Dica de Cinema

Fúria Cega: Sangue, Honra e uma Espada na Bengala

Fúria Cega: Sangue, Honra e uma Espada na Bengala

Cego, brabo e com uma espada escondida na bengala: Por que "Fúria Cega" ainda é o ápice do cinema de ação oitentista? Sabe aquele tipo de filme que você encontra por acaso num domingo à tarde ou vasculhando o catálogo de clássicos e, quando se dá conta, já está roendo as unhas e torcendo por um cara que não enxerga um palmo na frente do nariz, mas corta uma maçã no ar com uma katana? Pois é. Fúria Cega (1989) não é apenas mais um "filme de pancadaria" da década de 80.

É uma obra que mistura o charme magnético de Rutger Hauer, a mística dos samurais e aquele clima de road movie que só aquela época sabia entregar. Se você acha que o Demolidor da Marvel inventou a roda ao colocar um herói cego descendo o sarrafo em vilões, segura essa onda. Nick Parker já fazia isso com uma elegância — e um sarcasmo — que deixaria muito herói de uniforme coladinho no chinelo.

O Zatoichi americano: De onde veio essa ideia maluca?

Para entender a alma de Fúria Cega, a gente precisa viajar um pouco mais longe que o Vietnã. O filme é, na verdade, uma releitura ocidental de uma lenda japonesa: Zatoichi, o massagista cego e mestre espadachim que protagonizou dezenas de filmes no Japão. Trazer essa premissa para os Estados Unidos dos anos 80 era um risco enorme. Como convencer o público de que um veterano de guerra loiro e alto poderia lutar como um samurai? A resposta foi o diretor Phillip Noyce e, claro, a escolha genial de Rutger Hauer para o papel principal. Hauer não queria apenas "fingir" que era cego; ele queria que o público sentisse o peso daquela deficiência transformada em poder.

Rutger Hauer: A alma por trás da lâmina

Muita gente conhece o Rutger Hauer pelo vilão poético de Blade Runner, mas em Fúria Cega ele entrega algo totalmente diferente. Ele interpreta Nick Parker, um soldado que perde a visão em plena Guerra do Vietnã e acaba sendo resgatado por uma tribo local. Lá, ele não aprende apenas a sobreviver, mas a "enxergar" com todos os outros sentidos. O treinamento de Hauer para o filme foi insano. Ele passou semanas com cegos reais para entender como o corpo se comporta, como a cabeça inclina para ouvir melhor e como o tato guia cada passo. E tem um detalhe que faz toda a diferença: ele treinou artes marciais pesadamente com o lendário Sho Kosugi. Sim, a lenda dos filmes de ninja! Isso explica por que as cenas de luta não parecem ensaiadas de forma robótica; elas têm uma fluidez perigosa e visceral.

A trama: Mais do que apenas vingança

A história começa pra valer quando Nick volta aos EUA para reencontrar um velho amigo de farda, Frank Devereaux (vivido pelo excelente Terry O'Quinn, o eterno John Locke de Lost). Mas, como nada é fácil na vida de um herói de ação, Nick descobre que Frank se meteu com gente da pesada em Las Vegas — uma gangue de traficantes e empresários corruptos que sequestram a família do cara. Aqui entra um ponto interessante da narrativa: a relação de Nick com o pequeno Billy. E vale um parêntese importante aqui, viu? Muita gente acaba se confundindo nas fichas técnicas da internet, mas o garoto Billy foi interpretado pelo Brandon Call (aquele de Step by Step), e não pelo Brandon Lee. Imagina o nível de loucura se fosse o filho do Bruce Lee ali? Mas não, era o pequeno Brandon Call, que entrega uma química de "tio e sobrinho" ranzinza que dá o coração do filme. Eles partem em uma jornada para resgatar o pai do garoto, enfrentando desde assassinos profissionais até capangas de quinta categoria, tudo isso com Nick mantendo aquele humor ácido e uma bengala que, bem, digamos que ela tem uma surpresa de aço bem afiada lá dentro.

Por que o filme funciona tanto (mesmo décadas depois)?

O Equilíbrio do Tom: O filme sabe a hora de ser sério e a hora de ser galhofa. Nick Parker não é um super-homem; ele esbarra nas coisas, ele se perde às vezes, e isso humaniza o personagem. Mas, quando a espada sai da bainha, o bicho pega. As Cenas de Luta: Diferente dos filmes de ação atuais cheios de cortes rápidos que dão tontura, em Fúria Cega você vê o movimento. A luta final contra o assassino japonês (interpretado pelo próprio Sho Kosugi) é uma aula de coreografia. A Vilania Oitocentista: Os vilões são detestáveis na medida certa. Não tem muita nuance cinza aqui: o mal é o mal, e você mal pode esperar para ver o Nick "limpar o lixo".

Curiosidades que você provavelmente não sabia

Olhos de Vidro? Rutger Hauer usou lentes de contato pintadas que realmente bloqueavam grande parte da sua visão durante as filmagens. Ou seja, ele estava quase tão cego quanto o personagem em várias cenas de ação.

A "Bengala de Ouro": A espada de Nick Parker se tornou um objeto de desejo entre colecionadores de armas brancas. Ela é uma Shikomizue, uma espada oculta em uma bengala de madeira, típica dos espiões e samurais que precisavam de discrição.

O Toque de Mestre: O diretor Phillip Noyce revelou anos depois que o maior desafio foi fazer a transição do Vietnã para a América urbana sem perder a mística do personagem. Ele conseguiu isso através de uma fotografia que abusa das sombras, escondendo o que o Nick também não pode ver.

O veredito: Vale a pena rever (ou ver pela primeira vez)?

Sem sombra de dúvida. Fúria Cega é a prova de que você não precisa de efeitos especiais de milhões de dólares para criar um herói icônico. Você precisa de um bom ator, uma motivação real e cenas de ação bem executadas. O final do filme é aquele soco no estômago de nostalgia, com Nick partindo para honrar seus amigos, deixando claro que sua missão de protetor nunca termina. É um filme sobre superação, mas sem aquele papo motivacional chato. É superação na base da porrada, da astúcia e de uma lealdade que nem a cegueira foi capaz de apagar. Se você está procurando um filme que entrega entretenimento puro, diálogos rápidos e um protagonista que exala carisma em cada "olhada" vazia, Fúria Cega é a sua próxima parada obrigatória. Só não tente girar uma bengala na sala de casa, beleza? Deixe isso para o mestre Nick Parker.

 

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