Senta que lá vem história. E não é qualquer história. Vamos falar de um filme que é quase um testamento, uma despedida em grande estilo e, pasme, um retrato (mesmo que sem querer) de uma das realidades mais brutais e esquecidas do Velho Oeste. Estou falando de "Os Comancheros", aquele faroestone de 1961 com o John Wayne que seu pai ou avô provavelmente adoravam. Mas ó, esquece a ideia do faroeste bonitinho, de mocinho de chapéu branco e bandido preto. A parada aqui é muito mais embaixo.
Vou te contar tudo: a verdade por trás dos bandidos do título, os bastidores que quase levaram o diretor desta obra, e por que, mesmo com mais furos de roteiro que um queijo suíço, esse filme simplesmente funciona.
O Lado Sombrio da Moeda: Quer saber quem realmente eram os Comancheros?
Antes de mergulhar nas cenas de tiroteio e nas caras e bocas do John Wayne, a gente precisa entender uma parada crucial. O filme chama "Os Comancheros", mas será que você sabe o que essa palavra significava de verdade? Não, eles não eram uma tribo indígena. Esquece tudo que você aprendeu (ou deixou de aprender) na escola. Os comancheros eram, na real, bandidos de carne e osso, de origem hispânica e depois americana, que lucravam com a desgraça alheia .
Pensa no seguinte: estamos falando do século XIX, lá pelas bandas do Novo México e Texas. Enquanto os colonos tentavam, com muita dificuldade, plantar e criar seus filhos, esses caras aí faziam a festa. Eles negociavam com as tribos nômades das planícies, principalmente os comanches (daí o nome). A princípio, o negócio era até "legítimo": trocavam mantimentos, facas, panelas, cobertores e aquelas pontas de metal para flechas por peles de búfalo e outros produtos indígenas . Mas, como tudo que envolve dinheiro fácil e falta de escrúpulos, a coisa rapidamente descambou.
Lá pelos idos de 1840, os comanches perceberam que cavalos valiam ouro. E onde eles conseguiam cavalos? Roubando. Invadiam fazendas no Texas e no norte do México e levavam tudo. Esses cavalos e gado, muitos com a marca do dono ainda quente, eram trocados com os comancheros por... adivinha? Armas, munição e uísque. É aí que a história fica podre. Os comancheros não estavam só comerciando; estavam armando os ataques contra os próprios colonos para depois comprar o produto do roubo por uma mixaria. Era um ciclo vicioso e violento. E não parava por aí: eles também lucravam com o resgate de prisioneiros feitos pelos índios, uma prática cruel que separava famílias e destruía vidas.
A situação ficou tão grave que, entre 1850 e 1870, milhares de cabeças de gado roubadas eram trocadas por esses mercadores e revendidas para contratantes do governo que precisavam alimentar o exército. Ou seja, o governo americano, indiretamente, pode ter comprado gado roubado que financiava os ataques que ele mesmo tentava combater. É ou não é uma ironia do destino? A fama dos comancheros era tão terrível que eles se tornaram alvo de rangers e do exército. O fim da linha veio com a dizimação dos rebanhos de búfalo e a derrota final dos comanches na Guerra do Rio Vermelho, lá em 1874 . Alguns desses antigos mercadores largaram a vida bandida e viraram pastores pacatos. Mas a mancha, essa ficou.
1961 - "Os Comancheros": O Filme que (Quase) Contou Essa História
Agora, vamos ao que interessa: a fita. Em 1961, John Wayne era mais que um ator. Era um mito ambulante, o símbolo máximo do faroeste americano. E é nesse contexto que chega às telas "Os Comancheros" (The Comancheros) , dirigido pelo lendário Michael Curtiz — sim, o mesmo de Casablanca e Falcão Maltês.
A história do filme é, digamos, uma versão hollywoodiana e bastante açucarada disso tudo. A trama segue o Capitão Jake Cutter (John Wayne), um ranger do Texas que prende um jogador francês chamado Paul Regret (Stuart Whitman), que matou o filho de um juiz em um duelo. No caminho para levar o preso até a forca, os dois se embolam numa missão de infiltrar uma gangue de comancheros que está armando os comanches para atacar os colonos.
Só que tem um detalhe: no filme, os comancheros não são exatamente aqueles mercadores hispânicos que descrevi. Eles são retratados como uma organização quase mafiosa, liderada por um tal de Graile (Nehemiah Persoff), que tem um código de conduta próprio e vive num esconderijo no meio do deserto com sua bela filha, Pilar (Ina Balin) . É aí que a gente vê a mão pesada de Hollywood: a realidade complexa e brutal vira pano de fundo para uma aventura de "mocinho e bandido".
