Césio 137: "Chernobyl Brasileiro" Completa 26 Anos

    cesio topo13/09/2013 - 13 de setembro de 1987, Goiânia, estado de Goiás, Brasil. Um ano e meio após o terrível acidente de Chernobyl o Brasil vive uma tragédia de proporções bem menores, mas com implicações semelhantes. Abandonado desde 1985, o prédio do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR) escondia um terrível segredo: Uma das máquinas, a qual utilizava uma fonte de Césio 137 - um produto altamente radiativo -, foi deixada para trás. O destino da peça abandonada era alvo de uma ação judicial entre o IGR, cujo dono era Carlos Figueiredo Bezerril, e a Sociedade de São Vicente de Paula, então dona do terreno onde antes ficava o IGR.

    A Sociedade impedia judicialmente que Bezerril retirasse a máquina do local, inclusive recorrendo ao Instituto de Assistência dos Servidores públicos do Estado de Goiás (Ipasgo), dirigido por Saura Taniguti, a qual deu ordem de uso de força policial contra Bezerril para que ele não pudesse retirar o objeto. Em 11 de setembro de 1987 Bezerril notificou o presidente do Ipasgo, Lício Teixeira Borges, de que a responsabilidade pelo que aconteceria com a bomba de césio seria totalmente dele e da Ipasgo.

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    Em 13 de setembro de 1987, Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, dois trabalhadores de um ferro-velho, invadiram o prédio abandonado do IGR e levaram a máquina com a bomba de césio pensando que ela teria algum valor de mercado após o desmonte e separação das peças. No mesmo dia os homens começaram a desmontar a máquina e ter os primeiros sintomas de envenenamento radiativo com vômitos, diarreia e tontura. Uma das mãos de Pereira começou a inchar e uma queimadura se formou no exato lugar onde ela havia entrado em contato com a abertura da máquina que permitia a saída da fonte de césio. Sentindo-se cada vez pior, uma visita a um centro clínico em 15 de setembro produz o diagnóstico errado de intoxicação alimentar e os médicos pedem que Pereira vá para casa e descanse. Cerca de um mês depois, seu braço teve de ser amputado.

    cesio2 Leticia das Neves

    Alves consegue furar a bomba de césio em 16 de setembro e encontra no interior o que lhe parecia um pó que brilhava no tom azul. Fascinado com aquilo, ele logo tenta retirar o pó do interior da bomba e, após ter sucesso nisso, faz testes de ignição pensando se tratar de algum tipo de pólvora. Em 18 de setembro Alves vende os restos da máquina para Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho vizinho, o qual também fascina-se com a luz azul que emanava da bomba de césio durante a noite. Devair começa a apresentar sinais de delírio, frequentemente falando e mexendo na bomba, e sempre com ela onde quer que fosse para exibir aos amigos e familiares. Para ele, a luminescência era algo de muito valor ou mesmo sobrenatural.

    cesio3 Efeitos na mão

    Devair faz questão de que todos entrem em contato com a luz para que ficassem maravilhados como ele, mas a maioria das pessoas tinha um medo subconsciente da peça. Após oferecer uma recompensa a quem conseguisse abrir a bomba, um amigo próximo consegue extrair vários grãos azulados da peça e divide o conteúdo entre ele, seu irmão e Devair, o qual promete fazer um anel para sua esposa com as pedras que para ele eram preciosas. Na mesma noite, Gabriela Maria Ferreira, esposa de Devair, apresenta sintomas estranhos. Em 24 de setembro, Ivo, irmão de Devair, leva um pouco do pó fluorescente para sua casa e espalha no chão de um dos cômodos onde, mais tarde, sua filha, Leide das Neves Ferreira, comeria um sanduíche enquanto sentada no chão iluminado. No dia seguinte, com toda a família doente e muita insistência de Gabriela, Devair vende o resto das peças da máquinas para outro ferro-velho.

