Os Irmãos Batista e o Brasil que a gente finge que não vê. Detergente, carne, ovo e energia elétrica. O que essas quatro coisas têm em comum além de fazer parte da sua vida toda semana? Simples: os irmãos Batista. E a história que une esses quatro produtos é tão absurda, tão escancarada, que você vai terminar esse texto com uma mistura de raiva, riso nervoso e aquela sensação familiar de "isso aqui só no Brasil mesmo." Vamos começar pelo começo — ou melhor, pelo detergente na pia da sua cozinha.
A YPÊ, a ANVISA e a concorrente que ninguém mencionou
A YPÊ é uma daquelas marcas que estão em todo canto. Cozinha de rico, cozinha de pobre, mercadinho de bairro, hipermercado. O produto é popular, acessível, e a empresa tem um histórico de apoio político bem documentado: em 2018, os donos da YPÊ doaram R$ 1,5 milhão para a campanha de Jair Bolsonaro. Tudo dentro da legalidade eleitoral da época, registrado, publicado. Não é segredo. Aí vem 2025 e a ANVISA suspende produtos da YPÊ. A notícia corre rápido, vira assunto nas redes, a marca sofre o baque da repercussão. Mas no meio de toda essa movimentação, uma pergunta ficou meio que esquecida nas entrelinhas: quem mais lucra quando a YPÊ cai?
Apresentamos a Minuano. Uma marca de limpeza que concorre diretamente com a YPÊ nas prateleiras do Brasil inteiro. E adivinhem quem controla o grupo do qual a Minuano faz parte? Joesley Batista. O mesmo. Aquele. Sim. Não estamos dizendo que houve um complô orquestrado nos bastidores para derrubar a YPÊ e favorecer a Minuano. O que estamos dizendo é que a coincidência é grande demais para ser ignorada com um simples "ih, que engraçado." A pergunta honesta que qualquer pessoa com dois neurônios ativos precisa fazer é: quem se beneficia? E a resposta aparece antes mesmo de terminar a frase.
O ovo, o carimbo e o maior produtor do Brasil
Virada de 2024 para 2025. Os irmãos Batista compram 50% da Mantiqueira, que é, sem exagero, a maior produtora de ovos do Brasil. Empresa enorme, com capacidade industrial de escala que a maioria dos competidores simplesmente não tem como igualar. Aí passam algumas semanas — literalmente semanas — e o governo federal publica uma portaria tornando obrigatório o carimbo individual em cada ovo produzido no país. Cada. Ovo. Um carimbo com identificação de origem, rastreabilidade, informações do produtor.
Parece razoável à primeira vista, né? Até você perguntar: quem tem a tecnologia e a estrutura industrial para implementar isso imediatamente? Quem tem as linhas de produção automatizadas, o maquinário de última geração e o capital para se adequar a uma exigência assim sem piscar? Exatamente. A Mantiqueira. Os Batista. Os pequenos e médios produtores de ovos — que são dezenas de milhares espalhados pelo Brasil, muitos deles agricultores familiares — ficariam literalmente inviabilizados pela medida. Não têm o equipamento. Não têm o capital para comprar. E enquanto tentavam se adequar ou iam à falência tentando, quem abocanharia a fatia de mercado deles? Responda você mesmo. A pressão popular foi enorme. O Congresso Nacional entrou em campo. A portaria foi revogada. Mas o que fica de lição não é a revogação — é que a medida chegou a ser publicada. Alguém a escreveu, alguém a assinou, alguém a enviou para publicação no Diário Oficial. Isso não acontece por acidente.
As usinas, a dívida de 10 bilhões e a sua conta de luz
Agora segura o coração. Essa aqui é a que mais dói no bolso — literalmente. Em 2024, os irmãos Batista adquirem três usinas da Eletrobras por R$ 4,7 bilhões. Negócio fechado, ativo transferido, transação concluída. Aí vêm três dias — três dias — e o governo publica uma Medida Provisória. O conteúdo? Transferir as dívidas dessas usinas para a conta de energia elétrica dos brasileiros. Uma dívida de R$ 10 bilhões. Você leu certo. Dez bilhões de reais em dívidas de usinas que acabavam de ser vendidas para um grupo privado foram repassadas para o consumidor comum. Para você. Para mim. Para o aposentado que recebe um salário mínimo e paga sua fatura de luz em dia todo mês.
