Como Yip Man transformou Bruce Lee num dragão de verdade

Como Yip Man transformou Bruce Lee num dragão de verdade

O Cara que Ensinou Bruce Lee a Voar (e Quase Ninguém Conta a História Inteira). Imagine um adolescente rico, metido a valentão, que acha que já sabe tudo de luta. Aí ele resolve desafiar um “velhinho” de uns 50 anos qualquer na rua, só pra provar ponto. Em menos de um minuto tá comendo chão, humilhado, e descobre que o tal “velhinho” é o filho do maior mestre que já existiu no estilo que ele achava que dominava.

Essa cena parece filme de Hollywood, mas aconteceu de verdade com Yip Man – o homem que, décadas depois, colocaria o Wing Chun no mapa mundial ensinando um garoto magrelo chamado Bruce Lee. E não, ele não era nenhum monge shaolin careca nem super-herói de capa. Era um cara refinado, fumante inveterado, que gostava de ópera cantonesa, perdia dinheiro em corrida de cavalos e falava tão baixo que às vezes você precisava chegar o ouvido perto pra escutar. Mas quando o assunto era briga de rua, ninguém chegava junto.

O menino rico que virou aluno de aluguel virou mestre

IP MAN foto

Yip Man nasceu em 1893, Foshan, sul da China, final da Dinastia Qing – época que o país estava desabando. A família era podre de rica. A casa deles era tão grande que o quintal abrigava o templo do mestre Chan Wah-shun, o famoso “Wah, o Trocador de Dinheiro” (o apelido veio porque ele era enorme e trocava dinheiro na cintura, tipo cofre ambulante). Aos 13 anos Yip Man começou a treinar com Wah. Três anos depois o mestre morreu. Normal pra caramba, né? A maioria dos alunos teria chorado e ido pra casa. Yip Man pegou o navio pra Hong Kong pra estudar no St. Stephen’s College, colégio de elite inglês. E aí vem a parte que mudou tudo.

O dia que o ego dele foi pro chão foi

Em Hong Kong, adolescente cheio de hormônio e pose, Yip Man vivia ganhando briga de rua. Um dia um amigo falou: “Tem um tiozinho aí que manja de luta, quer testar?” Yip Man, claro, topou na hora.
Chegou no lugar, viu um senhor magro, cabelo grisalho, roupa simples. Achou que ia ser moleza. O homem olhou ele de cima abaixo, sorriu e perguntou calmamente: “Você treinou com Chan Wah-shun de Foshan? Já aprendeu Chum Kiu?”

Yip Man nem registrou a pergunta (se tivesse registrado, teria caído a ficha que só alguém muito dentro do Wing Chun saberia esses detalhes). O “tiozinho” então falou: “Pode vir com tudo, vou tentar não te machucar.”

Dez segundos depois Yip Man estava no chão. Tentou de novo ataque, chão de novo. Terceira vez, chão outra vez. Até que levantou a mão e falou: “Perdi.”

O homem se apresentou: “Eu sou Leung Bik, filho de Leung Jan – o mestre do teu mestre.”

Pensa no baque. O garoto rico, orgulhoso, caiu de joelhos e implorou pra virar aluno. Passou os próximos anos treinando escondido com Leung Bik, aprendendo o Wing Chun “de verdade”, muito mais refinado que a versão “rústica” que Chan Wah-shun ensinava pros trabalhadores de Foshan.

Aos 24 anos Yip Man voltou pra Foshan já como mestre completo. Mas levou anos pra convencer os antigos colegas que não estava inventando história.

Guerra, pobreza e o renascimento em Hong Kong

Veio a ocupação japonesa, depois a guerra civil chinesa. A fortuna da família evaporou. Yip Man, que nunca tinha trabalhado na vida, virou policial em Foshan. Dizem que certa vez desarmou e derrubou um oficial japonês bêbado só com a técnica da mão em ponte – mas isso já entra no terreno da lenda. Em 1949, com os comunistas chegando, ele fugiu pra Hong Kong com praticamente nada no bolso. Tinha 56 anos, mulher e filhos pra sustentar, e zero perspectiva de emprego – quem ia contratar um intelectual refinado que só sabia dar soco?

Um amigo convenceu: “Por que não ensina luta pros garçons dos restaurantes? Eles vivem apanhando de bêbado.” Foi assim que, em 1950, Yip Man começou a dar aula num sindicato de trabalhadores de restaurante. Turma pequena, chão de cimento, zero glamour. Mas o Wing Chun dele era tão absurdamente eficiente que a curta distância que a fama correu rápido.

Bruce Lee entra na história (e bagunça tudo)

Em 1954 apareceu um adolescente magricela, meio americano, meio chinês, cheio de energia: Bruce Lee, 14 anos. Virou aluno particular de Yip Man – dizem que pagava as aulas com dinheiro que ganhava dançando cha-cha-cha em concurso. Bruce aprendeu o básico com Yip Man e depois continuou com outros alunos mais avançados (Wong Shun-leung, principalmente), porque o mestre já estava ficando velho e preferia fumar e conversar filosofia. Mas a base, o centro de gravidade baixo, a linha central, a economia de movimento – tudo que tornou Bruce Lee o Bruce Lee veio de Yip Man.

E aí veio a parte divertida: os alunos de Yip Man começaram a aceitar desafios de outras escolas. Wong Shun-leung, Tsui Shun-tin, Lok Yiu… eram os “beimo” (lutas sem muitas regras) em telhados de Hong Kong viraram lenda. Wing Chun quase sempre ganhava. A escola explodiu.

IP MAN e bruce

O final que ninguém queria

Nos anos 60 Yip Man já era o cara. Fundou a Ving Tsun Athletic Association em 1967, parou de fumar (tarde demais) e começou a se preocupar com o legado. Em 1972, com câncer de garganta avançado, magérrimo, voz quase sumida, chamou o filho mais velho e alguns alunos próximos.

“Quero gravar tudo. Tudo mesmo. Pra ninguém deturpar depois que eu morrer.”

Em duas semanas, usando as últimas forças, gravou em filme 8 mm as três formas vazias (Siu Nim Tao, Chum Kiu, Biu Jee) e todo o trabalho no boneco de madeira. Dá pra ver nos vídeos: ele mal consegue falar, mas quando demonstra a técnica o corpo ainda lembra. É de arrepiar.

Dia 2 de dezembro de 1972, Yip Man morreu em casa, aos 79 anos. Deixou mulher, quatro filhos, centenas de alunos e um estilo de luta que hoje tem milhões de praticantes no mundo inteiro.

O que fica

Hoje rola briga feia entre linhagens. Tem quem diga que Bruce Lee “traiu” o estilo criando o Jeet Kune Do. Tem quem jure que fulano é o verdadeiro herdeiro. Tem até escola que bota foto de Yip Man na parede e ensina coisa que ele nunca fez na vida. Mas uma coisa ninguém contesta: sem Yip Man, Wing Chun seria só mais um estilo obscuro do sul da China. Ele pegou uma arte de rua feita pra operário e mulher pequena se defender e transformou em fenômeno global – sem marketing, sem academia chique, sem patrocínio.

No fim das contas, o maior legado dele talvez nem seja a técnica. É a prova de que tamanho, força bruta e pose não ganham de simplicidade, inteligência e um centro de gravidade bem baixinho.
E pensar que tudo começou com um adolescente metido a besta que achou que ia bater num “velhinho” qualquer…Nossa, li tudo sem perceber.