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Cine_Atlas_2009Deuses do Olimpo exibem sua força em espaços decadentes!!  Rua Voluntários da Pátria, 615. A poucos metros do viaduto da Conceição, no coração da cidade, num vão entre a galeria Santa Catarina e uma garagem de carros, se espreme o Cine Apolo, um dos últimos cinemas de rua de Porto Alegre. Apolo, deus da luz e do sol na mitologia grega, ilumina o palco do modesto salão aos protagonistas do espetáculo erótico ao vivo. Ali, de segunda a sexta, às seis e meia da tarde, um casal de atores exibe seus corpos nus e os malabarismos aos olhares indiscretos daqueles que pagam para ver as peripécias dos esforçados parceiros do sexo. O Apolo e o Atlas – a duas quadras de distância – ...

são as únicas salas de cinemas da Capital que oferecem esse tipo de show, no início dos filmes pornográficos. No Atlas, as apresentações são às terças, quintas e sábados, no meio da tarde.

Sexta-feira, 03 de outubro. Saída do trabalho, hora do rush, pressa, barulho, mo-vimentação de centenas de carros, ônibus e milhares de pessoas que voltam do trabalho para suas casas na região metropolitana. É ali, no meio dessa efervescên-cia, passados alguns minutos do horário marcado, que troco R$ 7,00 na bilheteria do Apolo por uma ficha metálica que libera a roleta e permite acesso ao espaço escuro.

Primeira constatação: o show é pontual. Percebo que o casal de atores já está se exibindo no estreito espaço encostado na tela de pano lá na frente. Fico parado uns minutos até que meus olhos se acostumem com a escuridão da entrada e eu consiga visualizar  o local mais adequado para sentar e fazer minhas observações. Um único e largo corredor central, ladeado por fileiras de poltronas vermelhas, vai se tornando mais nítido conforme avança o degradê de luz em direção ao cenário pobremente montado. Escolho um assento mais ou menos a uns vinte metros do palco, onde Luan – descubro o nome mais tarde – e sua parceira se exibem em cima de um sofá roxo para um público disperso na penumbra.

Ele, um homem com várias tatuagens nos braços e pernas, musculatura esculpida em ferros de academia, traz um lenço tipo pirata amarrado na cabeça e usa botas pretas de cano longo. Ela é magra, cabelos pretos, compridos, levemente ondulados e calça apenas um par de sapatos abertos.

O jogo dos corpos é quase em câmara lenta, morno, sem graça, não se ouve um ruído, qualquer exaltação que vá além do ato mecânico em si. Real, porém previsível e enfadonho. Nada que justifique a atenção de alguém por mais de alguns segundos. Mesmo assim, a platéia não tira os olhos da cena.

Aproveito para observar em volta, levantando os detalhes do ambiente e dos freqüentadores. Às minhas costas, por onde se entra no cinema, não se enxerga praticamente nada. Conforme os olhos percorrem em direção contrária, a luz do palco deixa ver uns vultos sentados e outros que se dirigem ao banheiro lá na frente. Ninguém sai, mas alguns ainda chegam atrasados. Um segurança volta e meia ameaça um passeio pelo corredor, mas não ultrapassa o meio do salão.

O espetáculo dura vinte minutos. Cinco do strip feminino – que perdi por ter che-gado atrasado – e quinze de sexo. Ao final desse tempo, ouvidos atentos registram um sinal sutil, como se fosse uma batida de palmas, e o show termina. Luan ensaia um agradecimento desajeitado com o corpo, enquanto sua parceira pega as peças de roupa despidas ao lado do sofá, e ambos descem a escadinha lateral que leva a um camarim improvisado nos fundos. Na seqüência, as lâmpadas do tablado são desligadas e a tela, então, se ilumina com os créditos de  “Renata de 4 pra você”, um DVD para exibição exclusivamente doméstica, conforme aviso na tela.

Saio do cinema bem devagar, na tentativa disfarçada de contar as pessoas que permanecem no local. Na ante-sala, procuro saber outros detalhes com Lúcia, da bilheteria, que havia me dado as primeiras informações por telefone no dia anterior, para saber da possibilidade de fazer a reportagem.  Dois homens grisalhos, pa-rados junto à vidraça que separa os espaços antes e depois da roleta, me observam com reprovação, enquanto conversam com um casal de motoqueiros. O mais desconfiado deles, observando meu diálogo com a funcionária, indaga se preciso de alguma coisa. Explico que sou formando de jornalismo e pretendo falar com o casal que faz o show. “Luan? Ele não gosta de dar entrevista”.

