Sintonizados com o Invisível: A Verdadeira (e Obscura) História do Ocultismo na Música. Se a gente definir o "oculto" pelo seu significado literal — aquilo que é invisível, que tá escondido dos olhos, mas não dos sentidos —, fica muito mais fácil e rápido escrever sobre os raros momentos em que a música não foi afetada pelo mundo espiritual do que o contrário. A verdade nua e crua é que a música e o invisível sempre caminharam de mãos dadas, num casamento que vem de muito antes do rock and roll pensar em existir.
Da Grécia Antiga aos rituais xamânicos, das seitas secretas da Europa aos terreiros africanos, o som nunca foi só entretenimento. Ele sempre foi uma ferramenta de alteração de consciência, cura e, em muitos casos, puro poder. Abre os ouvidos e vem entender como essa linha que separa o sagrado, o profano e o oculto é muito mais tênue do que te contaram.
O Som que Cura e o Som que Invoca: As Raízes Ancestrais
Muito antes de Sun Ra criar seu jazz intergaláctico ou de Jimi Hendrix fazer sua guitarra chorar, os antigos já sabiam que certas frequências mexiam com o que a gente não vê. Há evidências robustas de que os egípcios usavam a música como uma ferramenta terapêutica de cura. Eles anteciparam em milênios o que figuras da New Age como Stephen Levine tentaram resgatar, ou até aqueles experimentos — convenhamos, bem tendenciosos — que juram que colocar música clássica faz plantinha crescer mais rápido.
Essa pegada de usar o som para induzir estados de transe tá impregnada na world music tradicional. Culturas nativas e xamânicas da Rússia às Américas, passando pelo Pacífico e pela Índia, tratam a música como patrimônio sagrado. Os fios dessa teia conectam os cantos dos aborígenes australianos ao Gandharva Veda da Índia Oriental, e as complexas estruturas da música Karnatak aos cantos ancestrais havaianos.
Mas nenhuma tradição oculta foi tão influente — e tão incompreendida pela visão eurocêntrica — quanto a cultura Iorubá da África. Quando os povos escravizados foram trazidos para o Novo Mundo, sua música e sua fé resistiram, fundindo-se e dando origem ao Voudon (o vodu) no Haiti e à Santeria em boa parte da América do Sul. Essa pulsação rítmica, puramente espiritual, acabou parindo quase tudo o que você ouve hoje: o jazz, o tango, a música cubana e, claro, o blues e o rock.
O Canto que Conecta o Céu e a Terra
Se você olhar para as religiões mais tradicionais do planeta, a oração geralmente é cantada, não falada. No Islã, no Hinduísmo e no Judaísmo, a voz modulada é a chave que abre o portal para o divino. Existem literalmente centenas de tratados nessas culturas sobre o poder da prece cantada. O Gamelão balinês e javanês, assim como as cerimônias do grupo sufi Joujouka no Marrocos, não são apresentações artísticas; são vasos de adoração.
Até a Igreja Ocidental tem sua própria receita mística. O canto de planície (ou canto proporcional), que mais tarde evoluiu para o canto gregoriano, foi o tijolo fundamental da música ocidental. A partir da Renascença, praticamente todo grande compositor dedicou a maior parte da sua vida à obra sagrada, uma linha contínua que vai de Bach até os gigantes do século XX, como Igor Stravinsky e Olivier Messiaen.
Mestres do Erudito, Discípulos do Oculto
Engana-se feio quem acha que misticismo na música começou com cabeludos fumando maconha nos anos 1960. A chamada música clássica está atolada até o pescoço em sociedades secretas e correntes esotéricas.
Wolfgang Amadeus Mozart: Não fazia a menor questão de esconder seus laços. Escreveu abertamente sobre os princípios e rituais maçônicos em sua famosa ópera A Flauta Mágica.
Alexander Scriabin: O compositor russo estava completamente imerso no movimento teosófico de Helena Blavatsky, tentando traduzir o misticismo cósmico em sons na sua sinfonia Prometeu.
Erik Satie: O excêntrico francês era um Rosacruz de carteirinha e aplicou as ideias estruturais e estéticas dessa sociedade secreta em suas hipnóticas peças para piano.
Gustav Holst e Dane Rudhyar: Não davam um passo sem olhar para o céu. Ambos eram astrólogos convictos, o que explica muita coisa sobre a famosa suíte Os Planetas, de Holst.
