O país que mais tributa e menos devolve — de novo

O país que mais tributa e menos devolve — de novo

O Brasil Cobra Imposto de País Rico e Entrega Serviço de País Pobre — e Isso Não É Coincidência. Imagina você trabalhar cinco meses do ano inteiro e não ver um centavo disso na sua mão. Cinco meses. Cento e quarenta e nove dias. É exatamente isso que acontece com todo brasileiro toda vez que o calendário vira. Em 2025, o contribuinte brasileiro teve que trabalhar até o dia 29 de maio apenas para quitar tributos — são 149 dias do ano dedicados exclusivamente ao pagamento de impostos, taxas e contribuições exigidas pelos governos federal, estaduais e municipais.

Aí você vai ao posto de saúde e espera seis horas. Coloca o filho numa escola pública que não tem merenda decente. Pega um ônibus que atrasa uma hora na chuva. E se pergunta: pra onde foi tudo isso que eu paguei? A resposta, infelizmente, não é nenhuma surpresa — mas ainda assim dói quando você vê em números.
O Ranking da Vergonha: 14 Anos Seguidos no Último Lugar

O IBPT, Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação, publica todo ano o IRBES — Índice de Retorno de Bem-Estar à Sociedade. O índice é simples de entender: cruza quanto um país arrecada em impostos com o quanto de qualidade de vida ele devolve à sua população, medido pelo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O resultado é um placar brutal de eficiência estatal. E o Brasil, pode confirmar, sempre perde esse placar.

A 14ª edição do Estudo IRBES, com dados consolidados de 2023 e publicada em maio de 2025, revela que o Brasil continua ocupando a última posição no ranking, ou seja, é o país que menos devolve em bem-estar social o que arrecada em tributos. Última posição. Entre trinta países. Pela décima quarta vez consecutiva. Pra quem ainda não sentiu o peso disso: o estudo começou em 2011. Desde então, o Brasil nunca saiu do último lugar. Não importou qual governo estava no poder. Não importou se a economia estava crescendo ou em recessão. Não importou se era ano de eleição ou de reforma tributária. O Brasil entrou em último e ficou lá, imóvel, como se tivesse raízes fincadas no chão do ranking.

Irlanda lidera o ranking pela sétima vez consecutiva, apesar de uma leve queda no índice, mostrando eficiência na aplicação dos recursos públicos. Suíça, Estados Unidos, Austrália e Israel completam o topo da lista como os países que mais transformam arrecadação em qualidade de vida.

Imposto de Primeiro Mundo, Vida de Terceiro

Aqui mora o paradoxo que mais irrita qualquer brasileiro que para pra pensar: o problema não é que a gente paga pouco imposto. Pelo contrário. O Brasil cobra 34% do PIB em tributos e entrega serviços públicos precários, enquanto a Suíça cobra 28,5% do PIB e entrega uma das melhores qualidades de vida do planeta, ocupando o 2º lugar no retorno. Ou seja: a Suíça cobra menos e entrega muito mais. O Brasil cobra mais e entrega muito menos. Isso não é azar. Isso é escolha — ou, pior ainda, é omissão sistêmica.

O estudo revela que, embora o Brasil tenha uma carga tributária comparável à de países desenvolvidos como França, Alemanha e Reino Unido, seu IDH continua em níveis considerados baixos, evidenciando um desequilíbrio entre arrecadação e retorno social. A conta simplesmente não fecha. E quando uma conta não fecha por 14 anos seguidos, você começa a perguntar se alguém está roubando os centavos do troco.

Spoiler: estão.

