Culto, Fome e Escravidão: A Coreia do Norte Sem Filtro Nenhum

Culto, Fome e Escravidão: A Coreia do Norte Sem Filtro Nenhum

O País Onde os Mortos Ainda Mandam: A Verdade Crua Sobre a Coreia do Norte dos Kim. Kim Il-sung está morto desde 1994. Mesmo assim, ele segue sendo, hoje, o chefe de estado da Coreia do Norte. Não é força de expressão, não é erro de tradução. O homem foi declarado por lei Presidente Eterno do país quatro anos depois de parar de respirar. O filho dele, Kim Jong-il, morreu em 2011 e virou secretário-geral vitalício do partido pouco depois do velório.

Desde 2016, pai e avô "orientam espiritualmente" — de onde quer que estejam — o neto que hoje segura as rédeas do país: Kim Jong-un.

Seja bem-vindo à única monarquia comunista do planeta.

Uma família, três gerações, nenhuma eleição

COREIANORTE CLA KIM

Desde 1948 a Coreia do Norte é comandada pela mesma linhagem de sangue. Kim Il-sung fundou o regime e ficou no poder até morrer, em 1994. Seu filho, Kim Jong-il, assumiu e ficou até 2011. O neto, Kim Jong-un, governa desde então. Três homens, mais de setenta e cinco anos, um único sobrenome. Nenhuma eleição livre jamais decidiu quem sentaria nessa cadeira. E aqui vai o detalhe que costuma escapar: não existe separação entre Estado e família Kim. Na prática, o território inteiro pertence a Kim Jong-un. Ele acumula, ao mesmo tempo, a presidência da Comissão Militar Central, a presidência da Comissão de Defesa Nacional, o posto de Comandante Supremo do Exército Popular da Coreia, a presidência da Comissão de Assuntos Estatais e a presidência do Partido dos Trabalhadores. Um homem, cinco cargos supremos. O apelido oficial para essa figura é Líder Supremo, o mais próximo que um ser humano vivo consegue chegar de virar uma divindade em vida.

O deus vivo mora numa mansão com pista de tiro

Pyongyang, a capital, tem pouco mais de 3 milhões de habitantes e é um dos centros urbanos mais fechados do planeta — quem entra, entra com escolta; quem sai, sai com autorização. É lá que fica a residência Ryongsong, o endereço de Kim Jong-un: spa, pista de atletismo, campo de tiro próprio. Enquanto isso, o resto do país reparte trezentos gramas de comida por dia, segundo levantamento da ONU. A distância entre o palácio e a fila do racionamento não é uma metáfora, é geografia.

Ditadura tem nome, e por lá cabem todos

COREIANORTE ESPAÇO1

Pode chamar de autocracia, do grego "aquele que governa sozinho". Pode chamar de ditadura. Os dois rótulos servem, e servem bem. Segundo o Índice de Democracia mais recente, 61 países do mundo hoje são classificados como regimes autoritários, abrigando 39% da população mundial — mais de três bilhões de pessoas acordando, todo santo dia, sem direito a voto livre, sem oposição, sem imprensa independente. Desse contingente gigantesco, pouco mais de 26 milhões de pessoas respondem a um déspota de 1,70 metro, fumante inveterado, com sobrepeso considerável, fã de basquete e pouco tolerante a quem o contraria. A conta é simples e desconfortável: um sexto da humanidade vive sob esse tipo de regime, e a Coreia do Norte costuma aparecer, entre os especialistas, como o caso mais extremo de todos.

Campos de concentração e o preço de discordar

Milhares de presos políticos estão detidos em campos de concentração espalhados pelo país, a maioria condenada por ousar contrariar Kim Jong-un ou por ter parentes que ousaram. Dentro desses espaços, tortura, espancamento, fome deliberada e condições sanitárias quase inexistentes são rotina documentada. Um relatório da ONU chegou a afirmar que a gravidade e a escala dessas violações não têm paralelo no mundo contemporâneo. Mulheres e meninas são alvo recorrente de violência sexual, inclusive em detenção preventiva — antes mesmo de qualquer julgamento. As autoridades norte-coreanas, previsivelmente, negam tudo.