Olivier Messiaen: Criou uma forma única de misticismo católico romano, mas bebeu direto da fonte dos ragas indianos e passou a vida transcrevendo o canto dos pássaros para o piano, enxergando neles uma conexão divina (tendo São Francisco de Assis como seu elo espiritual).
Mesmo os nomes mais improváveis cederam ao invisível. Arnold Schoenberg passou anos quebrando a cabeça em sua ópera inacabada Moses und Aron. E Stravinsky? O cara que posava como o compositor mais anti-místico do século XX — alegando que as imagens pagãs e o sacrifício humano de A Sagração da Primavera eram derivados puramente da música, e não o contrário — acabou parindo duas obras-primas sacras: a Sinfonia dos Salmos e o Canticum Sacrum.
Até Richard Strauss, ao compor Also Sprach Zarathustra (aquela música clássica do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço), fez uma homenagem a Nietzsche, mas também aos princípios incompreendidos do fundador do Zoroastrismo — considerada a primeira religião monoteísta contínua do mundo, hoje reduzida a pequenas comunidades no Irã e na colônia Parsi em Bombaim.
A Vanguarda e o Apocalipse
Mais perto dos nossos dias, a vanguarda continuou cavando o oculto. Karlheinz Stockhausen compôs peças inteiras baseadas em mantras, no mito da criação e no Arcanjo Miguel. György Ligeti imortalizou o misticismo flutuante com Lux Aeterna, enquanto John Cage buscou no Zen-budismo e no pensamento indiano a base para desconstruir o silêncio. No minimalismo, o trio Steve Reich, Terry Riley e Philip Glass mergulhou, respectivamente, nas tradições hebraicas, na música indiana e no budismo tibetano.
E o que dizer do clima pesado do fim dos anos 1960? Quando George Crumb escreveu Black Angels, havia um ar nítido de mau presságio no mundo. É uma reação parecida com a que rolou com Tubular Bells, de Mike Oldfield. A peça não nasceu para ser oculta, mas virou sinônimo de terror e satanismo por puro magnetismo associativo ao ser usada como tema do filme O Exorcista. Curioso como o destino funciona: uma música como Stairway to Heaven, do Led Zeppelin, que nasceu com uma intenção assumidamente mística, ficou só marginalmente ligada ao "maligno" em comparação com o estrago que o filme fez com a obra de Oldfield.
No teatro das óperas, o misticismo que inspirou Richard Wagner é lendário. Sua última e mais ambiciosa obra, A Comédia no Fim dos Tempos, mostra o mundo desmoronando sob as profecias de Sibilas e monges, terminando com Deus perdoando as transgressões de Lúcifer e aceitando-o de volta em seus braços. Até na barulhenta vanguarda nova-iorquina de Glenn Branca, as sinfonias de guitarras distorcidas falam abertamente sobre anjos e demônios. É uma lista que não tem fim: de Beethoven com sua Missa Solemnis a Handel, Haydn e Bruckner. Todo mundo estava tentando sintonizar o além.
De Onde Vem Tudo Isso? O Invisível Ocular
A música é, por natureza física, um fenômeno auditivo. Ela não é visível, a não ser que você olhe para aqueles rabiscos pretos numa partitura. Ou seja: a música é, por definição técnica, uma ciência oculta. Ela parece surgir do nada, flutuar pelo ar e invadir o corpo das pessoas reunidas em uma congregação — que hoje a gente chama de público de show.
Por ser invisível, ela é o veículo perfeito para "mensagens secretas". E é aí que a mente humana pira. A gente vai desde os significados profundos que os artistas realmente quiseram colocar até as teorias mais absurdas e insípidas criadas por fãs ou pela mídia.
Lembra da histeria coletiva de que "Paul McCartney morreu" no fim dos anos 1960? Ou do apresentador Geraldo Rivera jurando de pés juntos que ouviu a frase "Son of Sam" (o famoso serial killer) escondida em Purple Haze do Jimi Hendrix? Isso sem falar na palhaçada das mensagens ao contrário (backward masking) atribuídas ao Led Zeppelin.
Se você é do tipo que gasta horas dissecando letras de música atrás de mensagens subliminares do além, faça um favor a si mesmo: leia The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind (A Origem da Consciência na Ruptura da Mente Bicameral), do psicólogo Julian Jaynes.