Luan surge na porta. É mais baixo do que parece à frente da audiência, jeito de poucos amigos. O rosto sofrido e com alguns vincos demonstra uma idade que provavelmente já vai além dos trinta anos. Enquanto pega rápido o cachê na bilhe-teria, me identifico e pergunto se podemos conversar. Luan aponta para um dos senhores de cabelos grisalhos, que suponho ser o dono do cinema, e responde “é com ele ali”. Olho para trás, ao mesmo tempo em que Luan desaparece dentro da sala escura. Nem ele nem sua companheira retornam até que eu vá embora. Os homens grisalhos saem para tomar um café. Os motoqueiros, que eu ainda não sei quem são, se preparam para ir embora.

Dirijo-me até Lúcia, que fica sentada na pequena salinha da bilheteria e pergunto se Luan é assim, sempre arredio. Ela responde que é um cara desconfiado e não dá conversa. O casal de motoqueiros caminha até a moto, estacionada num vão curto na entrada do prédio. Lúcia sugere que eu os entreviste. Pergunto por que deveria. Ela afirma que eles também fazem shows de sexo ao vivo. Surpreso, pergunto a Lúcia o nome deles. Márcio e Valéria. Como eles já tinham ouvido minha conversa com Lúcia e Luan,  vou direto ao ponto. Antes que eles subam na moto, chamo Márcio pelo nome e o convido para falar um pouco sobre a apresentação deles.

Para minha sorte, Márcio diz que não há problemas. Ligo o gravador, explico os objetivos do trabalho e faço perguntas sem roteiro programado. No espaço minús-culo da entrada do cinema, ficamos em pé ao lado da moto atravessada quase no meio da porta.

Márcio e Valéria são jovens, na faixa dos vinte e cinco anos. Os nomes são ver-dadeiros, mas o sobrenome eles escondem. Baixo e musculoso, cabelos curtos, óculos de grau, aparência amigável, se poderia apostar que executa qualquer ofício, menos o de ator de sexo. De fala mansa, se mostra desconfiado, monossilábico, estranhamente tímido. Valéria é da mesma altura do companheiro, morena de cabelos pretos pelos ombros, magra, ar sério, não tem nenhum atrativo que indique sua condição de atriz pornô. Quieta, acompanha a conversa, concordando com a cabeça nas afirmações do marido. Apesar da aceitação em conceder a entrevista, Márcio não se sente à vontade. No entanto, revela que são casados há oito anos e fazem shows desde setembro do ano passado. “Já faz um ano e um mês”. Atualmente, trabalham todos os dias, ora no Apolo, ora no Atlas, revezando as atuações com Luan. Com freqüência, fazem dois espetáculos no mesmo dia. Sexo em casa, “só uma vez, aos domingos”.

Precisando de dinheiro, a oportunidade surgiu quando “Luan pediu ajuda para ar-ranjar uma companheira para ele. Depois ele começou a faltar e eu e ela (refere-se à Valéria) viemos assistir a um show dele, como curiosos, e vimos que dava para a gente fazer... Aí conversamos com o Marcos (o dono dos dois cinemas, mais o Áurea, que só exibe filmes pornôs), fizemos um teste e foi indo até hoje”. A dupla não tem nenhum curso de teatro ou preparo técnico nas artes dramáticas, mas considera o ganha-pão um trabalho artístico, não pornográfico. “Para nós sempre foi uma coisa profissional, só pelo dinheiro realmente”.

Mesmo com toda a experiência de mais de um ano de atuação e de sua partner ser a própria esposa, Márcio diz que já falhou algumas vezes, mas dá para disfarçar, improvisando na coreografia. Porém, ele garante que não toma nenhum estimu-lante. “É ela (Valéria) que me excita... Com outra eu não ia conseguir”. No início, foi bastante difícil. Levaram uns três meses para conseguir relaxar em cena. “Hoje nós nem estamos para o público, é como se estivéssemos em casa”. Além dessa jornada de sexo explícito, Márcio e Valéria atendem “eles, elas e casais” quando surge um convite.

Encerro a primeira parte da entrevista, com a disposição de Márcio de que eu o procurasse em outra oportunidade, caso necessário. Márcio e Valéria colocam o capacete, sobem na pequena moto vermelha e vão embora atravessando o Túnel da Conceição.

Shows recebem todo tipo de público

Terça-feira, 07 de outubro. Cine Atlas, Avenida Júlio de Castilhos, nº 450. Atlas, assim como Apolo, era um dos deuses do Olimpo, representante de uma geração de seres violentos e monstruosos. Na ebulição do centro da Capital gaúcha, Atlas é um prédio velho, posicionado quase ao lado da poderosa Igreja Universal do Reino de Deus, a uma quadra da Estação Rodoviária. Dessa vez, meu objetivo é acompanhar o show desde o início, observar as diferenças entre os dois cinemas e pegar informações complementares com Márcio e Valéria. Ainda mais pobre que o Apolo, nessa sala o ingresso igualmente custa R$ 7,00 e o início do show é sempre pontual. Chego exatamente às 3 e meia e as únicas lâmpadas acesas são os que iluminam a bailarina, que começa a tirar a roupa e a dançar em movimentos ensaiados.

