China paga para o povo casar — e censura quem briga

China paga para o povo casar — e censura quem briga

2026 - A China decretou o fim da guerra dos sexos (e o motivo não tem nada a ver com amor). Para de rolar essa tela um segundo. Porque o que eu vou te contar parece roteiro de filme distópico, mas é dado oficial, saiu de relatório de governo, está documentado por agência internacional de imprensa. A China, isso mesmo, o país com quase um bilhão e meio de habitantes, decidiu que homem brigando com mulher na internet é um problema de Estado.

 

Não é exagero meu, não é clickbait. É política pública, com órgão regulador, ordem oficial e multa pra quem não cumprir. Desde 2025, a Administração do Ciberespaço da China — o órgão que decide o que pode e o que não pode circular na internet chinesa, e que, convenhamos, decide praticamente tudo por lá — vem classificando como conteúdo problemático qualquer postagem que "crie antagonismo de gênero". Na prática? Perfil que vive atacando homem, plataforma derruba. Perfil que vive atacando mulher, mesma coisa. Isso já vinha acontecendo de forma mais informal nos últimos anos, em campanhas batizadas de "Clear and Bright" (algo como "limpo e claro", em chinês), mas a virada de chave foi tornar isso uma diretriz oficial e nacional, valendo pra todo mundo: Weibo, Douyin, Bilibili, tanto faz.

E aqui já cabe um parêntese importante, porque prometi contar a verdade sem maquiagem: essa simetria que parece existir no papel não é tão simétrica assim na prática. Pesquisas acadêmicas recentes — inclusive um levantamento publicado no East Asia Forum em 2025 — mostram que o discurso misógino historicamente ocupou mais espaço dentro da censura chinesa do que o discurso feminista. Desde 2018, quando o movimento #MeToo chegou à China, contas feministas como a "Feminist Voices", que tinha mais de 200 mil seguidores, foram banidas. E até hoje, universidades e veículos de mídia evitam até falar a palavra "feminismo" abertamente, preferindo termos mais "palatáveis" como "ismo feminino" ou "igualdade de gênero". Ou seja: a guerra dos sexos que o governo quer apagar não nasceu equilibrada, e a forma como ela está sendo apagada também não é. Mas isso não muda o objetivo final da jogada, que é o que importa pra entender essa história toda.

Mas por que diabos um governo se meteria nisso?

Aqui está a parte que ninguém te conta no resumo de manchete. Não é sobre paz, não é sobre amor, não é sobre harmonia social no sentido raso que parece à primeira vista. É sobre número. É sobre conta que não fecha. E o governo chinês fez essa conta há anos, com toda a frieza de quem está vendo o país encolher.

Pensa assim, do jeito mais simples possível: se homem e mulher estão em guerra constante, ninguém confia em ninguém. Se ninguém confia em ninguém, ninguém namora de verdade. Se ninguém namora, ninguém casa. E se ninguém casa, ninguém tem filho. Parece óbvio, né? Mas o problema é que, na China, essa cadeia de "ninguéns" já virou estatística — e estatística feia.

Desde 2013, o número de casamentos no país despencou. Caiu de cerca de 13 milhões em 2013 para menos de 7 milhões em 2022, o valor mais baixo desde que o país começou a registrar esses dados, em 1985. Teve uma leve recuperação depois, mas o quadro geral é de queda livre. E o ano de 2024 fechou como o número de casamentos caindo de 7,7 milhões em 2023 para 6,1 milhões em 2024 — um tombo daqueles, de um ano para o outro. Se você está se perguntando se isso é o menor número desde sempre: sim, mais ou menos. O governo chinês já vinha projetando ter o menor número anual de novos casamentos desde 1980, o que é assustador se você lembrar que estamos falando de quatro décadas de história.

E olha que irônico: enquanto os casamentos murchavam, os divórcios subiam soltos. Em 2019, a China bateu um recorde de 4,7 milhões de divórcios, mais de quatro vezes o número registrado duas décadas antes. O governo viu aquilo e simplesmente não aguentou mais assistir.

A jogada do período de "esfriamento": forçar quem quer terminar a ficar mais um pouco

Foi em 2021 que a China deu o primeiro tiro de canhão nessa guerra silenciosa contra o próprio comportamento social do seu povo. Um novo Código Civil entrou em vigor obrigando os casais que pedissem divórcio a esperar 30 dias antes de oficializar a separação. Não é força de expressão, é regra mesmo: você assina o papel pedindo o divórcio, e durante esse mês qualquer um dos dois pode voltar atrás e cancelar o processo. Só depois desse período de "reflexão" — e olha que nome bonito pra coisa tão controladora — é que o casal pode voltar ao cartório e finalizar tudo.

