Estrelato, o Sonho Americano, mães exageradas e pedófilos: como é ser uma criança em Hollywood

    holype1Por Letícia Magalhães, 24/10/2017 - Quando os irmãos Lumière fizeram a primeira exibição de um novo invento em 28 de dezembro de 1895, eles estavam não apenas dando origem ao cinema, mas também ao gênero documentário. Os primeiros filmes exibidos, de curtíssima duração, a uma plateia atônita eram nada mais nada menos que documentários — e os documentários são ainda hoje os melhores filmes para mostrar as mazelas de dentro da indústria do cinema.

    O mais recente escândalo em Hollywood envolve o produtor Harvey Weinstein e dezenas de mulheres que o acusam de abuso sexual. É ótimo que possamos falar sobre esse assunto, e é ótimo que os abusadores estejam sendo desmascarados. Mas abuso sexual e pedofilia não são novidade em Hollywood. Por isso vamos falar especificamente sobre o documentário “An Open Secret”, da diretora Amy Berg, que estreou em 2014.

    De certa maneira, abuso e pedofilia são causados pela mesma soma de fatores: o Star System (Sistema de Estrelas Hollywoodiano), o Sonho Americano ou American Dream e a crença de que todos são substituíveis em Hollywood. Vejamos como os fatores se juntam para criar algo realmente terrível, que não deveria acontecer na maior fábrica de sonhos do mundo.

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    O American Dream

    Todo mundo sonha em ser estrela de cinema. A vida glamourosa dos atores e atrizes era um dos pilares de sustentação do Studio System (Sistema de Estúdio), e com o tempo o desejo pela fama foi incorporado ao American Way of Life — ele passou a fazer parte do American Dream (Sonho Americano). Com a globalização e as mudanças geopolíticas, o American Way of Life se espalhou, e hoje podemos encontrar em qualquer lugar muitas pessoas com o mesmo Sonho Americano: ser famoso.

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    Uma multidão se forma para fazer testes para um filme em “Salve o Cinema”: é o American Dream crizando fronteiras

    O filme “Salve o Cinema” (“Salaam Cinema”, de 1995), de Mohsen Makhmalbaf, demonstra isso perfeitamente: no filme, o diretor iraniano coloca um anúncio no jornal procurando por atores para seu próximo filme. Milhares de pessoas vão fazer o teste para o filme, todos eles acreditando piamente que têm tudo de que precisam para se tornarem estrelas de cinema. No Irã — um país que havia acabado de sair de uma guerra. Este é o alcance do American Dream.

    Estrelas mirins e mães loucas pela fama

    A época do cinema mudo viu muitas estrelas mirins, mas o mais famoso deles foi provavelmente Jackie Coogan. Após ganhar destaque ao lado de Cahrles Chaplin em “O Garoto” (1921), Jackie fez muitos outros filmes e estampou com seu rosto muitos produtos. Em 1935, quando Jackie fez 21 anos, ele descobriu que sua mãe e seu padrasto haviam gasto quase tudo dos quase quatro milhões de dólares que ele ganhou trabalhando no cinema. Não há relatos de que Jackie sofreu qualquer abuso sexual, mas ele foi o primeiro caso a mostrar que as estrelas mirins, mais do que qualquer um, precisavam de proteção.

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    Jackie Coogan se tornou uma superestrela aos 7 anos. Aos 21, descobriu que sua mãe gastou toda sua fortuna.

    Naquela mesma época, Shirley Temple era assediada pelo produtor Arthur Freed. Ginger Rogers era perseguida por um executivo do estúdio. Judy Garland era forçada a fazer uma dieta muito restritiva para não engordar. Jean Simmons era assediada pelo magnata Howard Hughes e, quando ela recusou as investidas dele, ouviu que nunca mais trabalharia em Hollywood.

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    Natalie Wood, que começou como estrela mirim, foi estuprada por outro ator quando era adolescente — e todas as evidências apontam par Kirk Douglas como o culpado. A Velha Hollywood estava cheia de homens nojentos. E também cheia de “consertadores” (fixers), que arrumavam casamentos e abortos para as atrizes que, expressando livremente a sexualidade, engravidavam ainda solteiras.

    Algumas pessoas podem estar perguntando: onde estavam as mães destas crianças e adolescentes? Bem, algumas delas estavam se dedicando à carreira dos filhos até mais do que as próprias crianças. Há uma figura comum no entretenimento: a mãe louca pela fama (“overbearing stage mother”). Veja, por exemplo, a musa dos anos 1930, Jean Harlow. Ela estreou no cinema em 1928, quando tinha apenas 17 anos, e passou a usar o nome verdadeiro de sua mãe como nome artístico. De certa maneira, a menina Harlean Carpenter estava realizando os sonhos fracassados de estrelato da mãe, Jean. Em 1937, uma série de fatores, como um problema nos rins devido à escarlatina e a combinação na mente da mãe de Jean de amor pela religião e desprezo pela medicina moderna, levaram Jean Harlow a falecer, quando ela tinha apenas 26 anos. Jean foi provavelmente sexualmente abusada pelo padrasto quando tinha 16 anos e, durante a maior parte da carreira, foi tida mais como símbolo sexual que como atriz séria.

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    Jean Harlow, sua mãe, seu padrasto estuprador, Marino Bello, e seu primeiro marido, Hal Rosson

    A mãe de Jean era uma mãe louca pela fama, assim como a mãe da jovem atriz Ariel Winter, da série Modern Family. Sim, a mãe louca pela fama ainda existe, e pode ser cúmplice nos escândalos de pedofilia e abuso se estiver disposta a aceitar tudo para que seu filho seja famoso. Mas ainda há outros fatores, e culpar todas as mães de estrelas mirins pelo que os pequenos sofrem não é, de maneira alguma, uma solução aceitável.

