Bem-Estar e Saúde

Fisiculturismo e a Morte em Série, a Máquina não para !

Fisiculturismo e a Morte em Série, a Máquina não para !

A Máquina que Devora Jovens: O Que Ninguém Vê Quando As Câmeras Desligam no Fisiculturismo. A cozinha do apartamento na Mooca, Zona Leste de São Paulo, ainda guardava o cheiro de amônia e suor de um treino pesado. No chão, estendido de forma inerte, estava Gabriel Ganley. Tinha apenas 22 anos, um rosto que ainda remetia à infância e o apelido de "Bebezinho Natural".

O laudo do Instituto Médico Legal não demorou para chegar, frio e cirúrgico: morte súbita por cardiomiopatia hipertrófica. O músculo do coração cresceu demais, espessou além do limite humano, e simplesmente falhou.

Isso aconteceu no dia 23 de maio de 2026. Hoje, o tempo passou. A pergunta que ecoa nas redes sociais é simples e direta: alguma coisa mudou na cena maromba? A resposta curta é que não mudou absolutamente nada. Nos últimos dois meses, o inquérito que prometia desvendar os bastidores desse caso desmoronou no silêncio. As leis prometidas para frear o abuso de anabolizantes não saíram do papel. E, mais grave ainda, o relógio de Areia da comunidade cobrou um novo tributo de sangue. Mailson Araújo Santos, fisiculturista baiano de 35 anos, morreu no último dia 13 de julho em Alagoinhas, preparando-se para a mesma competição que Gabriel almejava .

Aparentemente, existe uma máquina que impede qualquer mudança estrutural. Uma engrenagem maldita que continuará devorando jovens talentosos e ingênuos, a menos que alguém faça algo drástico. O fisiculturismo costuma demorar um pouco para cobrar o seu preço, mas quando a conta chega, ela chega pesada demais. E ela sempre chega.

O Luto que Vira Conteúdo e Patrocínio

Quando Ganley morreu, a internet inteira se voltou para a tragédia. Veio a semana do luto. Muitas homenagens verdadeiras, humanas. Outras, no entanto, foram bem menos preocupadas com a dor da família e muito mais focadas em defender patrocínios e enfatizar, de forma tosca, que "anabolizantes não matam".

A indústria do fisiculturismo não perde tempo. Deputados no Piauí e em Minas Gerais protocolaram a chamada "Lei Ganley", visando a criação de programas estaduais de prevenção ao uso indevido de esteroides anabolizantes e o incentivo a exames cardiológicos para atletas . O programa Fantástico fez matérias detalhadas, a CNN produziu séries investigativas, e até a TMZ noticiou o caso fora do Brasil. Todos prometeram mudanças. A promessa, afinal, rende visualização no dia e não custa nada. Todos sabem que a memória das redes sociais é curta, durando até o próximo escândalo ou até que a pauta mude.

A Indústria por Trás do "Shape"

Existe uma máquina, uma economia completa que envolve marcas de suplementos, laboratórios clandestinos, podcasts milionários, coaches de "shape", cursos online e influenciadores. E essa engrenagem tem uma única condição básica de funcionamento: ela precisa que novos integrantes entrem. Ela precisa que o jovem de 20 anos, sentado no metrô olhando o celular, continue deslumbrado. Ele precisa continuar acreditando que existe um modo seguro e certo de usar anabolizantes, que existe um "protocolo inteligente" que blinda o coração e os rins. Ele precisa acreditar que o acompanhamento de um "coach" da internet vai impedir o desfecho inevitável que todos nós, ou quase todos, conhecemos bem. Uma máquina assim não vai parar por causa da morte de um simples jovem, por mais popular que ele seja. Ela faz o processamento dessa morte. Transforma em conteúdo, gera cortes curtos para o TikTok e, em casos mais mórbidos, até vira produto. Silencia-se por um tempo, como um predador que observa o movimento da presa, e depois volta a funcionar como se nada tivesse acontecido.