No livro, ele argumenta que o pensamento dos povos primitivos funcionava de forma parecida com a esquizofrenia: a comunicação entre os dois hemisférios cerebrais fazia a pessoa ouvir vozes e achar que eram os Deuses falando. Isso deveria fazer qualquer um parar para pensar antes de achar que recebeu um recado divino através de um cantor grisalho, caindo pelas tabelas e mal conseguindo pronunciar as próprias palavras por causa do vício em drogas.
A verdade é que a maioria de nós ignora as palavras que não entende num disco. Mas isso não significa duas coisas: primeiro, que não exista um significado espiritual ou oculto real nas músicas que amamos; e segundo, que a música não possa ser uma experiência genuína de alteração de consciência. Ambos os fenômenos são reais. Mas como tudo o que envolve o invisível, interpretar exige cautela para não virar paranoia.
O Caldeirão do Pop: Sexo, Drogas e Espíritos
Não dá para falar de blues, jazz e rock sem colocar as cartas na mesa: essa música quase sempre floresceu na presença de substâncias que alteram a mente. E não é coincidência que o álcool seja chamado de "espírito" (spirits, em inglês). Ele tem uma potência química e vibracional que abre as portas da percepção para o que há de mais sublime ou de mais destrutivo.
A árvore genealógica da música moderna ocidental é uma mistura de duas culturas com raízes ocultas profundíssimas: a Iorubá e a Céltica. O blues veio do lamento e dos ritmos africanos. O jazz pegou essa base e somou a harmonia europeia, temperando tudo com o ambiente dos puteiros de Nova Orleans — o que, se você olhar para a história antiga, ecoa os templos de sexo sagrado que existiam em várias culturas onde o erotismo era via de iluminação. E o rock veio do blues e do country de raiz, que por sua vez foi trazido pelos imigrantes celtas que colonizaram as colinas do Tennessee.
É por isso que bandas de folk rock inglês como Fairport Convention e Jethro Tull conseguiram misturar ritmos pesados com canções folclóricas medievais de um jeito tão absurdamente fluido. Estava tudo no mesmo DNA.
Encruzilhadas e Feitiços
O blues sempre usou e abusou da imaginação oculta. A lenda mais famosa do estilo diz que Robert Johnson vendeu sua alma ao diabo numa encruzilhada em troca do seu virtuosismo na guitarra. Em quase todas as culturas antigas, as encruzilhadas são vistas como pontos de transição onde os mundos se cruzam e os demônios se reúnem.
A coisa foi tão longe que, segundo um documentário sensacionalista de TV, os membros da Allman Brothers Band costumavam passar noites bebendo e tocando no cemitério onde Johnson supostamente estava enterrado, e acabaram pegando uma "maldição" que explicaria as mortes trágicas e prematuras de Duane Allman e Berry Oakley.
Músicas como Got My Mojo Working (famosa na voz de Muddy Waters) ou o clássico absoluto de Screamin' Jay Hawkins, I Put a Spell on You, trouxeram o vodu e a feitiçaria diretamente para a espinha dorsal do rock.
E a obsessão do rock por sexo e drogas? Isso também espelha uma tradição sagrada deturpada. O sexo e os intoxicantes, se usados dentro de contextos rituais específicos, são ferramentas conhecidas para atingir o êxtase ou o poder mágico. Só que no Extremo Oriente (como no Tantra e na seita Aghori da Índia), nas culturas xamânicas ou na própria Santeria, isso exige anos de preparação espiritual e disciplina rigorosa. O perigo para quem não tá preparado é a loucura ou a morte. No Ocidente moderno, a gente substituiu esse preparo por um documento de identidade falso, o contato de um traficante e um preservativo. O resultado colateral dessa facilidade todo mundo conhece.
O Tabu do Corpo: Castração, Abstinência e Poder
Qualquer pessoa que já foi a um show de rock completamente sóbria conhece a sensação assustadora de poder que emana de uma multidão em transe. O controle dessa massa quase sempre passa pela energia sexual.
Líderes de seitas destrutivas, como Jim Jones, dormiam com suas seguidoras (e seguidores) não apenas por prazer carnal, mas como uma ferramenta psicológica de dominação e quebra de identidade. Até dentro do movimento Hare Krishna (ISKCON) ocidental, nos anos 1980, houve escândalos pesados de gurus que abusaram de suas posições para exercer controle sexual e financeiro sobre os devotos — embora a organização tenha feito uma limpa profunda nas últimas décadas para que essa corrupção não se repetisse.