O comprador dos ativos ficou com as usinas — que geram receita, que faturam, que produzem energia para vender. A dívida ficou com o povo. É o capitalismo mais criativo que existe: privatiza-se o lucro, socializa-se o prejuízo. E tudo com o respaldo de uma Medida Provisória publicada três dias após a venda. Três. Dias. Para quem ainda estava com alguma esperança de que foi coincidência: o timing de uma MP não é aleatório. Medidas Provisórias são minutadas por técnicos, revisadas por juristas, aprovadas por ministros e assinadas pelo presidente. São documentos que levam tempo para serem preparados. Três dias é tempo demais para improviso e de menos para casualidade.
Joesley, Zanin, Lula e o jeitinho mais caro do mundo
2017 foi o ano em que muita gente acreditou que o Brasil estava finalmente virando a página. A Operação Lava Jato estava no auge, políticos e empresários sendo presos, o país inteiro acompanhando. E no meio de tudo isso, Joesley Batista faz uma delação premiada bombástica. Na delação, ele afirmou ter entregado quase US$ 150 milhões em propina para os dois maiores nomes do PT. Segundo ele, US$ 70 milhões foram para o Lula e US$ 80 milhões para Dilma Rousseff. Os valores são absurdos, os detalhes eram específicos, o impacto político foi enorme. O Brasil parou para ouvir.
Joesley foi preso. Depois foi solto. Isso é Brasil, como diz o ditado, e quem foi preso de verdade e ficou sabe o peso do que significa esse ciclo de "preso e solto" quando você tem dinheiro suficiente para bancar os melhores advogados do país. Por falar em advogados de alto nível: em 2022, os irmãos Batista contrataram Cristiano Zanin para sua defesa jurídica. Zanin era o mesmo advogado que havia defendido o Lula durante todos os processos da Lava Jato. Um homem com expertise ímpar em navegar os mares turbulentos da Justiça brasileira em casos políticos de alto impacto. Em 2023, Lula indicou Zanin para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Zanin tomou posse como ministro do STF.

Para o crédito de Zanin, ele se declarou impedido de relatar qualquer caso envolvendo Joesley Batista e a JBS, reconhecendo o conflito de interesse óbvio que existia entre ser ministro e ter sido advogado dos mesmos réus. Tecnicamente correto, eticamente elogiável se parar aí. Mas aí o enredo continua.
No final do mesmo ano, outro magistrado entra em cena: o ministro Dias Toffoli, indicado ao STF por — você já sabe — Lula, suspendeu uma multa de R$ 10 bilhões que havia sido aplicada à JBS. Dez bilhões de reais. Suspensos. Por um ministro indicado pelo mesmo presidente que recebeu, segundo a delação do próprio Joesley, dezenas de milhões de dólares em propina. A teia se fecha sozinha. Não é preciso forçar conexão alguma — as conexões estão todas ali, documentadas, públicas, em registros oficiais.
A sorte que não é sorte, o acaso que não é acaso
Existe um ponto em que a sequência de "coincidências" deixa de ser estatisticamente possível e passa a ser, na linguagem popular, uma roubada bem orquestrada. Vamos recapitular o roteiro: compram a maior produtora de ovos do Brasil, e semanas depois surge uma regulação que favorece exatamente quem tem estrutura industrial de grande escala. Compram usinas da Eletrobras, e três dias depois uma MP transfere as dívidas delas para a conta de luz do brasileiro. A principal concorrente de uma marca associada à oposição tem seus produtos suspensos pela agência reguladora. O advogado deles vira ministro do STF. Uma multa bilionária é suspensa por um ministro indicado pelo mesmo político que eles declararam ter subornado.
