Fatos Desconhecidos

O truque sujo da "industrialização brasileira"

O truque sujo da "industrialização brasileira"

O Brasil acabou de aumentar o imposto de mais de 1000 produtos — e a indústria que deveria proteger simplesmente não existe. Você já parou pra pensar por que um simples controle de videogame custa o olho da cara no Brasil? Pois senta que lá vem história. Fevereiro de 2026 mal começou e o governo já conseguiu algo impressionante: aumentar o imposto de mais de mil produtos, especialmente eletrônicos, numa canetada só.

Smartphones, freezers, painéis de LED, robôs industriais, até aparelho de tomografia — tudo mais caro. A justificativa? Proteger a indústria nacional. O problema? Essa indústria, meus amigos, é mais miragem que realidade. Vamos combinar: proteger o que não existe é dose. É tipo colocar cerca em volta de um terreno vazio e falar que tá defendendo a fazenda. Mas antes de a gente descer a lenha, vamos entender o que diabos tá acontecendo.

A tal da indústria nacional: será que ela existe?

Quando o governo aumenta imposto de importação, o argumento oficial é sempre o mesmo: "preservar empregos", "estimular a produção local", "garantir a competitividade da indústria brasileira". Bonito no papel, né? O Ministério da Fazenda soltou até uma nota técnica dizendo que as importações tão ameaçando "colapsar elos da cadeia produtiva". Mas vamos pegar um exemplo concreto. Imagine um controle de computador ou videogame. Sabe aqueles controles da Positivo, da Multilaser, que você encontra em qualquer loja? Pois bem. Pra "defender a indústria nacional", esse produto tem que pagar uma porrada de imposto — em alguns casos, alíquotas que chegam a 20%, fora outros tributos . A pergunta que não quer calar: quem no Brasil fabrica um controle desses? Não estou falando de montar. Estou falando de fabricar de verdade. Pegar o plástico, injetar no molde, produzir o chip aqui dentro, os botões, a placa-mãe, tudo nacional. Alguém faz isso? A resposta curta: não. A resposta longa é mais triste ainda.

"Industrialização" brasileira: o truque da embalagem

Sabe o que acontece na prática? Empresas compram tudo pronto da China. TUDO. O plástico vem de lá, os componentes eletrônicos vêm de lá, os botões vêm de lá. Aí chega aqui no Brasil, alguém abre o contêiner, pega as peças, monta igual Lego e — pronto! — ganha o selo de "produto industrializado no Brasil". Não, não é invenção. Tem empresa que literalmente só coloca um folder dentro da caixa, passa um plastiquinho por fora e considera isso "processo industrial". E ganha isenção fiscal por fazer esse serviço. É ou não é pra rir? Ou chorar?

Pega o caso dos processadores. Sabe um Intel Core i9 Extreme? Pois então. Esse produto é considerado "industrializado no Brasil". Só que o processo de industrialização consiste em: receber a caixa do processador já pronta, colocar um folheto explicativo em português dentro, fechar e envelopar. Tcharã! "Nacional". O custo desse processador? Mais de 7 mil reais. E tem mais de 10 anos de mercado. Alguém aqui acha razoável pagar 7 mil reais num processador antigo só porque enfiaram um panfleto dentro da caixa aqui no Brasil?

O que significa "fabricar" de verdade?

Quando a gente pensa em indústria, vem à cabeça uma fábrica com esteira, operário, máquina barulhenta, fumaça saindo da chaminé, gente soldando componente, injetando plástico, testando produto. Sabe, aquela coisa que faz país desenvolvido ser desenvolvido. No Brasil, "industrialização" virou sinônimo de "logística reversa com benefício fiscal". O produto chega pronto do exterior, ganha um número novo de certificado de origem (às vezes só uma plaquinha nova na caixa) e pronto: está "fabricado aqui".

Não estou dizendo que não existe exceção. Claro que existe. A Vedamotors, por exemplo, tem uma fábrica em Santa Catarina que realmente produz componentes eletrônicos para motos, com máquina pick-and-place, forno de refusão, solda automática, teste de qualidade . Mas adivinha? Eles são minoria absoluta. E mesmo assim, dependem de componentes importados porque simplesmente não existe indústria local de chips, de displays, de semicondutores.

Segundo o Ministério da Fazenda, as importações de bens de capital e eletrônicos somaram US$ 75,1 bilhões em 2025, com crescimento de 33,4% desde 2022 . E sabem de onde vem a maior parte? Estados Unidos (34,7%) e China (21,1%) . Ou seja: a gente importa, paga caro, e ainda paga imposto pra "proteger" uma indústria que não entrega o produto final.

A dança das cadeiras: empresas indo embora

E tem mais. Desde o início do terceiro mandato do atual governo, mais de 1000 empresas já fecharam as portas ou simplesmente meteram o pé do Brasil. E não são só lojinhas de bairro não. São indústrias, empresas de médio e grande porte. Pra onde elas tão indo? Paraguai, principalmente. Lá a energia custa menos da metade do preço daqui. E energia, pra indústria, não é detalhe — é o coração do negócio. Agora imagina o cenário: o governo aumenta imposto de importação pra forçar a produção local, mas ao mesmo tempo a conta de luz vai disparar em 2026. Segundo projeções de consultorias e bancos, a tarifa residencial pode subir entre 5,1% e 7,95% este ano, podendo chegar a 12% num cenário mais crítico . E pasmem: os subsídios embutidos na conta de luz devem atingir R$ 47,8 bilhões em 2026 .