E quem não se lembra do bizarro culto Heaven's Gate nos anos 1990? O líder, Marshall Applewhite, atormentado pela culpa e pelo medo da sua própria homossexualidade, convenceu vários membros do grupo a se castrarem voluntariamente antes do suicídio coletivo.
O pior é que essa perversão mutiladora tem precedentes históricos respeitados: Orígenes, um dos maiores teólogos e fundadores da Igreja Cristã primitiva, se castrou na juventude para se livrar das tentações da carne.
A Voz dos Anjos e o Sangre dos Bruxos
Na música europeia, a castração era uma prática institucionalizada. Meninos com vozes brilhantes eram castrados antes da puberdade para manter a pureza aguda de seus tons nos coros da Igreja (os famosos castrati), embora isso fosse feito muito mais por uma estética cruel do que por misticismo real. Se eles tivessem o controle de falsete de um Frankie Valli, teriam poupado muita dor.
Essa violência mística também aparece em vertentes pagãs e orientais:
Alex Sanders: O homem que se auto-intitulava o "Rei das Bruxas" na Inglaterra afirmava que a castração ritual fazia parte da alta bruxaria (ele dizia ter escapado do processo apenas com o escroto cortado).
Os pombos de Shiva: Na Índia, certos ascetas realizam cirurgias radicais até hoje para eliminar completamente o desejo sexual, canalizando essa força para cima.
Os Hijras (ou Harridans): Um grupo místico e marginalizado na Índia que viaja de vila em vila. Eles buscam crianças nascidas com deformidades genitais ou tendências hermafroditas e as reivindicam para a comunidade. Vestidos com roupas femininas, eles têm a reputação de serem magos poderosíssimos. Os pais raramente recusam entregar um filho por medo de uma maldição terrível. Eles eliminam qualquer vestígio de masculinidade no jovem e passam a vida prevendo o futuro e vendendo remédios mágicos.
A energia criativa do universo — que na Terra se manifesta como sexo — é pesada demais para o ser humano comum carregar. É por isso que tantas seitas exigem a abstinência total. Quando você segura essa energia e não a gasta no sexo comum, ela se acumula e pode ser transmutada para os objetivos do grupo ou canalizada para disparar estados alterados de consciência.
O Transe Coletivo: Do Culto Evangélico ao Palco de Rock
Se você for a uma reunião evangélica fervorosa — ou melhor, àquelas igrejas do interior dos Estados Unidos que praticam o manuseio de serpentes venenosas baseadas em leituras literais da Bíblia —, você vai ver exatamente o mesmo transe, os mesmos gritos e o mesmo fervor de um show de rock pesado.
A energia que circula num coven de bruxaria moderna, num ritual cabalístico ou numa sessão de Santeria (mesmo sem os polêmicos sacrifícios de animais) é rigorosamente a mesma. Ritmos repetitivos, palmas, cantos e a entrega do ego.
Muitos músicos transitaram entre esses dois mundos com uma facilidade incrível. Nos anos 1970, o pianista Chick Corea migrou para o jazz fusion (começando com o grupo Return to Forever, com Airto Moreira e Flora Purim) no exato momento em que mergulhou de cabeça na Cientologia. Larry Coryell, outro monstro da guitarra, deu à sua banda mais famosa o nome de The Eleventh House (A Décima Primeira Casa), um termo puramente astrológico, logo após deixar a tutela espiritual do místico indiano Sri Chinmoy.
Esse mesmo guru, aliás, parecia um ímã para virtuosos: além de Coryell, John McLaughlin (da Mahavishnu Orchestra) e Carlos Santana foram seus discípulos fervorosos por anos. McLaughlin e Santana mudaram seus nomes, vestiam-se de branco e tocavam solos que pareciam orações em alta velocidade. No jazz, nomes como os tecladistas Larry Young (que virou Khalid Yasin) e Cat Stevens converteram-se ao Islã, enquanto os músicos da vanguarda de Chicago (AACM), como Muhal Richard Abrams, foram buscar inspiração no misticismo africano e no judaísmo esotérico.
