Dica de Cinema

Steve McQueen, Yul Brynner e o tiroteio que nunca envelhece

Steve McQueen, Yul Brynner e o tiroteio que nunca envelhece

Os Sete Homens que Fizeram o Faroeste Nunca Mais Ser o Mesmo. Imagina a cena: um vilarejo mexicano pobrezinho, uns camponeses desesperados, bandidos que chegam todo dia pra roubar comida e humilhar geral.

Aí aparece um samurai velho, careca e sábio pra caralho, que resolve recrutar mais seis malucos pra defender a vila. Isso é Os Sete Samurais, de 1954, do gênio Akira Kurosawa. Seis anos depois, em 1960, Hollywood olha praquilo e pensa: “Peraí, se a gente trocar katana por revólver, kimono por chapéu de cowboy e samurai por pistoleiro boa-pinta, isso vira ouro.” Nasce Sete Homens e um Destino. E, cara… virou ouro mesmo. Muito ouro.

Mas antes de mergulhar, deixa eu te contar uma coisa que quase ninguém fala de cara: o filme que a gente ama, aquele com Yul Brynner de preto e Steve McQueen roubando todas as cenas, é um remake descarado. E não é só “inspirado”. É praticamente um xerox com sotaque texano. E o mais engraçado? Kurosawa adorou. Mandou até uma espada de presente pro John Sturges com o bilhete: “Seu ladrão safado, adorei.”

O elenco que parecia reunião de amigos bêbados que decidiram virar lenda

Hollywood ainda era aquele clube de macho alfa, cigarro na boca e testosterona pingando. Aí o diretor John Sturges monta o seguinte time:

Yul Brynner (o careca mais estiloso da história do cinema) como Chris Adams, o líder calmo que parece que já morreu umas três vezes e voltou só pra terminar o serviço.
Steve McQueen, que aceitou o papel porque precisava de grana, mas chegou no set já querendo ser o protagonista. Resultado? Rouba cada cena que aparece.
Charles Bronson, quebrado, criando três filhos sozinho, aceita ser o Bernardo O’Reilly meio mexicano só porque o cheque batia na porta.
James Coburn, o cara que fala pouco, joga faca melhor que ninguém e tem o sorriso mais perigoso do oeste.
Robert Vaughn, o Lee, um pistoleiro famoso que tá surtando porque perdeu a mão e agora tem medo de morrer (o único que admite o medo em voz alta).
Horst Buchholz, o Chico, um moleque alemão tentando fazer sotaque mexicano e quase conseguindo.
E o Brad Dexter, coitado, que ninguém lembra o nome até hoje (é o Harry Luck, aquele que só tá ali pela promessa de ouro).

Eli Wallach faz o vilão Calvera, um bandido mexicano tão carismático que você quase torce pra ele ganhar. Quase.

A cidade que não existe e o vilão que parece empresário de hoje

No filme a gente chama de “vilarejo mexicano”, mas tudo foi rodado no México mesmo, em Durango e Chupaderos. A cidadezinha de Rose Creek (no remake de 2016 mudaram o nome) na verdade se chamava Ixcatlán no roteiro original. E o Bartholomew Bogue que você mencionou no pedido? Esse é do remake de 2016. No original de 1960 o vilão é o Calvera, ponto. Nada de industrial do ouro. É só um bandido clássico que chega todo santo dia pra roubar milho e levar as mulheres. Bem mais cru, bem mais real.

E é aí que o filme dói gostoso: os sete não são heróis de capa. São desempregados. Mercenários. Caras que matam por dinheiro e, de repente, descobrem que às vezes vale a pena morrer por algo maior. A frase final do velho da vila é de rachar a alma: “Os camponeses venceram de novo. Nós perdemos. Nós sempre perdemos.” Isso não é final feliz de Disney. É um soco no estômago embrulhado em trilha sonora do Elmer Bernstein que até hoje faz cabelo arrepiar.

O som que virou hino

Falando nessa trilha… cara, para tudo. Aquela música principal? Tocou tanto que virou comercial de cigarro Marlboro nos anos 80. O tema principal ficou 72 semanas na parada Billboard. Setenta e duas! Virou até música de torcida de futebol na Europa. O Elmer Bernstein pegou o Oscar de trilha original? Não, perdeu pra Exodus. Mas quem lembra da trilha de Exodus hoje? Exato.
Curiosidades que parecem mentira (mas não são)

Steve McQueen ficava puto porque Yul Brynner roubava atenção. Então começou a fazer palhaçada no set: levantava o chapéu toda hora, balançava o coldre, qualquer coisa pra câmera olhar pra ele.
Charles Bronson construiu a própria casa de adobe no set e dormia lá com os filhos nos fins de semana.
Yul Brynner só aceitou fazer o filme se pudesse vestir preto o tempo todo. Virou marca registrada.
O filme custou 2 milhões de dólares e faturou 12 só nos EUA. Ajustado pela inflação? Uns 120 milhões de hoje.
Kurosawa processou os produtores por plágio? Não. Ele ganhou royalties e ficou amigo do Sturges. Classe pura.
O próprio John Wayne odiou o filme. Disse que era “anti-americano” porque os pistoleiros morriam. Ironia: anos depois ele tentou fazer um remake chamado Os Leões da Morte e ninguém quis financiar.

O legado que não para de nascer

1960 – original.
1966 – sequência com Yul Brynner (fraca).
1969 – mais uma sequência (pior ainda).
1998-2000 – série de TV com o Michael Biehn.
2016 – remake com Denzel Washington, Chris Pratt e cia. (bom pra caramba, aliás).
2024 – já tem spin-off sendo desenvolvido pela Amazon.

Mas nenhum chega no pé do original. Porque o de 1960 tem alma. Tem poeira de verdade. Tem silêncio antes do tiro. Tem sete caras que sabem que vão morrer e vão mesmo assim.
No final das contas…

Sete Homens e um Destino não é só um faroeste. É um tratado sobre o que a gente faz quando não tem mais nada a perder. Sobre como coragem às vezes é só medo que cansou de correr. Sobre como os verdadeiros vencedores são sempre os que ficam pra contar a história – mesmo que sejam os mais fracos. E aí, terminou de ler e nem viu o tempo passar, né? Eu avisei. Esse filme tem esse poder. Coloca na fila hoje à noite, chama os amigos, abre uma cerveja gelada e deixa o Elmer Bernstein te levar embora. Você vai sair do sofá diferente. Prometo.

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