Bastidores de Luto: Quando o Diretor Adoece e o Duke Assume o Comando
E aqui vai a primeira curiosidade que faz desse filme uma obra quase sagrada. Michael Curtiz, o diretor, já estava com a saúde frágil durante as filmagens. Ele lutava contra um câncer e, em muitos dias, simplesmente não tinha forças para ir ao set . O que fazer? Parar a produção? Perder dinheiro? Foi aí que John Wayne, que acabara de dirigir o épico O Álamo no ano anterior, tomou a rédea na mão. Nos dias em que Curtiz não podia comparecer, Wayne assumia a direção, cuidando especialmente das cenas de ação e das grandes batalhas campais, algo que ele adorava e sabia fazer como ninguém.
Detalhe: Wayne não foi creditado como codiretor. Fez por amor à obra e respeito ao amigo doente. Curtiz faleceu em abril de 1962, poucos meses após a estreia do filme. Os Comancheros se tornou, assim, seu canto do cisne, uma despedida em grande estilo de um dos diretores mais versáteis da história do cinema.
Por Que Esse Filme Ainda é Tão Bom (Mesmo com Tanta Coisa Errada)?
Olha, se você for assistir Os Comancheros esperando uma aula de história, vai se frustrar. Os próprios fãs mais xiitas apontam os erros: os rifles de repetição usados não existiam em 1843, a geografia do Texas é inventada (não tem deserto entre Galveston e Austin!), e a cronologia histórica é um verdadeiro sanduíche de eras . Mas, como disse um usuário em fórum: "Assistir isso pra aprender história é como assistir Indiana Jones para aprender arqueologia" . E é exatamente esse o ponto.
O filme é, acima de tudo, entretenimento puro. E isso se deve a alguns fatores:
A Química Inegável: John Wayne e Stuart Whitman formam uma dupla e tanto. É o encontro do ranger durão, de meia-idade, com o jogador sedutor e mais jovem. Eles se estranham, se estranham, e viram parceiros. É o protótipo do "bro movie" que viria a explodir décadas depois com Máquina Mortífera.
Lee Marvin Robando a Cena: Mesmo com pouquíssimo tempo de tela (uns 10 minutos), Lee Marvin entrega uma atuação inesquecível como Tully Crow, um traficante de armas psicótico, com um visual de peruca tão bizarro que chega a ser hipnótico . Ele rouba todas as cenas em que aparece, e você termina o filme querendo mais dele.
A Trilha Sonora de Elmer Bernstein: A música é daquelas que gruda na cabeça. O tema principal, que abre o filme, é de uma energia contagiante, com ritmo de cavalgada. Bernstein vinha de compor a trilha de Sete Homens e Um Destino e repetiu a dose: criou uma paisagem sonora que é o Velho Oeste .
A Fotografia em Cinemascope: Filmado nos desertos de Utah (que fazem as vezes do Texas), o filme é um espetáculo visual. As paisagens são grandiosas, e as cenas de perseguição e batalhas são coreografadas com um senso de escala que impressiona até hoje.
Pilar: A Mulher que Não Pedia Licença
Outro ponto que merece destaque é a personagem de Ina Balin, Pilar. Ela surge nos primeiros minutos do filme, num navio a caminho do Texas, e sua atitude é um tapa na cara dos clichês do gênero. Diferente das mocinhas tradicionais do faroeste, que ou eram santas do lar ou prostitutas de saloon, Pilar é rica, independente e, pasme, toma a iniciativa .
Ela vê Paul Regret no salão do navio, manda um criado buscar informações sobre ele e, depois, o aborda. Sim, é ela quem chega junto. Durante o diálogo, quando Regret desconfia de segundas intenções, ela estende as mãos cheias de anéis e solta uma pérola: "A menor destas pedras poderia comprar e vender você. Por que eu iria querer seu dinheiro?" . Em 1961, num filme de cowboy, ver uma mulher dizendo isso era, no mínimo, revolucionário. Ela é uma personagem que parece ter saído de um filme europeu, não de um bangue-bangue americano. É um sopro de modernidade num gênero muitas vezes engessado.
A Herança de "Os Comancheros"
No fim das contas, Os Comancheros é um filme de contrastes. Ele usa o nome de um grupo histórico real e violento para contar uma história de aventura e camaradagem. Ele erra feio nos detalhes, mas acerta em cheio no espírito. É o último suspiro de um diretor genial e a prova de que John Wayne era mais do que um ator: era um líder nato, capaz de segurar as pontas nos momentos mais difíceis.
Se você nunca viu, dá uma chance. Mas assista com os olhos de quem vai ver uma ópera-rock do Velho Oeste, não um documentário. Assista pelo prazer de ver o Duke fazendo o que sabia de melhor, pela trilha sonora que te faz querer galopar pela sala, e por Lee Marvin fazendo um vilão tão ridículo que se torna inesquecível. Assista, também, para lembrar que atrás de toda lenda, há sempre uma história real — e essa, quase sempre, é muito mais complexa e sombria do que qualquer filme poderia mostrar.
E aí, curtiu a viagem? Me conta nos comentários se você já conhecia a verdade sobre os comancheros ou se, assim como eu, ficou de queixo caído com essa história.