Sortudo que só os Batista, né? Uma sorte quase... divina. O tipo de sorte que exige muito mais do que um coelho na cartola — exige décadas de investimento em relacionamentos, doações, advogados estratégicos e uma compreensão cirúrgica de como o poder no Brasil realmente funciona. E a resposta honesta sobre como isso funciona não está nas teorias da conspiração. Está nos documentos públicos, nas portarias do Diário Oficial, nos registros de doações eleitorais, nas atas de posse de ministros e nas decisões judiciais que qualquer brasileiro pode consultar. O problema não é falta de transparência nos fatos — é excesso de anestesia coletiva para processá-los.
O Brasil que a gente construiu juntos (e continua construindo)
Tem uma crítica que aparece toda vez que esse tipo de denúncia vem à tona, e ela tem seu mérito ainda que doa ouvir: o povo brasileiro aceita. Faz meme. Viraliza nas redes por 48 horas. E segue a vida. Não é exagero dizer que o Brasil é tratado internacionalmente como um caso de estudo em impunidade sistêmica. Um país com riquezas naturais que fariam qualquer nação desenvolvida chorar de inveja, com uma população criativa, trabalhadora e resiliente, que ano após ano vê seus recursos públicos sendo desviados, seus impostos sendo mal geridos e seus representantes servindo a grupos de interesse em vez de servir ao povo que os elegeu.
E a cada ciclo, a cada novo escândalo, a mesma dança: investigação, prisão, habeas corpus, soltura, arquivamento, volta ao poder. O sistema não falhou. O sistema funcionou exatamente como foi desenhado para funcionar — para proteger quem tem dinheiro e conexões, e deixar a conta para quem não tem. Não falta dinheiro no Brasil. Não faltam recursos naturais. Não falta inteligência na população. O que falta, e é gritante, é uma classe política e empresarial que tenha vergonha na cara. E o que falta também — e isso é mais difícil de admitir — é uma sociedade que pare de tolerar.
2026: o ano em que você decide de qual lado está
Tem uma coisa que todos esses episódios têm em comum além dos Batista: eles só existem porque há eleições que os tornam possíveis e eleições que poderiam torná-los impossíveis. Cada ministro foi indicado por alguém que foi eleito. Cada agência reguladora tem uma diretoria nomeada por quem está no poder. Cada Medida Provisória é assinada por um presidente que você colocou lá — ou não colocou, porque ficou em casa no dia da eleição.
2026 é ano eleitoral. Municipal não — eleição de peso: governadores, senadores, deputados federais e estaduais. O parlamento que vai ou não fiscalizar os próximos escândalos. Os governadores que vão ou não barrar as próximas portarias absurdas. Os senadores que vão ou não questionar as próximas Medidas Provisórias publicadas três dias depois de uma venda milionária. A pergunta "até quando?" que aparece no fim de toda discussão sobre corrupção no Brasil tem uma resposta objetiva: até quando o eleitor decidir que chega. Não tem fórmula mágica, não tem herói esperando nos bastidores, não tem nação estrangeira que vai resolver o problema por nós. O Brasil que existe daqui a dez anos vai ser diretamente proporcional às decisões que forem tomadas na urna em outubro de 2026 — e nas eleições que vierem depois.
Para um Brasil diferente, precisamos de brasileiros diferentes. Não no sentido de trocar a população — no sentido de que os mesmos brasileiros precisam fazer escolhas diferentes. Precisam pesquisar antes de votar. Precisam cobrar mandato. Precisam parar de aceitar que "todos são iguais" como desculpa para não escolher com cuidado. Porque sim, há diferença entre candidatos — e fingir que não há é exatamente o que mantém os mesmos grupos de sempre no controle. A conta de luz vai chegar no fim do mês. O detergente vai estar na prateleira. O ovo vai estar no mercado. E os irmãos Batista vão continuar operando normalmente, como se nada tivesse acontecido — porque para eles, literalmente, nada aconteceu. A pergunta é o que você vai fazer com essa informação.