Dica de Cinema

O filme que todo mundo chamou de exagero... e se enganou

O filme que todo mundo chamou de exagero... e se enganou

Elysium (2013): o filme que previu 2025 e ninguém quis acreditar. Imagina um mundo onde quem tem grana vive num condomínio flutuante com piscina infinita, hospital que cura câncer em dois minutos e ar puro 24h. Enquanto isso, aqui embaixo, a gente respira poeira radioativa, morre na fila do SUS e ainda leva bala perdida se tentar pular o muro. Parece distopia barata de 2013, né? Pois é. O nome do filme é Elysium, e doze anos depois ele tá mais atual que stories de influencer reclamando de crise.

Neill Blomkamp, o mesmo maluco sul-africano que fez Distrito 9, jogou na nossa cara um futuro tão possível que dá medo. E o pior: a gente tá correndo pra chegar exatamente lá.

Los Angeles 2154: já parece São Paulo em dia de rodízio

A Terra do filme é um lixão. Literalmente. Superpopulação, favelas até onde a vista alcança, polícia robótica que te dá choque se você olhar torto. Os ricos? Sumiram. Foram morar numa estação espacial do tamanho de Mônaco chamada Elysium, onde grama é verde de verdade e ninguém nunca ouviu falar de dengue.

O contraste é tão brutal que dói. Enquanto na Terra criança morre de doença curável, lá em cima tem uma maquininha chamada Med-Bay que recompõe DNA, cura câncer, regenera membro perdido e ainda faz depilação a laser de brinde. Em 30 segundos. Trinta. Segundos.

E sabe o que é mais assustador? Essa tecnologia já existe. Em embrião, claro, mas existe. Terapias gênicas, edição de CRISPR, impressão 3D de órgãos, robótica cirúrgica… Tudo isso tá sendo desenvolvido hoje. Só que adivinha pra quem vai primeiro? Pro bilionário que já tem iate, não pra sua tia que tá na fila do transplante.

Max Da Costa: o herói que a gente merece (e que a gente já é)

Matt Damon interpreta Max, um cara comum, ex-presidiário, que trabalha na linha de montagem de robôs policiais (ironia nível hard). Num acidente de trabalho – daqueles que a empresa diz que “é culpa do funcionário” – ele toma uma dose letal de radiação. Diagnóstico: cinco dias de vida.

Aí vem o plot twist que faz o filme virar soco no estômago: pra se salvar, Max precisa chegar em Elysium. Porque lá tem cura pra tudo. Pra TUDO. Mas entrar lá é ilegal. Imigrante da Terra é tratado como terrorista. Barco de refugiado? Explodem no espaço. Literalmente.

Então Max aceita um serviço sujo: implantar no cérebro um código que pode derrubar o sistema de cidadania de Elysium e tornar todo mundo cidadão – ou seja, todo mundo com direito à cura. Ele vira um exoesqueleto humano, metade homem, metade máquina, e parte pra guerra.

E aí você percebe: Max não é herói. Ele é desesperado. Igual milhões de pessoas que hoje cruzam o Mediterrâneo, o deserto do Atacama ou o Rio Grande atrás de uma chance. O filme só colocou isso em 2154 pra gente poder assistir sem sentir culpa.

Os vilões que parecem gente fina no LinkedIn

Jodie Foster faz Delacourt, a secretária de defesa de Elysium. Fria, elegante, fala francês, acha que tá protegendo a civilização. Ela manda abater naves de refugiados sem piscar. Tipo político europeu debatendo “capacidade de acolhimento” enquanto criança afoga.

E tem o Kruger, interpretado por Sharlto Copley (o mesmo de Distrito 9), um mercenário psicopata sul-africano que é basicamente o pesadelo de qualquer pessoa que já leu sobre milícia. Cara tatuado, violento, que mata por contrato e ainda curte a vibe. Ele é o braço armado do sistema. O tipo de gente que existe hoje, só que ainda não tem exoesqueleto.

Wagner Moura roubando a cena (e falando português!)

Spider, o hacker brasileiro vivido por Wagner Moura, é o alívio cômico e o cérebro da resistência. Ele fala português o tempo todo, chama todo mundo de “meu irmão”, e comanda uma quadrilha de Los Angeles que parece o Complexo do Alemão com drones.

A presença dele não é à toa. Blomkamp colocou um brasileiro ali porque sabia: quem entende de sobreviver em desigualdade brutal somos nós. Spider é o cara que dá jeitinho, que hackeia o sistema, que fala “se vira”. É o Brasil inteiro resumido num personagem.

As críticas que o filme jogou e a gente fingiu que não era com a gente

Elysium fala de tudo que a gente vive hoje, só que sem filtro:

Saúde como privilégio: quem tem plano top não espera, quem depende do SUS morre na fila.
Fronteiras: muro, arame farpado, drone, tiro. Parece fronteira EUA-México filmada em 2025.
Imigração: quem foge da miséria é “invasor”. Quem foge com jatinho é “investidor”.
Automação: robôs substituindo empregos enquanto os lucros vão pros mesmos de sempre.
Cidadania digital: no filme, ser cidadão de Elysium é ter um chip. Hoje é ter CPF regularizado, conta bancária e smartphone pra acessar o gov.br.

O filme bate tão forte que muita crítica da época chamou de “panfletário”. Sério? Panfletário é achar que isso é ficção.

Curiosidades que você provavelmente não sabia

Matt Damon aceitou o papel sem ler o roteiro inteiro porque Blomkamp mostrou só os desenhos da estação espacial.
As armas do filme foram desenhadas pra parecerem reais em 140 anos. A maioria hoje já tem protótipo militar.
Jodie Foster aprendeu francês só pro papel – e ainda improvisou umas frases em africâner pra irritar o Kruger.
O exoesqueleto que o Max usa pesava 40 kg. Damon ficou com lesão nas costas de verdade.
Blomkamp queria filmar em favelas do Rio, mas a produção achou perigoso. Ironia, né?

2025: a gente tá mais perto de Elysium ou de Blade Runner?

Olha ao redor. Bilionários construindo bunkers na Nova Zelândia, empresas de saúde só pra VIPs, IA decidindo quem vive ou morre em seguro saúde, muro na fronteira, refugiado virando estatística. A estação espacial ainda não existe (pelo menos não que a gente saiba), mas o resto…

Elysium não é um filme de 2013. É um documentário do futuro que tá chegando mais rápido que Amazon Prime.

E a pergunta que fica, doze anos depois de assistir:

Se amanhã aparecesse uma Med-Bay que cura tudo, mas só quem tem 1 milhão de dólares usa…

Você acha mesmo que iam dividir com a gente?

Pensa nisso na próxima vez que ouvir alguém falando que “saúde é prioridade” enquanto corta verba do SUS. Porque, como diria o Spider: “É nóis, meu irmão. Sempre foi.”

 

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