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    Foi Gabriela quem primeiro notou as estranhas coincidências entre o achado da bomba de césio e os sintomas apresentados por amigos e parentes, salvando muitas vidas que seriam prejudicadas posteriormente se entrassem em contato com o material. Desconfiada do objeto, ela vai ao ferro-velho vizinho, reclama a bomba para sí, pega um ônibus e vai até um hospital próximo onde mostra a bomba para alguns médicos. Paulo Roberto Monteiro, um dos médicos, imediatamente suspeita que a peça seja perigosa e a coloca em seu jardim, longe de todos, sobre uma cadeira. Por ter sido transportada em um saco plástico, a bomba não contaminou o hospital e somente pequenos traços inofensivos de radiatividade foram achados.

    Na manhã de 29 de setembro de 1987, um dos médicos resolve examinar a peça com um cintilômetro e passa a maior parte do dia tendo leituras altas de radiação no objeto e perto dele. O médico então começa a persuadir as autoridades para que tomem providências urgentes. No fim da tarde as autoridades municipais, estaduais e federais já sabem do ocorrido e as ações de contenção começam na mesma noite.


    REsultados Finais

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    Cerca de 130 mil pessoas foram parar em hospitais com os estranhos sintomas do envenenamento por radiação. Dessas, 250 tinham resíduos fortes nas roupas e na pele e tiveram de ser internadas por estarem contaminadas. As 46 mais contaminadas tinham níveis inimagináveis de radiação em seu corpo, mas muitas sobreviveram porque, segundo explicações oficiais, a recepção provavelmente foi fracionada e permitiu ao organismo rechaçar e curar os estragos causados nas células pela radiatividade.

    O resultado final inclui quatro mortes por envenenamento radiativo:

    Leide das Neves Ferreira, 6 anos, filha de Ivo. Inicialmente uma equipe internacional tratou da menina que ficou confinada em um quarto porque a equipe do hospital tinha medo de chegar perto dela. Leide foi contaminada por uma dose altíssima e passou a apresentar queda de cabelo, inchaço no tronco, danos nos rins e pulmões e sangramento interno. Ela morreu em 23 de outubro de 1987 por septicemia e infecção generalizada no Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Leide foi enterrada em um cemitério de Goiânia dentro de um caixão de fibra de vidro revestido de chumbo para evitar que a radiação se espalhasse. Mais de duas mil pessoas tentaram impedir o enterro da menina usando pedras e tijolos para bloquear a entrada do cemitério por temerem que as áreas vizinhas fossem contaminadas.

    Gabriela Maria Ferreira, 37 anos, esposa de Devair. Ela passou a experimentar os sintomas três dias após entrar em contato com o césio. Gabriela desenvolveu sangramento interno nos olhos, membros e trato digestivo, e perda de cabelo. Ela morreu em 23 de outubro de 1987.

    Israel Batista dos Santos, 22 anos, empregado de Devair. Um dos primeiros a entrar em contato com a bomba de césio, Israel desenvolveu sérias complicações respiratórias e linfáticas. Foi admitido em um hospital em 21 de outubro de 1987 e morreu seis dias depois.

    Admilson Alves de Souza, 18 anos, outro empregado de Devair, desenvolveu sangramento interno e danos no pulmão e coração. Morreu em 18 de outubro de 1987.

    Devair Alves Ferreira absorveu a maior quantidade de radiação, 7 Gray, um número absurdo, mas continuou vivo. Branco de nascimento, Devair ficou com a pele escura com o passar dos meses devido à ação da radiação. Em entrevista em 1987 ele afirmou que não se sentia culpado pelo ocorrido por não saber do que se tratava a peça, apenas triste por ter perdido a família inteira. Devair se tornou alcoólatra e morreu em 1994. Ivo, pai de Leide, veio a falecer mais tarde com enfisema pulmonar. Apesar disso, sua morte não foi em decorrência da contaminação. Sentindo-se culpado pela morte da filha, Ivo passou a fumar seis maços de cigarro por dia em função de uma depressão aguda.