Imagina a cena. Você decidiu, depois de anos pensando, que quer se divorciar. Você não está em dúvida, você não precisa "pensar mais". Mas o Estado decidiu, por você, que sua decisão merece um mês de quarentena emocional antes de valer. É surreal, mas foi exatamente isso que aconteceu — e funcionou, ao menos a curto prazo. No primeiro trimestre de 2021, logo depois da lei entrar em vigor, os divórcios registrados caíram 72% em relação ao último trimestre do ano anterior — de 1,06 milhão para 296 mil. Olhando o ano fechado, 2,1 milhões de casais concluíram o divórcio em 2021, uma queda de 43% comparado aos 3,7 milhões de 2020.

Só que, e aqui a vida real bate de volta na teoria do governo: o efeito foi temporário. Segundo dados oficiais, os divórcios voltaram a subir, com um aumento de 25% em 2023 em relação ao ano anterior. Ou seja, represar água não é a mesma coisa que secar a fonte. As pessoas simplesmente esperaram o mês passar e seguiram com seus planos. A insatisfação foi tão grande que, na época, a hashtag contra o período de reflexão bombou no Weibo — chegando a mais de 25 milhões de menções, segundo registros da época. E tem um detalhe sombrio que vale a pena não escamotear: especialistas em direito de família apontaram que a regra também complica muito a vida de mulheres em situação de violência doméstica, que muitas vezes preferem o divórcio rápido pelo cartório à via judicial, mais cara e demorada — e essa regra de 30 dias empurra justamente essas mulheres para o caminho mais difícil.

Depois veio a fase 2: pagar para o povo casar

Se travar o divórcio não bastava, a saída óbvia (pelo menos óbvia pra quem pensa como Estado autoritário) era empurrar pelo outro lado: incentivar o casamento com dinheiro vivo. E foi isso que aconteceu, com prefeituras e governos provinciais espalhados pelo país topando a missão.

Em fevereiro de 2025, veio a confirmação: diversas regiões da China passaram a pagar 1.500 yuans, cerca de R$ 1.182, para casais que oficializassem o casamento. Pode parecer pouco pra gente, mas é um valor que pesa de verdade em cidades pequenas e na zona rural, onde os salários são bem mais baixos do que nas metrópoles. Em Luliang, província de Shanxi, o incentivo causou exatamente o efeito que o governo queria ver: uma corrida aos cartórios, com 400 casamentos registrados em apenas 43 dias.

E o pacote de bônus não parou no "sim, eu aceito". O governo também passou a pagar por filho nascido, numa escala crescente que parece tabela de premiação: 2.000 yuans pelo primeiro filho, 5.000 pelo segundo e 8.000 pelo terceiro, o que em reais dá, respectivamente, algo como R$ 1.558, R$ 3.895 e R$ 6.232. Tem província, como Hainan, que foi além e prometeu até cobrir o custo de tratamentos de alívio da dor no parto, numa tentativa de se vender como sociedade "amiga do parto" — o termo oficial mesmo, sem ironia.

E a artilharia pesada não ficou só no dinheiro. O governo lançou pelo menos treze políticas reunidas numa diretriz nacional para "apoiar a taxa de natalidade", incluindo coisas inusitadas como ligar diretamente para mulheres casadas perguntando sobre seus planos de maternidade — sim, o Estado te telefonando pra saber se você já pensou em engravidar — e até cursos de "educação sobre casamento e amor" dentro das universidades, porque uma pesquisa oficial encontrou que mais da metade dos estudantes, 57%, simplesmente não considera namorar por estarem sobrecarregados de trabalho e estudo.

A conta fria que o governo chinês fez (e que o Ocidente não quer fazer)

Agora chega a parte que explica tudo, o porquê de tanto esforço, tanto dinheiro, tanta regra esquisita. A China entendeu, antes de muita gente, que guerra de gênero não é só uma pauta de debate cultural nas redes sociais. É uma bomba-relógio demográfica. E demografia, gente, não tem ideologia: ou a conta fecha, ou não fecha.

O raciocínio é simples de seguir, mesmo sendo difícil de engolir: se homem e mulher vivem em conflito constante, casamento não acontece. Se casamento não acontece, filho não nasce. E se filho não nasce, em 30 anos você não tem gente nova entrando na força de trabalho, não tem quem sustente o sistema de aposentadoria, não tem soldado pra defender fronteira, não tem operário pra fábrica, não tem consumidor pra puxar a economia. É a cadeia inteira que desmonta, peça por peça, de trás pra frente.

