Dica de Cinema

O Filme Proibido do Velho Oeste

O Filme Proibido do Velho Oeste

Se você já viu Jonah Hex e saiu da sala de cinema pensando “caramba, isso foi… estranho”, calma. Você não tá sozinho. Se nunca viu, mas ouviu falar do filme como “aquele western maluco com o Josh Brolin todo queimado e a Megan Fox usando roupas que nem existiam em 1870”, então segura essa: vamos mergulhar fundo num dos maiores flops da história do cinema — e, ironicamente, num dos filmes mais fascinantes por tudo o que deu errado, tudo o que tentou ser, e por carregar um personagem tão subestimado quanto brutal.

Esquece aquele papo de “baseado em quadrinhos da DC”. Isso aqui é muito mais que isso. É uma tragédia cinematográfica com trilha sonora de Black Keys, maquiagem digna de um pesadelo pós-apocalíptico e uma produção que parece ter sido escrita no verso de um guardanapo durante uma maratona de uísque.

Quando o Western Vira Circo: A Origem de um Desastre Anunciado

Tudo começa nos anos 1970, quando a DC Comics cria Jonah Hex, um anti-herói sulista, ex-confederado arrependido, caçador de recompensas cicatrizado, bêbado, ranzinza e com um faro sobrenatural pra morte. Ele não é o cowboy romântico montado no cavalo branco. Ele é o cara que aparece depois que todos os heróis já foram embora — com um charuto apagado na boca, um revólver enferrujado e olhos que viram coisas que ninguém quer ver. O personagem era perfeito pro tom sombrio, cru, quase gótico do Velho Oeste. Então, em 2010, a Warner Bros. resolve: “Vamos levar isso pro cinema! Com orçamento! E estrelas! E… efeitos especiais!” Só que esqueceram de convidar alguém que entende de western. O resultado? Um filme de US$ 45 milhões que arrecadou menos de US$ 11 milhões mundialmente. Sim. Menos de um quarto do investimento. Foi um soco no estômago tão forte que o diretor, Jimmy Hayward — conhecido por animações como Robôs — nunca mais dirigiu um live-action. Nunca. Nem mesmo um curta. Sumiu. Tipo, evaporou. E o roteiro? Ah, o roteiro. Escrito por Mark Neveldine e Brian Taylor, os mesmos de Crank, ou seja, caras que adoram adrenalina, câmera tremida e explosões coloridas. Mas western? Não tão ligado. O resultado é um roteiro que mistura Guerra Civil, vingança, tecnologia futurista e espíritos falantes como se fosse um cardápio de fast-food mal combinado.

A Trama: Quando "Seriedade" e "Maluquice" Brigam no Mesmo Filme

A história começa com Jonah Hex (Josh Brolin) vivendo nas margens da civilização, bebendo, matando quem paga e sendo evitado por todos. Ele tem o rosto desfigurado — metade queimada, tipo um vilão de Hellboy — porque, anos antes, o coronel confederado Quentin Turnbull (John Malkovich, sempre elegante até para ser sinistro) mandou incendiar sua cabana e executar sua família. Turnbull culpa Hex pela morte do próprio filho durante a Guerra Civil. Só que, detalhe: Hex não fez nada. Foi um tiro acidental, uma tragédia de guerra. Mas Turnbull, obcecado, transforma isso em cruzada pessoal. E agora, anos depois, ele está construindo uma arma — um trem blindado com canhão de longo alcance capaz de destruir cidades inteiras. Sim, em 1870. Um trem-bomba com tecnologia de Mad Max. Porque por que não? Hex é recrutado pelo governo dos EUA — representado pelo Tenente Grass (Will Arnett), um soldado sarcástico e meio perdido — e por Lilah, interpretada por Megan Fox, que entra no filme como uma prostituta com passado misterioso, voz rouca de fumante inveterada e roupas que parecem ter saído de um ensaio de Vogue no século XXI.

Aí você pensa: “Calma, prostituta sexy + caçador de recompensas traumatizado = romance?”

Claro que sim. E é aí que o filme dá seu primeiro tropeço emocional: a química entre eles deveria ser tensa, dolorosa, cheia de mágoas antigas. Mas parece mais um encontro marcado no Tinder com figurino histórico. Mesmo assim, a missão é clara: impedir Turnbull antes que ele use a arma para detonar Washington D.C. e reiniciar uma nova guerra civil. Jonah parte numa jornada pelo deserto, enfrentando pistoleiros, índios hostis, criaturas bizarras e, claro, seus próprios demônios. Porque sim: Jonah Hex conversa com os mortos. Literalmente. Depois de morrer por alguns minutos durante o ataque à sua casa, ele ganha a habilidade de ver e ouvir os espíritos. Algo que o filme mostra de forma tão casual que você nem percebe que estamos no território do fantástico. Um western sobrenatural. Tipo Deadwood com pitadas de Supernatural. Só que… bem… não é explorado. É só jogado ali, como se fosse um detalhe de roteiro que o editor esqueceu de cortar.

Os Erros: De onde Veio Tudo Isso?