    Medidas Legais


    Por causa das mortes ocorridas, os três médicos que eram donos do IGR antes do fechamento foram indiciados por negligência embora Carlos Figueiredo Bezerril tenha tentado retirar o aparelho do local de várias formas, sempre sendo impedido judicialmente pelos novos donos, a Sociedade de São Vicente de Paula, e a Ipasgo. Em 2000 a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) foi obrigada pela 8º Tribunal Federal de Goiás a pagar R$ 1,3 milhões e oferecer tratamento médico e psicológico gratuito para as vítimas diretas e indiretas, seus parentes até o 3º grau e seus descendentes.

    Como o acidente se deu antes da promulgação da Constituição Federal de 1988 e como o equipamento foi obtido pelo instituto e não por um dos donos, a corte não pode declarar nenhum dos donos do IGR como culpado. Apenas um dos médicos foi sentenciado a pagar R$ 10 mil pelo estado de abandono do prédio.


    Caixões de chumbo

    cesio10 caixões de chumbo


    Odesson Alves Ferreira, irmão de Devair e presidente da Associação de Vítimas do Césio-137, lembra que as primeiras a morrer foram sua sobrinha, Leide das Neves, de 6 anos, e Maria Gabriela, esposa de Devair, no mesmo dia 23 de outubro.

    As vítimas foram enterradas em caixões de chumbo para conter a radiação. Hoje, de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde de Goiás, o Centro de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves Ferreira (antiga Suleide) tem cadastradas 163 pessoas dos chamados grupo 1 e 2 – que tiveram contato mais próximo com o elemento radioativo – e 780 do grupo 3, que abrange os policiais militares, bombeiros e funcionários do Consórcio Rodoviário Intermunicipal que trabalharam na época do acidente.

    cesio7 enterro de uma das vitimas

    Diretor técnico do centro, o médico José Ferreira Silva diz que algumas vítimas têm sequelas físicas deixadas pelo acidente ou doenças que podem ter sido causadas pela radiação. Mas acrescenta que as doenças mais comuns são as psicossomáticas, as “sequelas de cunho psicológico do acidente”.

    “As pessoas não morreram com a radiação, mas não sabem se podem ter um câncer daqui a pouco, um filho malformado, ficam esperando doenças. Algumas perdem a atitude de resistência à vida, ficam entregues, entram em depressão, têm todo tipo de doença”, diz.

    cesio8 tumulos dos falecidos

    “Tudo parece ser derivado não da radiação, mas do acidente, ou seja, dessa peste de ter sido acidentado com uma coisa que não vai ter fim nunca. É uma situação difícil. A gente realmente não consegue deixar essa população tranquila em relação a seu futuro”, acrescenta o médico.


    Limpeza

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    Cabeçote de onde foi estraida a cápsula de césio


    Várias casas foram demolidas e a camada superior do solo foi removida em diversos locais. Móveis e objetos pessoais foram removidos das casas e examinados. Para diminuir o impacto psicológico do ocorrido, a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) determinou prioritário so esforços para a recuperação e descontaminação da maior parte dos materiais pessoais, como fotos, jóias e quaisquer outras coisas de valor emocional. Embora o pedido tenha sido oficial, o relatório da IAEA não aponta até que ponto essa decisão foi cumprida.

    Aspiradores foram usados para retirar o pó das casas e os encanamentos foram revisados para detectar radiação. Potássio de alumínio, ácido hidrocloridrico, hidróxido de sódio e vários solventes orgânicos, além de Azul da Prússia, foram usados. O Azul da Prússia também foi usado na descontaminação interna de várias pessoas. A operação de limpeza foi muito mais difícil de se fazer do que em situações comuns onde a fonte de radiação está selada. Como a bomba foi aberta e o césio 137 é solúvel em água, a radiação se espalhou com maior facilidade atingindo três grandes distritos da cidade.


    Fonte: http://21dedezembro2012.blogspot.com.br
              http://kurioso.es
              http://ultimosegundo.ig.com.br

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