    Hollywood: eles adoram tudo e não valorizam nada

    A indústria do cinema é muito maior do que imaginamos. Não há apenas atores, diretores, roteiristas e compositores. Há publicitários e repórteres. Há agentes e caçadores de talentos. Há pessoas trabalhando por trás das câmeras, nos efeitos especiais e na edição. E, sim estas pessoas também são abusadores em potencial para qualquer novato. Por que as vítimas de abuso sexual não denunciam? Há muitas razões. Sendo estas vítimas crianças e adolescentes, eles podem ter medo de nunca mais trabalhar na indústria do entretenimento — alguns deles realmente gostam do que fazem, enquanto outros só fizeram isso a vida toda. É o único mundo que muitos deles conhecem.

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    Ambos os atores Corey Feldman e Corey Haim foram molestados

    Muitas crianças e adolescentes têm medo de denunciar porque a indústria do cinema é, no final das contas, um mundo pequeno. As pessoas se conhecem. A rede de contatos é fina e cheia de conexões. Não é preciso fazer uma denúncia contra um magnata ou uma superestrela para ter a carreira arruinada: uma reclamação contra um agente ou publicitário é suficiente para que alguém nunca mais trabalhe em Hollywood.

    An Open Secret

    Um dos garotos entrevistados diz que todas as crianças querem ser atores, porque esta é profissão de muitos de seus heróis — e ele está certo. Isso faz parte do American Dream, como comentamos acima. Eu aposto que você conheceu ao menos uma pessoa que queria ser ator ou atriz quando criança. Talvez este tenha sido o seu sonho de infância. Mas, em Hollywood, é preciso pagar um preço muito alto para realizar sonhos de infância. O documentário “An Open Secret” apresenta diversos garotos cujo sonho de infância era prosperar no mundo do entretenimento — e estes garotos acabaram assediados ou abusados em Hollywood.

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    Cartaz do documentário “An Open Secret”

    Quando veio a era da internet, os pais perceberam, surpresos, que fotos de seus filhos estavam sendo comercializadas no eBay — vendidas por pessoas próximas, que deveriam estar protegendo as crianças. Esta era apenas a ponta do iceberg. Em 2011, uma investigação finalmente começou a expor os pedófilos de Hollywood.

    A saúde mental das crianças foi destruída com o abuso. Eles não sabiam para quem contar, ou quem deveriam culpar. Alguns consideraram suicídio, outros se tornaram viciados em drogas e bebida. Um deles tem sua história contada pelos seus pais — porque ele já se foi. Todos os meninos que aparecem no documentário não trabalham mais na indústria do entretenimento, e o sobrenome deles não é revelado — embora uma breve busca na internet seja o suficiente para acabar com esta privacidade.

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    E o que aconteceu com as estrelas mirins que continuaram trabalhando no cinema depois de crescidas? Será que as que se tornaram adultos problemáticos, como Macaulay Culkin, Drew Barrymore e Lindsay Lohan, sofreram abuso quando jovens? Sobre eles nós não sabemos, mas o ex-ator mirim Corey Haim, que faleceu em 2010 aos 38 anos, foi abusado e estuprado. Ele não foi a primeira vítima, nem a última. Corey não foi uma exceção: ele seguiu a regra em Hollywood.

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    Corey Feldman disse que “foi molestado e passado de mão em mão” e seu amigo Corey Haim foi estuprado pela primeira vez aos 11 anos

    E o documentário mostra que isso não acontece somente em Hollywood. Abuso e pedofilia são práticas comuns na indústria da música, na televisão, e até em startups de mídia, como a DEN (Digital Entertainment Network), empresa mencionada no documentário e que prometia “revolucionar o entretenimento”.

    O fato de que o documentário apresenta apenas meninos que acusam homens de abuso sexual pode parecer estranho, e até inadequado para ser analisado lado a lado com as atuais acusações de atrizes contra produtores e diretores. Pessoas mais conservadoras podem até achar que estes homens são “depravados”, porque seu comportamento não é apenas impróprio, mas também homossexual. Porém, tanto a pedofilia — sejam as vítimas meninos ou meninas — e abuso sexual têm algo em comum: a base deles é o poder. Eles existem quando o poder é usado para conseguir sexo — e também para fazer ameaças para que o sexo não possa ser negado.

    Obviamente, “An Open Secret” apresentou ao público uma verdade inconveniente, e o documentário sofreu consequências. Amy Berg teve dificuldades para encontrar um distribuidor — ninguém queria colocar o documentário em circulação. Afinal, o que não é visto não tem impacto. O sindicato dos atores, SAG-AFTRA, cujo co-fundador e responsável pelo Comitê de Jovens Atores (Young Performer Committee), Michael Harrah, foi denunciado no documentário, tentou processar Amy Berg.

    “An Open secret” deveria ter causado uma revolução na indústria, mas casos de pedofilia continuam acontecendo: o jovem ator Finn Wolfhard, de “Stranger Things” e “It”, trabalhava para um agente que foi recentemente acusado de abuso. Finn decidiu terminar seu contrato com o agente para não se tornar a próxima vítima. Bob Villard. Michael Harrah. Brian Peck. Marty Weiss. Marc Collins-Rector. Estes abusadores foram denunciados em 2014. Eles estão soltos. Não podemos esquecer estes nomes, e o mais importante: não podemos esquecer suas vítimas. E também não vamos esquecer que a combinação de ingredientes que dá origem aos abusadores pode ser desfeita com uma coisa: mudança cultural.

    Fonte: https://medium.com/

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