, os cabelos compridos e o fato de o corpo estar vestido de um jeito que, à primeira vista, remetia a uma mulher, sugerem que poderia se tratar de uma pessoa trans que estivesse fugindo de alguma perseguição e tentando se esconder na mata densa da Urca. É uma teoria que carrega uma pergunta pesada por trás: será que o mistério da múmia do Pão de Açúcar, no fundo, esconde um caso de violência transfóbica que nunca chegou a ser investigado como tal?
Existe ainda uma terceira linha de raciocínio, que ligava o corpo a moradores de uma favela que, à época, ficava encravada bem entre o Morro da Urca e o Pão de Açúcar. Só que o historiador Milton Teixeira, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, rebate essa versão. Segundo ele, naquela região existia uma caverna onde, nos anos 1940, morava um pescador e artesão português, vivendo praticamente como um eremita. Nos anos 1960, esse homem passou a dividir o espaço com um casal de retirantes cearenses, até que, em 1968, os militares determinaram a remoção dos três moradores dali. Hoje, segundo Teixeira, restam apenas morcegos habitando aquela caverna. Nenhuma dessas teorias, até hoje, foi comprovada. Nenhuma foi definitivamente descartada.

O destino final: uma vala sem nome
E o corpo? O que aconteceu com ele depois de toda aquela comoção nos jornais? Aqui a história termina de um jeito melancólico. Sem identificação, sem família reivindicando o corpo, sem nenhum interesse institucional em preservá-lo para estudo, a múmia do Pão de Açúcar acabou sendo sepultada como indigente. Nada de vitrine de museu, nada de pesquisa científica aprofundada sobre um caso de mumificação natural tão raro em pleno litoral tropical. Só uma cova comum, sem nome, sem lápide, sem ninguém para visitar. Existe até uma comparação irônica e triste que costuma aparecer quando essa história é contada: assim como boa parte do acervo egípcio de múmias e artefatos que fazia parte da coleção do Museu Nacional do Rio se perdeu no incêndio de 2018, a múmia carioca também desapareceu, só que de um jeito silencioso, décadas antes, engolida pela burocracia e pelo esquecimento em vez de pelo fogo.
Um mistério que resiste ao tempo

Passaram-se mais de 75 anos desde aquela manhã na Praça General Tibúrcio. A Chaminé Gallotti continua lá, sendo escalada até hoje por montanhistas que conhecem cada detalhe dessa história macabra. O Pão de Açúcar segue como um dos símbolos mais reconhecíveis do Rio de Janeiro, estampado em cartão-postal, aparecendo em qualquer busca de imagens da cidade, recebendo milhares de turistas todos os anos de bondinho. E, ainda assim, bem ali, numa das fendas daquela montanha, existiu um homem cuja identidade se perdeu para sempre. Ninguém sabe o nome dele. Ninguém sabe exatamente como ele foi parar naquele lugar isolado e perigoso. Ninguém sabe se foi vítima de um crime, se tirou a própria vida, se estava fugindo de alguma coisa ou de alguém. O que restou foi uma pergunta sem resposta, suspensa entre o mar e a pedra, exatamente como aquele corpo ficou suspenso na chaminé por meses, antes de ser encontrado por cinco amigos que só queriam abrir uma nova trilha de escalada. Às vezes é isso que uma montanha guarda: não só recordes e conquistas, mas também segredos que nem o tempo consegue desenterrar.