A Zona Cinzenta do Mercado

Toda máquina perigosa precisa que um fiscal simplesmente não apareça. No caso do fisiculturismo brasileiro, nenhum grande veículo da mídia de manutenção investigativa profunda se estabeleceu. Fizeram as matérias sobre a morte de Gabriel, ganharam as visualizações na época e, agora, outras polêmicas entraram no lugar. Como de praxe acontece, celebridades, Copa do Mundo e o ciclo de notícias infinito tomou conta. Polícia Federal, Anvisa, Ministério da Saúde: nada, nada e nada. A Lei Ganley de Minas e do Piauí está parada, emperrada na burocracia. Muitas fontes próximas de Gabriel divulgaram que o atleta recebia anabolizantes de graça de patrocinadores. Se isso não deveria ser investigado a fundo, o que mais poderia ser? Enquanto o fiscal não aparece, o produto continua circulando de forma cada vez mais livre. O influenciador posta na rede com o link direto na bio e chega na casa do seguidor em duas horas. Todo mundo sabe como funciona. A pergunta que fica é: por que ninguém vai atrás e investiga de verdade?

A Culpa do Paciente e o Apagão de Dados

É tudo muito estranho e não é nenhuma novidade. Quando acontece algo ruim na comunidade maromba, nunca há punição de verdade para os responsáveis por alimentar esse mercado. As pessoas são realocadas. Saem de uma vitrine e logo aparecem em outra, discretamente. Claro que é a Justiça quem deve definir responsabilidades e penalidades, mas o modus operandi é muito estranho. Aparentemente, é apenas uma forma de acalmar a raiva e a indignação das pessoas nas redes sociais e realocar os envolvidos sem prejuízo algum ao faturamento do setor. O problema nunca foi falta de informação sobre o quanto essas substâncias são nocivas à saúde humana. Uma criança de 10 anos sabe, por exemplo, que fumar faz mal. Então, eu preciso ensinar nas redes como fumar para que as pessoas se conscientizem dos riscos do cigarro? A culpa sempre vai ser jogada no usuário de anabolizantes, nunca do sistema, nunca da máquina toda envolvida. Se ele competiu doente, dizem que ele foi irresponsável. Se parou por causa da saúde, dizem que é fraco, amarelou. O jogo parece ter sido desenhado para que ninguém consiga sair dele ileso .

Uma pergunta inconveniente ecoa: quantos médicos, endocrinologistas e cardiologistas foram chamados na internet, de forma urgente, para explicar e mostrar por que Gabriel Ganley morreu, nas primeiras semanas após a tragédia? A resposta mais inconveniente ainda é dura e trágica: zero. A ciência ficou calada enquanto os influencers falavam alto. Quando lendas do meio maromba aparecem dizendo que há um segredo para usar anabolizantes de forma "segura", dizendo que anabolizantes não matam ninguém, depois de dois meses da morte de Ganley, de mais uma morte que se acumula, a coisa fica complicada. A culpa de tudo parece ser sempre da genética, da insulina, dos estimulantes, do abuso, de tudo menos do anabolizante, a substância que sustenta toda essa máquina, com um mercado imenso por trás. A venda de testosterona no Brasil, por exemplo, bateu recorde em 2025, com um aumento de 700% nos últimos sete anos .

O Reflexo na Sociedade

E a culpa, também, é nossa. Da sociedade que consome o conteúdo perigoso, a fofoca proibida, as desgraças alheias. Isso dá muito mais visualização, cliques e likes, gerando muito mais dinheiro. Na época da morte de Ganley, vários influenciadores apareceram nas redes chorando, prometendo mudar, passar a mostrar claramente os malefícios do uso de anabolizantes, nunca mais falar sobre eles e incentivar qualquer forma de uso. Vídeos que, por si só, geraram muito retorno financeiro e, indiretamente, propaganda para esses produtos, de forma sutil e calculada. E muitos, além de não cumprirem nada, optaram pelo silêncio. Simplesmente não denunciando, mostrando, lutando contra, nada. Nem inclusive, retirando vídeos antigos nos quais falavam desses produtos, mostrando ciclos de drogas, vídeos que continuam no ar monetizando e com muitas visualizações, servindo como tutorial para a próxima geração de jovens deslumbrados.

Então, depois de meses da morte de Gabriel Ganley, a máquina voltou a funcionar a todo vapor. Agora com combustível novo. De qualquer forma, a máquina segue girando. O interesse das pessoas por influenciadores que hoje ou no passado divulgam anabolizantes continua em plena atividade. E vai continuar até dar uma pequena, muito pequena travada estratégica por causa de um "pequeno" incômodo, mais uma inconveniência "insignificante" como a morte de mais alguém, que inclusive já aconteceu com Mailson. Até quando vamos suportar e aceitar essa aberração toda como normal?