Vigilância total, ignorância garantida

COREIANORTE ESPAÇO2

Quase nada sobre esse país é transparente. A imprensa é inteiramente estatal. Mais de 80% da população não tem celular, e quem tem não pode fazer ligação internacional. Baixar um aplicativo exige ir presencialmente a uma loja física — e só estão disponíveis apps pré-aprovados pelo governo. A internet de verdade é privilégio de estrangeiros e funcionários graduados do Estado; o cidadão comum navega na Kwangmyong, uma rede fechada que só mostra o que o regime decide mostrar. Os computadores nem rodam Windows nem Mac: usam o Red Star OS, sistema operacional próprio construído sobre Linux, mas todo verticalizado para servir ao controle estatal. Cada família está registrada numa unidade de bairro chamada inminban, que reúne de 20 a 50 famílias vizinhas sob supervisão de um líder local. O trabalho desse líder, sem eufemismo, é vigiar o próprio grupo. Não há sinal de rádio ou TV estrangeiros. Os livros de história foram escritos pelo próprio Kim Jong-un — não é piada — dedicados a reescrever o passado e ensinar às crianças a versão oficial, por mais absurda que seja.

O culto que virou religião

Como os ícones do cristianismo no Ocidente, os retratos dos três Kim são artefatos quase sagrados. Toda casa precisa manter o conjunto pendurado na parede. Estátuas então nem se fala: só de Kim Il-sung, existem mais de 34 mil espalhadas pelo território. Ninguém pode se referir a um Kim pelo nome puro — é sempre precedido de título, algo como "caro líder" ou "grande líder". As datas de nascimento do avô e do pai, 15 de abril e 16 de fevereiro, são os dois pontos mais sagrados do calendário nacional. Há até flores dedicadas a eles: a Kimilsungia e a Kimjongilia. Ministérios inteiros, agências ferroviárias, comitês de educação — todos são obrigados a manter uma estufa cultivando essas plantas. A ironia é cruel: convenções científicas internacionais impedem que uma espécie batizada seja rebatizada depois. Estátuas podem ser derrubadas, retratos podem parar no lixo no dia em que a dinastia cair — mas as flores, tecnicamente, sobreviveriam a qualquer revolução.

Do outro lado da fronteira, o espelho quebrado

COREIANORTE RESIDENCIA

A prova de que nada disso é destino inevitável fica a poucos quilômetros dali: Seul, capital da Coreia do Sul. Mesma península, mesma etnia, mesma língua, mesma história por mais de mil anos — até a divisão, há mais de sete décadas, transformar lugares parecidos em polos opostos. O sul, sob influência americana, virou uma economia de mercado dinâmica. O norte, sob influência soviética, ficou congelado numa economia planificada e rudimentar. A Coreia do Sul hoje é uma república multipartidária, com presidente eleito por voto direto e sem controle sobre legislativo ou judiciário — o atual ocupante do cargo é Lee Jae-myung, que assumiu em 2025 depois de um episódio e tanto: o presidente anterior declarou lei marcial da noite para o dia, foi impedido pelo Congresso horas depois e acabou destituído pela Justiça, levando o país a uma eleição antecipada. Imperfeito, turbulento, cheio de crise — mas democracia de verdade, com alternância de poder, oposição real e instituições que se enfrentam publicamente. A Coreia do Norte, no mesmo período, teve exatamente três chefes de estado.

Os números da desigualdade entre os dois países beiram o absurdo. Nos anos 1960, a renda de um sul-coreano médio era comparável à de um dos países mais pobres da África — mais baixa, inclusive, que a de vários vizinhos asiáticos. Seis décadas de crescimento sustentado transformaram a Coreia do Sul num dos países mais ricos do planeta, com uma renda per capita hoje cerca de trinta vezes maior que a do vizinho do norte. Um sul-coreano vive, em média, cerca de onze anos a mais que um norte-coreano — e, como se alimenta melhor, chega a ser vários centímetros mais alto. A diferença entre luz e escuridão nessa fronteira é tão gritante que aparece em fotos de satélite tiradas do espaço.

Juche: a ideologia que significa o que o governo quiser

No centro de tudo isso está uma filosofia batizada de Juche, traduzível como "autossuficiência" — uma mistura de marxismo, confucionismo, nacionalismo, militarismo e autoajuda de araque. Na prática, Juche significa o que o governo precisar que signifique em cada momento, com a mesma elasticidade doutrinária de uma seita fechada. O país até tem um calendário próprio baseado nela, começando em 1912, ano de nascimento de Kim Il-sung. O problema é que a doutrina da autossuficiência total nunca bateu com a realidade. Longe da propaganda, a Coreia do Norte sobrevive há décadas da generosidade alheia. A fome, admitida pelo próprio governo, ainda ronda o país: segundo a UNICEF, cerca de 10 milhões de norte-coreanos não têm segurança alimentar, e 140 mil crianças menores de 5 anos sofrem de desnutrição aguda agora. Nos anos 1990, na chamada Marcha Árdua, a fome matou entre meio milhão e três milhões de pessoas. Hoje a população sobrevive, segundo a ONU, com trezentos gramas de comida por dia — menos do que se consome, em média, em Uganda ou Bangladesh. Todos os anos, China, Rússia, Estados Unidos e Coreia do Sul enviam toneladas de alimentos para tapar esse buraco.