E os números batem com esse medo. A população chinesa está envelhecendo num ritmo acelerado: a expectativa é que, até 2035, mais de 400 milhões de chineses tenham mais de 60 anos. Isso é praticamente a população inteira dos Estados Unidos só em gente na terceira idade, sobrecarregando um sistema previdenciário que precisa de gente jovem trabalhando e contribuindo pra se sustentar. A taxa de fecundidade chinesa está em torno de 1,2 filho por mulher — bem distante do mínimo de 2,1 necessário só para manter a população estável, sem nem crescer. E o país já registrou queda populacional por anos consecutivos, um fenômeno que pegou os próprios planejadores chineses de surpresa, porque durante décadas eles apostaram que, assim que a política do filho único fosse revogada, as famílias voltariam a ter filhos no ritmo de antes. Não voltaram.

Tem ainda outro ingrediente nessa receita, um que poucos artigos por aí mencionam: o desequilíbrio entre homens e mulheres. O censo de 2020, o mais recente divulgado pelo país, mostrou que existem cerca de 34,9 milhões de homens a mais do que mulheres na China — resultado direto de décadas de política do filho único combinada com a preferência cultural histórica por filhos homens, que levou a abortos seletivos e, em casos documentados, até ao abandono de bebês do sexo feminino. Isso significa que, mesmo que toda a guerra de gênero acabasse hoje, ainda existiria um excedente gigantesco de homens sem par disponível para casar. A conta demográfica chinesa não é só sobre brigar menos: é sobre uma escassez estrutural de mulheres que nenhuma campanha de propaganda consegue resolver.

A lógica militar por trás da jogada (e por que isso é mais estratégico do que parece)

Tem uma camada dessa história que vai além da economia, e que merece ser dita sem rodeio: pensamento de longo prazo de Estado autoritário pensa em poder, e poder, na visão deles, passa por população. Imagina um país entrando numa eventual disputa geopolítica daqui a três décadas com uma geração que cresceu brigando entre si pelas redes sociais, que não formou família, que não criou filho, que não construiu raiz nenhuma de pertencimento coletivo. Esse país já perdeu antes de qualquer conflito sequer começar — porque não tem gente, não tem mão de obra, não tem quem componha força de trabalho, indústria ou qualquer outra engrenagem que sustente poder nacional no longo prazo.

É exatamente por isso que, enquanto o Ocidente segue debatendo nas redes sociais e nos estúdios de televisão quem tem razão na briga entre os sexos — se é o feminismo que exagerou, se é o machismo que nunca foi embora, se é a internet que radicalizou todo mundo —, a China simplesmente decidiu que a discussão acabou. Ponto final, debate encerrado, conteúdo removido. Porque para o governo chinês, família não é uma questão de afeto pessoal, é capital político. É insumo de crescimento econômico. É peça de tabuleiro estratégico de longuíssimo prazo, igual investimento em infraestrutura ou em tecnologia militar.

O resultado real: nem tudo que reluz é solução

Só que aqui cabe a parte que faltava pra fechar essa história com honestidade, sem maquiagem: a estratégia, até agora, não está dando o resultado que o governo esperava. Mesmo com o dinheiro, com as campanhas, com a censura, com as ligações telefônicas e os cursinhos universitários de namoro, os jovens chineses continuam resistentes. Uma casamenteira entrevistada por agência internacional resumiu o impasse de um jeito direto: as mulheres hoje têm renda própria, estabilidade financeira, e estão cada vez menos dispostas a entrar num casamento desigual só porque o Estado está pagando um bônus — e, ao mesmo tempo, segundo ela, "os homens bons estão em falta". Tem inclusive um movimento crescente de mulheres educadas, sobretudo em meio à insegurança econômica e ao desemprego jovem em alta, que está escolhendo abertamente ficar solteira, sem casamento e sem filhos, organizando comunidades inteiras online — fóruns no estilo Douban com milhares de membros discutindo planos de vida alternativos, de aposentadoria coletiva a redes de apoio entre mulheres solteiras.

Ou seja: o governo pode censurar a discussão, pode multar quem ataca o sexo oposto, pode oferecer todo o dinheiro do mundo. Mas não dá pra decretar amor, não dá pra decretar desejo de constituir família por lei. A China conseguiu, com toda certeza, calar boa parte do barulho da guerra dos sexos na internet. O que ela ainda não conseguiu foi reverter o motivo de fundo que fez essa guerra nascer: uma geração inteira que olhou pro modelo de casamento tradicional, fez as próprias contas, e decidiu que, pelo menos por enquanto, prefere não entrar nesse jogo.

E talvez seja esse o verdadeiro plot twist dessa história toda: o governo mais controlador do planeta, capaz de apagar um post em segundos e derrubar perfil com milhões de seguidores da noite pro dia, ainda não encontrou um jeito de comprar, regular ou censurar o coração das pessoas. Pelo menos não esse, não ainda.