Dica de Cinema

Opus Dei, Priorado de Sião e Tom Hanks: o caos de 2006

Opus Dei, Priorado de Sião e Tom Hanks: o caos de 2006

Imagina só: você tá de boa num sábado à noite, abre o catálogo da Netflix (ou da pirataria, sem julgamento aqui) e clica em “O Código Da Vinci” achando que vai ser só mais um filminho de Tom Hanks correndo.

Três horas depois você tá de boca aberta, googlando “Jesus casou mesmo?”, “Opus Dei é tudo isso?” e já mandando áudio no grupo da família falando que a Igreja escondeu um segredo bombástico há dois mil anos. Bem-vindo ao fenômeno que bagunçou a cabeça de meio mundo em 2006.

O filme que fez padre rezar de raiva e ateu se achar o maior detetive da história

Lançado em 19 de maio de 2006, “O Código Da Vinci” não chegou: ele explodiu. Primeiro fim de semana nos EUA? 77 milhões de dólares. Mundial? 760 milhões só de bilheteria (em 2006, brother, isso era DINHEIRO pra caralho). Virou o segundo filme mais rentável do ano, só perdeu pro Pirates of the Caribbean 2. Mas o mais louco nem foi o caixa: foi o caos que causou.

A Igreja Católica chamou de “a maior mentira da história do cinema”. O Vaticano proibiu as filmagens dentro das igrejas. Na China censuraram. Na Índia cortaram cenas. Na Coreia do Sul cristãos fizeram protesto com cartaz. E no Brasil? Meu Deus… programa de TV evangélico dedicou semanas inteiras pra “desmascarar” o filme. Teve pastor falando que quem assistisse ia pro inferno direto, sem escalas. E a gente lá, pagando ingresso em peso. Mas afinal, o que o filme fala de tão pesado assim?

A trama bombástica que o Dan Brown jogou na mesa

Jacques Saunière, curador do Louvre, é assassinado e deixa o corpo posicionado igual o Homem Vitruviano de Da Vinci, com mensagens em sangue e códigos espalhados. Robert Langdon (Tom Hanks com aquele cabelo meio emo de tio) é chamado pra ajudar. Só que quem realmente chacoalha tudo é Sophie Neveu (Audrey Tautou linda e foda), neta do morto e criptógrafa da polícia francesa.

Juntos eles descobrem que Saunière era grão-mestre do Priorado de Sião, uma sociedade secreta que protegeria o maior segredo do cristianismo: Jesus Cristo foi casado com Maria Madalena e os dois tiveram uma filha. A linhagem sanguínea (o tal “Santo Graal”) estaria viva até hoje na França. A Igreja, óbvio, teria matado milhões pra esconder isso e manter o poder.

Pronto. Só isso já bastava pra metade do planeta surtar. O Priorado de Sião é real ou Dan Brown viajou na maionese? Aqui a coisa fica divertida. O Priorado de Sião de verdade existiu… mais ou menos. Em 1956 um francês chamado Pierre Plantard registrou uma associação chamada “Priorado de Sião” em uma prefeitura qualquer, dizendo que era continuação de uma ordem medieval. Ele forjou documentos, plantou pergaminhos falsos na Biblioteca Nacional da França e convenceu alguns jornalistas. Nos anos 60 e 70 a história bombou na Europa.

Resultado? Em 1993 o próprio Plantard admitiu em juízo que tudo era mentira. Fraude total. Mas aí já era tarde: o mito já tinha contaminado livros, revistas e, anos depois, caiu no colo do Dan Brown.

Ou seja: a base do best-seller é uma fake news medieval que virou lenda urbana e depois virou bilheteria.

A Opus Dei virou vilã e odiou (com razão)

No filme, a Opus Dei aparece como uma seita perigosa com monge albino assassino (o inesquecível Silas, interpretado por Paul Bettany se chicoteando até sangrar). Na vida real a Opus Dei processou a Sony, disse que era difamação pura e que nunca tiveram monges, nem assassinos, nem nada parecido.

Eles têm razão em parte: o monge assassino é invenção total do Dan Brown. Mas vamos combinar: a Opus Dei real também não é exatamente um clube de crochê. Cilício, disciplina (aquele chicotinho), mortificação da carne… tudo isso existe mesmo. Só não tem matador de aluguel.

Tom Hanks odiou o próprio cabelo (e a gente entende)

Todo mundo zoa até hoje o corte de cabelo do Tom Hanks no filme. O próprio ator, anos depois, falou: “Eu parecia um idiota. Quando vi o playback pensei ‘quem deixou isso acontecer?’”. Ron Howard justificou dizendo que queria um Langdon “acadêmico desleixado”, mas ficou parecendo que ele cortou com tigela em casa.
Curiosidades que você provavelmente não sabia

A cena inicial no Louvre foi filmada de verdade no museu, mas só à noite, depois que fechava. Tom Hanks contou que ficava correndo sozinho pelos corredores às 3 da manhã e se sentindo o cara mais sortudo do mundo.

Ian McKellen (o Gandalf) aceitou ser Sir Leigh Teabing porque achou que ia ser divertido interpretar um vilão britânico excêntrico. E foi.

O livro vendeu 80 milhões de cópias antes do filme. Depois do filme? Passou fácil dos 100 milhões.

A frase “So dark the con of man” (“Tão sombria a fraude do homem”) que aparece no filme é um anagrama de “Madonna of the Rocks” (Madona das Rochas), quadro real de Da Vinci que aparece na trama.
O Código Da Vinci gerou uma onda de turismo. A igreja Saint-Sulpice em Paris e o Rosslyn Chapel na Escócia dobraram o número de visitantes em 2006. Colocaram até placas explicando “isso aqui é ficção, gente”.

E no final… era tudo verdade?

Não. Nada. Nem 1%. Jesus não casou, não teve filho, o Priorado de Sião é fraude comprovada, o Santo Graal como cálice ou como linhagem sanguínea é lenda medieval sem base histórica séria. Maria Madalena era sim uma discípula importante, mas não tem evidência nenhuma de casamento. Mas sabe o que é mais louco? O filme e o livro conseguiram o que a Igreja nunca conseguiu em dois mil anos: fazer milhões de pessoas comuns se interessarem por história do cristianismo primitivo, evangelhos apócrifos, arte renascentista e simbolismo. Deu até pra ver adolescente discutindo Concílio de Niceia no MSN. Isso é poder, meu.

Dezesseis anos depois, ainda vale assistir?

Vale pra caramba. É entretenimento puro: corre-corre, enigmas, reviravoltas a cada 10 minutos, trilha do Hans Zimmer estourando o peito. Pode rir do cabelo do Tom Hanks, pode revirar os olhos com algumas teorias malucas, mas você vai ficar grudado na tela. E quando acabar, provavelmente vai fazer o que metade do planeta fez em 2006: abrir o Google e digitar “mas e aí, Jesus casou mesmo?”.
Boas pesquisas, detetive.

 

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