O mercado paralelo que o Estado finge não ver

Com a fome batendo à porta, boa parte da sobrevivência real do povo norte-coreano acontece à revelia do governo, num mercado informal chamado Jangmadang. É lá que remédios, itens de higiene e alimentos atravessam a fronteira clandestinamente, junto com produtos chineses baratos e — motivo de pânico oficial — séries de TV e músicas sul-coreanas. Kim Jong-un já chamou o K-pop publicamente de "câncer vicioso". Quem é flagrado ouvindo o gênero no trabalho pode pegar até 15 anos de prisão. Um regime que reivindica governar em nome da classe trabalhadora não garante a ela, na prática, quase nenhum direito básico — a começar pela escolha do próprio emprego. A Coreia do Norte é um dos raros sete países-membros da ONU que sequer aderiu à Organização Internacional do Trabalho, e tem a maior prevalência de escravidão moderna do mundo: a cada dez norte-coreanos, um vive nessa condição, segundo o índice global de escravidão. Muitos trabalham em brigadas paramilitares controladas pelo Estado, erguendo obras e infraestrutura. A ONU acusa o país de vender ao menos 50 mil trabalhadores para o exterior — a maioria com destino a Rússia e China — num sistema de trabalho forçado com condições que a própria organização classifica como degradantes. Há ainda denúncias de trabalho escravo dentro das prisões e de trabalho infantil, estas últimas às vezes reconhecidas pela imprensa estatal.

Songbun: a casta que decide quem nasce livre

Nada disso impede que uma fatia enorme do já escasso orçamento do país — cerca de um quarto — vá parar nas Forças Armadas, mantendo um dos maiores exércitos permanentes do mundo, com mais de um milhão de soldados em alistamento obrigatório dos 17 aos 30 anos. Os filhos da elite, claro, costumam escapar do serviço. E quem é essa elite? A sociedade norte-coreana é dividida por um sistema de castas chamado songbun, que classifica cada cidadão conforme o grau de lealdade e proximidade com a dinastia Kim, quase sempre por herança de família. Foi o songbun que sempre decidiu quem podia morar em Pyongyang e quem ficava para trás nas províncias — mudar de província sem autorização, aliás, continua sendo ilegal até hoje. Quem é classificado como "hostil" enfrenta discriminação no emprego, moradia precária e acesso limitado à educação. O governo nega oficialmente que esse sistema exista, alegando igualdade perante a lei — o tipo de frase que só provoca risada em qualquer sala que conheça o assunto. Fugir também não é simples. A fronteira com a China tem mais de 1.400 quilômetros, e é o principal aliado do regime — o que não impede que autoridades chinesas costumem deportar refugiados norte-coreanos sem cerimônia de volta ao país de origem, onde a deserção é tratada como crime de traição contra a nação.

Os apologistas da ditadura — inclusive no Brasil

Questionar o trabalho de organismos internacionais e da imprensa que documentam esses abusos virou hábito recorrente de um pequeno grupo de simpatizantes do regime, alguns deles, sim, dentro do próprio Brasil. Para esse grupo, a única fonte confiável sobre a Coreia do Norte não é a ONU nem a imprensa internacional, mas a propaganda oficial do próprio Estado que está sendo investigado — uma lógica que se sustenta apenas dentro de uma teoria de conspiração envolvendo dezenas de países e milhares de jornalistas supostamente coordenados para mentir ao mundo inteiro.

A realidade, sem essa maquiagem, é bem menos generosa: um país isolado, empobrecido propositalmente, cruel com a própria classe trabalhadora, dependente da caridade estrangeira para não passar fome e comandado por uma família bilionária que transformou um território inteiro em propriedade privada. As estátuas um dia podem cair. Os retratos podem ir parar no lixo. Mas alguém ainda vai ter que decidir o que fazer com aquelas estufas cheias de flores batizadas com nome de ditador — porque, goste-se ou não da ironia, essas duas plantas devem sobreviver a qualquer coisa que aconteça com a dinastia que as inventou.