Página Virada

    gazetaalegre3Por Luiz Carlos Félix de Oliveira, 11/06/2022 - No século passado era comum, os jovens de diferentes localidades como da Fronteira, Vale do Rio Pardo, Missões...reunirem-se nos finais de semana, na Rua da Praia (Porto Alegre - RS), formando ilhas. Aos sábados à noite todos "na beca", depois de muito papo escolham seus programas, de acordo com suas preferências e limitações. Cinema, reunião dançante ou iam para o Clube Dinamite.

    O Teatro de bolso, sempre era uma boa pedida, palco de peças cômicas, mulheres seminuas, insinuantes e com muito rebolado. Entre tantos, estiveram naquele palco Colé e Silva Filho com as "Certinhas do Lalau" (de Sérgio Porto - Stanislaw Ponte Preta). Ao fnal, esperavam as vedetes sairem em direção ao American Boate ou jantarem no Treviso, que nunca fechava. A Confeitaria Matheus na praça da Alfândega, aberta 24 horas, era outro ponto de encontro na saída dos cinemas. O lanche predileto era um "farroupilha" com pernil de porco e meia taça de café.

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    O que mais despertava curiosidade era observar, sentado num banco, em frente a Confeitaria, uma figura solitária e esquisita, vestindo casaco de pele, que chamavam de Mariposa. Diziam ser húngara, uma mulher de feiçoes amargas e aspecto morfético, que não recebia nenhum assedio.

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    Na Livraria Coletânea, outro ícone da noite,iam buscar cultura quando, as vezes, encontravam Mário Quintana silencioso e sisudo, que folhava livros, como se estivesse à procura de poesias melhores que as suas. Nas madrugadas era comum, um solitário e habilidoso músico tocar violiono na vitrine da Casa das Sedas. Contavam, que certa noite um gajo, gritou: - Bravo Paganini!!! e em troca recebeu o estojo do violino na cabeça.

    A edição dominical do Correio do Povo, embaixo do braço, pesando quase um quilo, era companheira para o retorno da noite bem vivida sempre tranquila e segura. Embarcavam no bonde fantasma, que circulava nas madrugadas, levando muitos sonhos e devaneios dos jovens à bordo.

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    Os anos se passaram, desapareceu a Rua da Praia e com ela o lindo centro social e seguro, convivio de várias gerações de todos os recantos do Rio Grande do Sul. Chegou a moda do calçadão, que desfigurou e terminou com a poesia das noites portoalegrenses. Ali passava a vida da cidade, contada e assistida em cima de cada paralelepípedo disputado por muitos pés. Página virada, o mundo é outro.

    Fonte: Gazeta de Alegrete
    Imagens: O Arquivo

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