O Preço do Êxtase: Sacrifícios e Mártires
Existe um elo inegável entre a grande arte, a espiritualidade e o excesso. Ambos exigem a mesma coisa: a perda da identidade individual e a entrega total a algo maior — seja Deus, o vinho ou o transe. O Reggae (principalmente o Dub), o rock psicodélico e o free jazz geraram músicas extraordinárias que simplesmente não existiriam sem a influência de substâncias que abrem os canais da mente.
Só que essas mesmas substâncias cobram uma conta altíssima. A lista de mortos na estrada do excesso é um obituário de gênios: Charlie Parker, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Keith Moon, Kurt Cobain. Para outros, as drogas não mataram o corpo, mas fritaram a mente e destruíram carreiras brilhantes, como aconteceu com Syd Barrett (do Pink Floyd), Brian Wilson (dos Beach Boys), Peter Green (do Fleetwood Mac) e Skip Spence (do Moby Grape). Em alguns casos, a sobriedade tardia nos deu artistas domesticados que passaram a fazer músicas lamentáveis perto do que faziam no auge do transe, como o Eric Clapton das últimas décadas ou as fases mais comerciais de Lou Reed.
Há também o lado bizarro dos maus tratos a animais. Ozzy Osbourne ficou famoso por morder a cabeça de um morcego no palco (por acidente, segundo ele, achando que era de plástico). Já John Cale (ex-Velvet Underground) sacrificou uma galinha viva no palco nos anos 1970, um ato deliberado que fez a sua própria banda abandonar o show com nojo e que manchou sua reputação para sempre.
Curiosamente, o sacrifício de animais é parte central e respeitada em religiões tradicionais como a Santeria e o Vodu, além de ter sido a base do Judaísmo Bíblico e de seitas antigas do Hinduísmo. O argumento teológico é que o sangue libera uma energia vital acumulada que pode ser usada para fins espirituais. Para a sensibilidade moderna, no entanto, continua sendo algo repelente e desnecessário.
O Caso de Syd Barrett e os Fantasmas de Albert Ayler
O mito em torno de Syd Barrett conta que, antes de pirar de vez, ele tentou se juntar a uma seita de místicos do Oriente Médio que praticava projeção astral e viagens da alma para outros planetas — uma técnica também conhecida em círculos esotéricos da Índia. O grupo barrou a sua entrada por considerá-lo jovem e imaturo demais para lidar com forças tão intensas. Frustrado, Barrett tentou alcançar o mesmo resultado na marra, entupindo-se de LSD dia após dia. O resultado foi um colapso mental do qual ele nunca se recuperou. Syd se sacrificou no altar da sua ambição espiritual e material, virando um dos maiores mártires da mitologia do rock.
Por outro lado, existem histórias belíssimas de redenção e renascimento espiritual, como a de John Coltrane nos anos 1960. Depois de quase morrer pelo vício em heroína, Coltrane teve um despertar místico que o limpou por completo. Ele passou o resto da sua curta vida compondo o que chamava de "um novo evangelho".
Discos como Meditation, Interstellar Space (uma suíte de duetos com o baterista Rashied Ali homenageando os planetas) e o clássico absoluto A Love Supreme são monumentos de pura espiritualidade. O som tardio de Coltrane é tão intenso que virou a pedra fundamental para toda a cena de free jazz pesado que surgiria na Europa logo depois.
Seus discípulos tentaram carregar a tocha. Sua esposa, Alice Coltrane, e o saxofonista Pharoah Sanders criaram obras primas como Universal Consciousness, mas acabaram empurrados para a obscuridade comercial no fim dos anos 1970. Pior destino teve Albert Ayler, outro gigante do jazz espiritual cujas músicas tinham títulos como Witches and Devils (Bruxas e Demônios) e Ghosts (Fantasmas). Ayler operava num nível de virtuosismo extático inacreditável. Quem acha que ele só soprava notas sem sentido não prestou atenção em Ghosts (do disco Love Cry), onde ele entra e sai da melodia usando os silêncios como um contraponto espiritual. Em 1970, o corpo de Ayler foi encontrado boiando no East River, em Nova York, sob circunstâncias bizarras que nunca foram totalmente esclarecidas.
Sun Ra, Discos Voadores e o Livro de Urântia
Falar de ocultismo na música sem passar por Sun Ra é um pecado mortal. O tecladista e líder de Big Band insistia que não era deste planeta; ele jurava que tinha sido abduzido por seres de Saturno e que sua missão na Terra era pregar a salvação através do jazz cósmico. E não era jogada de marketing.