Vamos direto ao ponto: Jonah Hex não falhou por causa do elenco. Josh Brolin está incrível. Ele mergulha no papel com uma intensidade crua, carregando o peso do personagem nos ombros e no olhar. John Malkovich é Malkovich — ou seja, ameaçador, teatral, deliciosamente perturbado. Will Arnett traz um alívio cômico necessário, e Megan Fox, mesmo com um papel subutilizado, tenta segurar o que pode. O problema? Tudo o resto.

Direção sem identidade: Jimmy Hayward, vindo do mundo da animação, tenta aplicar um estilo frenético, com câmeras rápidas e cortes abruptos, típicos de filmes de ação modernos. Só que no Velho Oeste, esse ritmo parece artificial, desconexo. Parece que estão tentando fazer um 300 no deserto.

Design visual bizarro: As roupas são um pesadelo anacrônico. Lilah parece uma dominatrix steampunk. Os bandidos usam chapéus com óculos de proteção. O trem de Turnbull parece uma nave alienígena com rodas. Até os cavalos parecem ter sido digitalizados.

Trilha sonora fora de contexto: Enquanto os tiroteios acontecem, você ouve rock psicodélico dos Black Keys. Em certos momentos, funciona. Em outros, parece que estão tentando vender um álbum, não contar uma história.

Falta de coerência histórica e tonal: O filme oscila entre drama sério, ação absurda e toques de humor negro. Um minuto você vê um massacre sangrento, no outro, Will Arnett faz piada com um cadáver. O público não sabe se deve chorar, rir ou sair correndo.

A Curiosidade Que Ninguém Conta: O Corte Original Era Pior

Parece impossível, né? Mas é verdade. O corte original de Jonah Hex tinha mais de duas horas e incluía cenas ainda mais bizarras: uma sequência musical com Megan Fox cantando em um bordel, um flashback completo da infância de Hex e até uma cena em que ele luta contra um índio com poderes sobrenaturais. Depois de testes de audiência catastróficos — com plateias saindo no meio da sessão — o estúdio forçou uma reedição relâmpago. Cortaram 30 minutos, mudaram a ordem das cenas, tiraram partes do sobrenatural e tentaram "normalizar" o filme. Só que o estrago já estava feito. O roteiro ficou ainda mais fragmentado. O resultado final é um filme que parece ter sido montado com peças de três projetos diferentes. E ainda assim… ainda assim tem algo nele que prende. Uma energia estranha. Um magnetismo de fracasso épico.

O Legado: Por que Lembrar de um Filme que Ninguém Viu?

Porque Jonah Hex é um espelho. Um retrato de como Hollywood insiste em transformar personagens complexos em produtos descartáveis. Jonah Hex era um herói negro, moralmente ambíguo, traumatizado pela guerra, lutando contra um sistema que o rejeita. Ele podia ter sido o Logan do Velho Oeste — um último homem bom num mundo podre. Mas em vez disso, virou um action figure com problemas de roteiro. E ainda assim, o filme tem seus defensores. Um pequeno culto cresceu ao redor dele. Tem gente que ama justamente por ser tão errado que vira certo. Tipo aqueles discos de rock que bombaram décadas depois por serem "ruins demais para serem ruins". Tem memes. Tem análises no YouTube. Tem gente dizendo que é um “cult movie acidental”. E há uma lição real aqui: não se brinca com o Velho Oeste. O western é um gênero que exige respeito. Ele fala de solidão, violência, fronteiras morais, do nascimento de uma nação sobre ossos e sangue. Quando você coloca um trem com laser e uma mulher com jaqueta de couro no meio disso, o universo inteiro despenca.

A Verdade Crua: O Filme é Ruim? Sim. Mas Interessante?

Sim, Jonah Hex é ruim. É confuso, mal editado, incoerente e, em vários momentos, ridículo. Mas também é ousado. Tentou fazer algo diferente. Quis misturar fantasia, horror, guerra e redenção. Quis dar voz a um anti-herói marginalizado. Quis questionar o mito do cowboy americano. Falhou feio. Mas falhou com ambição. E no fim das contas, talvez esse seja o maior pecado de Hollywood: não o erro em si, mas o medo de errar. Jonah Hex errou com coragem. E por isso, merece um lugar no baú dos fracassos memoráveis — não como exemplo do que não fazer, mas como aviso: personagens profundos não viram blockbuster só por causa de efeitos visuais.

Conclusão: Um Enterro no Deserto

O filme termina com Jonah Hex derrotando Turnbull, destruindo o trem e salvando o país. Mas ele não fica para as celebrações. Sai cavalgando sozinho, como entrou. Sem glória. Sem perdão. Só com a cicatriz e a voz dos mortos sussurrando atrás dele. É um final poderoso. Trágico. Poético. Pena que o resto do filme não sustenta isso. Mas sabe o que é mais irônico Jonah Hex foi enterrado com honras militares… no lixo da bilheteria. E ainda assim, lá no fundo, ele continua vivo. Nos fóruns, nos podcasts, nos debates de fãs de quadrinhos. Um herói que o sistema rejeitou — tanto na história quanto na vida real. Talvez um dia alguém pegue esse personagem de novo. Faça um filme lento, cru, sem pressa. Com poeira, silêncio e dor. Um western de verdade. Até lá, Jonah Hex vai continuar vagando — como um fantasma no deserto do cinema americano. E quem sabe, um dia, os mortos decidam contar sua história direito.

jonah hex elenco

jonah hex cena 1

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jonah hex cena 3