A distância da porta de acesso ao palco é bem menor que no Apolo. Calculo que deva ter uns 20 metros, mas a largura parece maior. São três fileiras de poltronas, cortadas por dois corredores estreitos. Isso permite que a luz sobre os atores ilu-mine de leve o ambiente até as últimas cadeiras. Sento, primeiramente, num lugar central e conto trinta e duas pessoas comigo. As paredes claras são visivelmente mal cuidadas; as poltronas, velhas e desconfortáveis, e o sofá que serve de única peça do cenário não esconde – mesmo visto de longe – o estado precário. O público é composto de homens, dos mais diferentes perfis, ainda que a grande maioria seja de pessoas evidentemente muito humildes. Não se vê mulheres, mas um dos funcionários me disse, em off, que passam todos os tipos pela bilheteria: jovens, velhos, lésbicas, homo e heterossexuais. Gente arredia a todo tipo de exposição. O que observei é que nesse cinema há muito mais velhos e pobres do que no Apolo, ainda que, num contraste interessante, circulem pelos corredores homens jovens e bem arrumados. O Atlas é o que se chama de um ponto de “pegação”. Homossexuais percorrem o salão em busca de parceiros para aventuras ali e fora.

A atriz termina seu rebolado sensual e entra o ator, já preparado para a apresentação. Noto que se trata novamente de Luan, e não de Márcio, como estava programado. Também a atriz, apesar de semelhanças físicas com Valéria, é outra, mais alta. Depois, descubro que Luan contrata garotas de programa para dividir o cachê. Nesse dia, por um contratempo, Márcio e Valéria não puderam comparecer.

Desta vez, a sessão parece mais empolgada, ao som de uma forte batida eletrônica e sob os olhares silenciosos da platéia. Porém, antes do final, vou embora sem as respostas que procurava.

14 de outubro, Cine Apolo, final da tarde. Boa parcela da massa trabalhadora da cidade se concentra nas imediações da Voluntários da Pátria, nas longas filas dos ônibus metropolitanos que partem lotados nesse horário.

Dessa vez, me certifiquei por telefone da presença de Márcio e Valéria. A mesma dança de cinco minutos, os malabarismos cronometrados, as variações ensaiadas, uma música romântica. Doze espectadores presentes. No final do encontro, apagam-se as luzes do palco e a tela de pano brilha para mais um filme pornô.

Espero o casal na rua, longe das vistas do pessoal do cinema. Uns dez minutos depois, Valéria sai, seguida por Márcio. Ao ser abordado, ele alega estar com pressa. Insisto que são apenas três ou quatro questões pendentes. As pessoas passam e se surpreendem com a cena incomum: um gravador apontado para o rosto de um casal em frente ao cine pornô na beira da calçada mal iluminada. A conversa, ao lado de um container de lixo, se torna travada. Entendo a preocupação de Márcio em não se expor na frente do local de trabalho, aos olhos dos passantes.  

Márcio e Valéria moram em Porto Alegre, mas não revelam o bairro. Eles me explicam que ninguém sabe dessas funções; portanto, não se sentem vítimas de preconceito por conta da profissão. Logo adiante, ele confessa que a mãe sabe dos shows, mas não se importa. Relatam que têm um filho de cinco anos, obviamente alheio à situação. Questiono se não seria um choque a descoberta, por amigos ou parentes, das atividades que eles exercem. “Estamos preparados, pois é esse o trabalho que fazemos para pagar as contas”.

Dois catadores de papel param ao lado do container para ouvir a conversa. Márcio não gosta da aproximação e usa o motivo para ir embora. Fim da entrevista. Os ônibus aceleram rumo à Avenida Farrapos. Apolo e Atlas lutam contra a modernidade, empurrados pela força de trabalhadores braçais, de desocupados, curiosos, solitários, de todos aqueles que buscam o prazer disponível numa sala sombria de cinema distante dos shoppings.


Fonte: Autor - Gilmar Splitt (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. ). Matéria originalmente publica-da no Jornal 3x4 do Curso de Jornalismo da UFRGS do Semestre 2008/2. Porto Alegre / RS.

Comentários   

 
#1 Guest 08-10-2011 00:12
Parabéns pela matéria. Mesmo sendo foca à época teu texto é claro e interessante.
 

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