Em 1973, durante uma longa conversa que parecia mais uma palestra do músico do que uma entrevista normal, Sun Ra deu um conselho inusitado: ir até a biblioteca da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e procurar por um calhamaço chamado O Livro de Urântia.
O Mistério do Livro de Urântia
Composto em segredo no início do século XX por um grupo de intelectuais de Chicago, o livro teria sido escrito por meio de uma técnica de psicografia ou "canalização" espiritual.
Ele se apresenta como uma história alternativa e detalhada do universo, desde a criação cósmica até a vida de Jesus.
Um dos capítulos menciona que, em eras passadas, a Terra foi povoada por raças de peles coloridas: homens verdes, azuis, laranjas. Sun Ra era fascinado por isso. Ele acreditava que as nossas preferências por cores hoje indicavam a cor da nossa pele em encarnações passadas.
Sun Ra falava abertamente sobre anjos, demônios e OVNIs muito antes de a cultura pop abraçar a ficção científica e a ufologia nos anos 1970. E ele não estava sozinho nessa pira intergaláctica. Albert Ayler também relatou uma visão famosa em que ele e seu irmão foram "eletrocutados" por um disco voador no céu, mas sobreviveram sem nenhum arranhão porque carregavam marcas sagradas invisíveis no corpo.
Esse tipo de relato bate direitinho com certas crenças esotéricas da Índia, que dizem que os OVNIs e os alienígenas não são viajantes de carne e osso de outros planetas, mas sim seres de outras dimensões materiais — as mesmas entidades que no passado eram chamadas de fadas, duendes, vampiros ou fantasmas, sempre prontos para pregar peças na humanidade. Em várias escolas de meditação profunda, os praticantes relatam ver "seres de luz" ou naves quando começam a evoluir espiritualmente, mas os mestres sempre avisam: ignore, são apenas distrações no caminho.
A Explosão Esotérica dos Anos 1960 e 1970
A gente costuma ter a memória muito curta. Achamos que a febre atual pelo esoterismo, cristais e astrologia no Instagram é uma novidade, mas o início dos anos 1970 foi o auge absoluto disso no Ocidente. A explosão da cultura das drogas nos anos 60 abriu a represa para uma busca desesperada por refúgio espiritual.
Os Beatles foram os grandes embaixadores dessa mudança quando viajaram para a Índia para meditar com o Maharishi Mahesh Yogi. A experiência gerou quase todas as músicas do Álbum Branco, além de hinos como The Fool on the Hill (dedicada ao mestre). John Lennon flertou com o movimento, mas se afastou; já George Harrison abraçou a causa e morreu como um membro devoto da ISKCON (os Hare Krishna).
Os Doors também entraram de cabeça na Meditação Transcendental (MT), embora Jim Morrison tenha sido iniciado na técnica antes mesmo dos Beatles. Morrison se via como um xamã moderno, um canalizador de espíritos indígenas americanos, mas era apaixonado demais pelo perigo e pela autodestruição para conseguir voltar do limite da sua visão.
Os Beach Boys também buscaram a MT para tentar salvar a mente estraçalhada de Brian Wilson, mas já era tarde. Wilson pirou tanto durante as gravações do lendário e engavetado álbum Smile que mandou queimar as fitas da faixa Fire porque estava convencido de que a energia da sua música tinha causado uma série de incêndios reais nas colinas de Topanga Canyon.
Até o pop perfeito dos The Rascals rendeu homenagens à meditação na faixa It's Wonderful. Mas ninguém foi mais dedicado a um mestre do que Pete Townshend, o cérebro do The Who. Ele entregou sua vida aos ensinamentos do místico indiano Meher Baba. O hino Baba O'Riley (do disco Who's Next) leva o nome do mestre em sua homenagem, e o primeiro disco solo de Townshend, Who Came First, foi praticamente um panfleto de devoção a ele.
O Rock Progressivo e o Apocalipse de Robert Fripp
Entre 1971 e 1975, o chamado Rock Progressivo atingiu o topo das paradas misturando erudição com puro ocultismo:
Yes: Compôs suítes monumentais e quilométricas (como no álbum Tales from Topographic Oceans) inteiramente baseadas nos textos da Teosofia e nas escrituras hindus.