Traduzindo: a indústria paga energia cara, paga imposto alto, enfrenta burocracia, e ainda concorre com produto importado que, mesmo com tarifa, às vezes sai mais barato. O resultado? Fecha as portas. Ou vai pra outro lugar.

O paradoxo da proteção

Aí você me pergunta: mas o governo não diz que tá protegendo a indústria? Diz. E é verdade que existem mecanismos como o Processo Produtivo Básico (PPB) e a Lei da Informática que dão incentivos fiscais pra quem produz localmente . O problema é que "produzir localmente" virou sinônimo de "montar kit importado". A Enterplak, empresa brasileira de placas eletrônicas, lista vantagens da produção nacional: redução de impostos na matéria-prima, qualidade superior, assistência técnica imediata, inovação contínua . Tudo lindo. Mas isso funciona quando a empresa realmente fabrica. Quando ela só monta, a inovação é zero, a tecnologia continua lá fora, e o Brasil vira apenas um ponto de passagem com etiqueta de "feito aqui".

O pior? A conta sobra pro consumidor. Os R$ 14 bilhões que o governo espera arrecadar com esse aumento de impostos vão sair do seu bolso, direta ou indiretamente . Quando a indústria paga mais caro pra importar máquina, ela repassa pro preço final. Quando o eletrônico chega na loja com imposto nas alturas, você paga.

Onde está a indústria de verdade?

O Brasil tem 213 milhões de habitantes. É um país continental, com universidades boas, engenheiros competentes, recursos naturais. E mesmo assim, quantas empresas realmente fabricam componentes eletrônicos complexos aqui? Meia dúzia, quando muito. Existem esforços isolados. A Embrapii, por exemplo, tem investido em inovação industrial, com mais de R$ 6 bilhões aplicados em projetos e apoio a mais de 2.200 empresas . Tem iniciativa pra Indústria 4.0, pra automação, pra inteligência artificial. Mas isso ainda é exceção. A regra é importar e montar.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) diz que 69% das indústrias brasileiras usam pelo menos uma tecnologia digital . Legal. Mas tecnologia digital não é o mesmo que capacidade de fabricar um semicondutor do zero. A gente avançou em automação, mas continua dependente de insumos básicos lá de fora.

O papo furado do "produto nacional"

Sabe o que mais me irrita nessa história? O discurso. Porque é muito bonito falar em "fortalecer a cadeia produtiva", "garantir resiliência tecnológica", "proteger empregos brasileiros". Soa bem, convence desavisado, enche página de jornal. Mas aí você vai ver o que é "fabricação nacional" de um processador: colocar papel dentro da caixa. Você vai ver o que é "indústria brasileira de controle": importar tudo da China e montar aqui. Você vai ver o que é "proteção do mercado interno": aumentar imposto pra todo mundo, inclusive pra indústria que precisa importar máquina pra produzir. No fundo, é um jogo de faz de conta. O governo finge que protege, a indústria finge que produz, e o consumidor paga a conta fingindo que não tá vendo.

E a verdade nua e crua?

A verdade é que o Brasil não tem, na prática, uma indústria eletrônica de base. Não fabricamos chips, não produzimos displays, não temos parque fabril pra componentes complexos. O que temos são linhas de montagem, muitas vezes automatizadas, mas que dependem 100% de insumos estrangeiros. E proteger isso com imposto é o mesmo que colocar guarita na porta de um terreno baldio. Não tem o que proteger. Enquanto isso, as empresas que realmente poderiam gerar tecnologia e emprego de qualidade estão indo embora, atraídas por custo menor de energia, menos burocracia, mais previsibilidade. O aumento de imposto anunciado em janeiro de 2026 não vai trazer indústria nova. Não vai gerar inovação. Não vai baratear produto. Vai, isso sim, encarecer a vida de quem precisa comprar um freezer, um celular, uma máquina industrial. E vai dar uma força pro caixa do governo, claro — R$ 14 bilhões não é troco de picolé .

Pra onde vamos?

Olhando pro cenário, fica difícil ter otimismo. A conta de luz subindo, imposto aumentando, indústria saindo, produto ficando mais caro. O Brasil continua sendo um dos países mais fechados do mundo pra comércio internacional, com tarifas altas que não estimulam competitividade — só protegem ineficiência. A saída? Não é simples. Passa por reforma tributária de verdade, por investimento pesado em ciência e tecnologia, por política industrial que não seja apenas sinônimo de subsídio pra montadora. Passa por aceitar que não dá pra fabricar tudo, mas que o que a gente fabricar tem que ser bom. E passa, principalmente, por parar de fingir que colocar panfleto na caixa é industrialização. Porque enquanto a gente continuar nessa novela, o resultado é um só: brasileiro pagando caro em produto meia-boca, achando que tá comprando coisa nacional. Quando na verdade tá comprando importado com embalagem brasileira — e imposto de sobra.