A Colonoscopia que Chegou ao Túmulo

A Colonoscopia que Chegou ao Túmulo

A Colonoscopia que Chegou ao Túmulo: O Descaso que Mata nas Filas do SUS. Boa tarde, é da Secretaria de Saúde, setor de regulação. Gostaríamos de saber se o senhor está apto e ainda tem interesse em realizar a colonoscopia. Essa foi a frase proferida do outro lado da linha. Do lado de cá, um silêncio atordoado, seguido por uma vontade incontrolável de rir. Não de alegria. De puro sarcasmo e revolta.

O homem que atendeu o telefone não era o paciente. O paciente estava morto. E a ironia do destino é que a família do Sr. Gerson Luiz dos Santos, um idoso de 72 anos da cidade de Juara, em Mato Grosso, teve que esperar a ligação "animadora" justamente para levar o seu corpo ao cemitério e desabafar com a lápide.

Não estamos falando de um problema crônico de qualquer sistema de saúde universal. Estamos falando de uma sentença de morte lenta, burocratizada e escancarada. A família de Gerson relatou que, quando o pedido foi feito, ele já estava acamado, imóvel, em estado debilitado. A médica, ciente da gravidade do caso, exigiu o exame como urgência máxima. A recomendação médica era clara, peremptória e escrita em preto no branco: o procedimento deveria ser feito em até 15 dias. Passaram-se dois anos. Gerson morreu. E a Secretaria de Saúde só então acordou, com a sutileza de um elefante numa loja de cristais, para perguntar se o senhor ainda "tinha interesse" em agendar.

A Fila Não Anda: O Cemitério como Ponto Final

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O vídeo gravado no cemitério se tornou viral porque destila a essência do sentimento de impotência do brasileiro frente ao Estado. "Vou ver se eles conseguem vir até aqui [no cemitério] para fazer essa colonoscopia, tá bom, pai?", afirmou o filho, com uma mistura de deboche e dor. A história do Sr. Gerson não é isolada. É um retrato cru de uma engrenagem falida. Na rede pública de saúde do país, as chamadas "filas de regulação" não funcionam como um mecanismo de proteção à vida, mas sim como um funil de negligência. Dados alarmantes apontam para a magnitude desse desastre. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva revelou que 94% dos brasileiros da Classe C concordam que o tempo de espera para consultas e exames no SUS coloca em risco a vida das pessoas.

A lista de espera por cirurgias, por exemplo, cresceu 26% em 2024, superando a marca de 1,3 milhão de pessoas. Segundo o Ministério da Saúde, o tempo médio de espera para cirurgias eletivas hoje gira em torno de dois anos e quatro meses [3]. Para doenças como o câncer, a lei federal estipula que o tratamento deve começar em no máximo 60 dias após o diagnóstico. Mas, na prática, os pacientes enfrentam uma espera média de 188 dias para cirurgias oncológicas. Enquanto isso, a burocracia estatal ultrapassa o tempo de vida do paciente de forma irreversível. O tempo médio para marcar uma consulta no SUS bateu recorde histórico em 2024, ficando em 57 dias. Em casos extremos, como em especialidades de genética médica no Mato Grosso, a espera pode chegar a incríveis 721 dias — exatos dois anos.

Dois Pesos e Duas Medidas: O Privilégio de Quem Legisla

A indignação com a morte de Gerson no Mato Grosso ganha ainda mais contornos de revolta quando se olha para o espelho da nossa própria estrutura política e administrativa. O Sistema Único de Saúde, embora garanta cobertura universal na teoria, na prática é um sistema segregado. E a principal linha de divisão não é apenas regional ou econômica, mas hierárquica. Os políticos que criam as leis, votam os orçamentos e aprovam os repasses para a saúde pública não dependem dela. Senadores e deputados federais possuem acesso garantido a planos de saúde financiados com dinheiro público e, em muitos casos, com cobertura vitalícia.

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Segundo o blog Lúcio Vaz, da Gazeta do Povo, o Plano de Saúde do Senado Federal consumiu impressionantes R$ 314 milhões em 12 anos. Esse convênio cobre senadores, ex-senadores e seus dependentes, garantindo atendimento em hospitais de elite, como o Sírio-Libanês e o Albert Einstein, e até mesmo cobertura para UTI aérea no exterior.

Ex-senadores com múltiplas aposentadorias, como Jorge Viana e Eduardo Suplicy, que acumulam rendimentos mensais acima de R$ 80 mil, continuam usufruindo desse plano de saúde de altíssimo custo [6]. Da mesma forma, deputados federais podem solicitar o reembolso de despesas médicas privadas. Enquanto a mãe de um paciente autista espera cinco anos por um psicólogo no Rio de Janeiro, enquanto milhares morrem na fila, a classe política e os altos funcionários públicos blindam-se com planos de saúde de primeira linha. A desconexão entre quem legisla e quem precisa do sistema gera políticas públicas desconectadas da realidade. Não há urgência para resolver o problema das filas no SUS, porque os formuladores das políticas nunca estarão na fila. Eles nunca esperarão dois anos por uma colonoscopia.

A Burocracia que Mata

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O desabafo do filho de Gerson é o grito de uma nação. A demora na realização de exames diagnósticos, como a colonoscopia, é fatal. Em pacientes acamados e debilitados, a investigação de sangramentos, obstruções ou tumores em estágio avançado exige agilidade. Cada dia de atraso na fila de regulação reduz drasticamente as chances de tratamento e aumenta a probabilidade de óbito. O Ministério da Saúde afirma que está trabalhando em novos programas para zerar essas filas, citando programas de redução de filas e a obrigatoriedade de estados e municípios reportarem dados atualizados ao sistema nacional. Mas enquanto os sistemas não se comunicam e enquanto a espera se estende por meses e anos, a vida se esvai.

A regulação de saúde deveria ser um instrumento para salvar vidas, não um cronômetro a favor da morte. A tragédia vivida pela família de Gerson Luiz dos Santos é a prova cabal de que, em muitos casos, a caneta da burocracia é mais letal que a própria doença. A pergunta que resta não é sobre como reduzir o tempo das filas em papel. A pergunta que deve ecoar em Brasília e nos gabinetes de saúde de todo o país é outra, mais cruel e necessária: quantas mais colonoscopias precisarão ser "autorizadas" em túmulos para que os responsáveis por essa estrutura pudessem entender, de fato, a gravidade do descaso?