Todd Rundgren: Seguiu exatamente a mesma trilha esotérica e teosófica em seus discos conceituais logo em seguida.
King Crimson: Sob a liderança do guitarrista Robert Fripp, a encarnação da banda com John Wetton e David Cross mergulhou de cabeça na simbologia da Wicca e do esoterismo europeu.
A história por trás do nascimento da banda francesa Magma é de cair o queixo. O baterista e líder Christian Vander desenvolveu uma linguagem própria do zero, o Kobaian, para cantar as músicas da banda. Segundo o próprio Vander, ele estava tocando free jazz num clube pequeno para uma plateia fria e hostil. Pensando nos seus grandes ídolos que tinham morrido pela música — como John Coltrane —, ele sentiu um ódio profundo e desejou, do fundo da alma, que aquele público morresse ali mesmo. Quando ele abriu a boca para cantar sua raiva, o som que saiu não era francês ou inglês, mas uma língua estranha, gutural e desconhecida.
Esse fenômeno é idêntico à Glossolalia (o falar em línguas), documentado tanto em igrejas pentecostais quanto em rituais tribais ao redor do mundo quando o indivíduo entra em estado de possessão.
O clima da metade dos anos 70 era puro suco de paranoia apocalíptica. Quando Robert Fripp dissolveu o King Crimson em 1975, a desculpa oficial que ele deu na imprensa foi que o mundo passaria por desastres humanitários e sociais catastróficos nos próximos 25 anos, e que ficar rodando o mundo liderando uma banda de rock parecia uma futilidade sem tamanho.
Mais tarde ele suavizou o discurso, focando no conceito de "pequenas unidades móveis e inteligentes de música" (ideia que influenciou muito o trabalho de Peter Gabriel e Brian Eno), mas o medo do fim do mundo foi o estopim real. E dava para entender: a crise do petróleo, a inflação e o desemprego em massa estavam assustando a Europa. O sentimento de desgraça iminente era real, alimentado pela ressaca do consumo excessivo de cocaína, heroína e ácidos da década anterior.
Do Heavy Metal ao Homem Mais Mau do Mundo
Quando o Punk e a Disco Music surgiram no fim da década de 1970, o mundo parecia convencido de que tudo ia de mal a pior. Foi o cenário perfeito para que novos gurus preenchessem o vazio existencial deixado pelo fim da era paz e amor. Foi também nessa época que o som pesado descobriu o poder de assustar as pessoas usando a estética do oculto.
Em cidades industriais cinzentas da Inglaterra e no interior conservador dos Estados Unidos, garotos com amplificadores Marshall no talo e guitarras com distorções pesadas perceberam o óbvio: aquele som grave e arrastado causava medo. Eles pegaram a fórmula básica do Cream, do The Who e do Hendrix, desaceleraram o ritmo, pesaram a mão e pronto: o Heavy Metal de temática satânica tinha nascido.
O Sangue da Viúva Negra
O verdadeiro pioneiro dessa estética não foi o Black Sabbath, mas uma banda inglesa obscura do fim dos anos 1960 chamada Black Widow. Eles andavam colados com o já citado bruxo Alex Sanders e transformaram seus shows em rituais de missa negra no palco, terminando com o sacrifício teatral de uma mulher nua sobre um altar.
O grupo só não virou um fenômeno global porque a gravadora deles na época decidiu investir todo o dinheiro de divulgação na dupla pop fofinha Simon & Garfunkel. Azar da bruxaria.
Depois deles, veio uma enxurrada de bandas que entenderam o apelo comercial do terror: The Crazy World of Arthur Brown (o verdadeiro mestre do visual performático com fogo na cabeça e maquiagem), Atomic Rooster, Black Sabbath, Alice Cooper e, mais tarde, o Kiss. Mas sejamos realistas: a maior parte disso era apenas um grande teatro baseado nos filmes de terror de Hollywood e dos estúdios Hammer. Era entretenimento de choque, divertido e lucrativo, mas com muito pouco envolvimento real com o ocultismo prático.
O mesmo não se pode dizer dos Rolling Stones em sua fase áurea. Entre 1968 e 1971, a banda mergulhou fundo no submundo esotérico de Londres. Álbuns com títulos como Their Satanic Majesties Request e músicas como Dancing With Mr. D e, claro, Sympathy for the Devil, não nasceram do nada.
O envolvimento real dos Stones se deu através da amizade com o cineasta underground Kenneth Anger, autor do polêmico livro Hollywood Babylon. Anger era um satanista assumido da vertente Luciferiana e um discípulo fervoroso das ideias de Aleister Crowley. Os Stones ajudaram a financiar e fizeram trilhas sonoras para os filmes experimentais de Anger — obras perturbadoras, bizarras e completamente incoerentes que pareciam o pintor Salvador Dalí num dia muito ruim. O namoro dos Stones com o diabo durou pouco, mas a marca ficou para sempre. Eles eram os bad boys oficiais; o público esperava exatamente isso deles.
O Enigma de Aleister Crowley e as Escadas do Led Zeppelin
Se os Stones só brincaram com o fogo, o guitarrista do Led Zeppelin, Jimmy Page, comprou a fábrica de fósforos. Page era fascinado pelo misticismo oriental e pela figura de Aleister Crowley, uma obsessão que ditou os rumos da maior banda de rock dos anos 1970.
Para entender o tamanho da encrenca, precisamos entender quem foi Crowley. Nascido em uma família cristã fundamentalista e dona de uma grande cervejaria na Inglaterra, Crowley herdou uma fortuna gigantesca na juventude e gastou cada centavo com rituais, viagens e drogas. Ele fez parte da Golden Dawn (Ordem Hermética da Aurora Dourada), uma sociedade secreta de ocultistas da virada do século XX que reunia mentes brilhantes da literatura, como o poeta W. B. Yeats. Crowley era tão genial quanto arrogante; ele tentou dar um golpe para assumir o controle do grupo, causou uma série de brigas internas violentas e acabou expulso, fundando sua própria ordem mágica.
Crowley passou o resto da vida se envolvendo com magia sexual, rituais esotéricos de alta magia, uso abusivo de ópio e heroína e episódios de possessão demoníaca. Ele ganhou as manchetes dos jornais britânicos com o título de "o homem mais mau do mundo". Embora tenha morrido falido e viciado em 1947, sua contribuição para o que hoje chamamos de movimento New Age e ocultismo moderno foi gigantesca. Ele foi o autor (e às vezes escritor fantasma) de tratados astrológicos famosos e ajudou a moldar o renascimento da Wicca na Inglaterra pelas mãos de Gerald Gardner.
O secretário pessoal de Crowley, Israel Regardie, resumiu a ópera perfeitamente: "Crowley era um gênio absoluto com o desenvolvimento emocional de uma criança de dez anos." Convenhamos, é a descrição perfeita para 90% dos astros de rock que a gente conhece.
A Mansão Boleskine e a Maldição do Zeppelin
Jimmy Page levou sua obsessão ao extremo: ele comprou a Mansão Boleskine, a antiga casa de Crowley às margens do Lago Ness, na Escócia, onde o ocultista realizava seus rituais mais pesados. Page também mandou gravar símbolos esotéricos e rúnicos tirados de grimórios antigos na contracapa e no encarte do álbum Led Zeppelin IV.
O maior clássico da banda, Stairway to Heaven, nasceu sob essa névoa mística. A música foi elogiada publicamente pelo próprio Kenneth Anger como uma das obras de arte mais "luciferianas" já criadas — e na boca de um luciferiano como Anger, isso era o maior elogio possível, já que para eles, Lúcifer não é o capeta dos cristãos, mas sim o portador da luz, da verdade e da beleza artística.
A parceria de Page com Anger, no entanto, azedou antes que o guitarrista conseguisse terminar a trilha sonora para o filme Lucifer Rising. Até hoje, correm boatos nos bastidores do rock de que os próprios membros do Led Zeppelin atribuíam a sequência de tragédias que destruiu a banda — como a morte do filho do vocalista Robert Plant e o sufocamento trágico do baterista John Bonham em sua própria fumaça de álcool — à "maldição" que Page teria atraído ao mexer com as forças ocultas do legado de Crowley.
Mito ou verdade, a realidade factual permanece imóvel: a música nunca foi apenas uma onda sonora batendo no seu tímpano. Ela é o próprio invisível em ação, moldando a história, derrubando impérios mentais e abrindo as cortinas de um mundo que a gente teima em fingir que não existe.
A história da música mostra que o invisível e o som são indissociáveis. Qual dessas conexões entre o esoterismo e os seus artistas favoritos chamou mais a sua atenção?