O Rombo que Ninguém Quer Calcular Direito

A corrupção no Brasil não é um problema novo. Todo mundo sabe disso. Mas quando você junta os dados tributários com os dados de desvio, o cenário fica ainda mais nauseante. A corrupção é um dos maiores entraves ao desenvolvimento econômico do Brasil, custando ao país entre 2% e 3% do PIB anualmente, o que significa um desperdício de centenas de bilhões de reais que poderiam ser investidos em infraestrutura, educação e saúde. E o pior? Sabe onde a maioria dos esquemas acontece? Nos setores que deveriam ser os mais protegidos. Segundo a Advocacia Geral da União, cerca de 60% a 70% do total de casos de corrupção envolvendo dinheiro público no Brasil se concentram nos setores de saúde, educação e saneamento básico. Ou seja: o dinheiro que sai do seu bolso para pagar pelo hospital e pela escola do seu filho é exatamente o dinheiro que mais some. É quase uma crueldade cirúrgica: atacam justo onde a população mais precisa. Os recursos desviados em Alagoas, por exemplo, em uma operação de 2011, deveriam alimentar crianças nas escolas, mas foram usados para comprar uísque 12 anos e vinhos importados. Não tem como suavizar isso. Não tem metáfora bonita que caiba aqui. É simplesmente o dinheiro da merenda escolar transformado em bebida cara na mesa de algum gestor público.

Quando Você Trabalha Pra Pagar Imposto Que Vai Pro Ralo

Voltando ao dado dos 149 dias trabalhados só pra pagar tributo: isso representa, em termos percentuais, uma carga tributária efetiva sobre os brasileiros de 40,82%, o que representa 149 dias do ano dedicados apenas ao pagamento de tributos. E o mais absurdo é que isso não melhorou com o tempo. Em 1970, eram necessários apenas 76 dias de trabalho para quitar as obrigações fiscais. Em cinco décadas, o esforço tributário praticamente dobrou.

Em cinquenta anos, o Brasil dobrou o quanto cobra da população. E o IDH? Melhorou, sim, mas não na proporção. Enquanto a carga tributária disparou, a qualidade dos serviços públicos avançou em marcha lenta — quando avançou. O fosso entre o que entra e o que volta continua enorme. Os impostos sobre o consumo ainda são os que mais penalizam a população, representando 22,73% da renda, ou seja, 83 dias de trabalho só com ICMS, PIS, COFINS e similares. Isso significa que toda vez que você vai ao mercado comprar arroz, feijão, sabão em pó ou fraldas, uma fatia considerável do preço que você paga vai direto para o governo — não porque o produto é caro, mas porque a tributação o tornou caro. E essa é a tributação mais injusta de todas, porque ela é igual pro rico e pro pobre. Quem ganha salário mínimo paga o mesmo percentual de imposto sobre o leite que o milionário. Isso tem nome: regressividade tributária. E ela aprofunda a desigualdade silenciosamente, todo dia, em todo supermercado do país.

O Que os Países Que Chegam na Frente Fazem de Diferente

Não é magia. Não é sorte geográfica. Não é falta de problema social. A Irlanda, por exemplo, não é um país sem desafios — tem histórico de conflitos, emigração massiva, crise imobiliária séria. Mas ela lidera o ranking do IRBES pela sétima vez porque decidiu que o dinheiro público precisa funcionar. Os Estados Unidos cobram menos imposto que o Brasil proporcionalmente ao PIB e ainda assim têm universidades públicas de ponta, infraestrutura de transporte funcional e índice de desenvolvimento humano muito superior.

A melhora de Israel no ranking, por exemplo, se deu por conta de avanços concretos nos índices do país: em 2022, Israel tinha uma carga tributária de 32,90% do PIB, que caiu para 29,70% em 2023, enquanto o IDH avançou de 0,915 para 0,927. Israel reduziu imposto e melhorou qualidade de vida ao mesmo tempo. O Brasil faz o caminho inverso: aumenta imposto e o IDH patina. E o que dói ainda mais quando você olha pro mapa é que o Brasil perde até de vizinhos. O país fica atrás inclusive do Chile que, por ter uma carga tributária bem mais baixa, nem faz parte deste ranking específico, o que só reforça a perversidade da situação: o Chile cobra menos, tem IDH melhor e ainda assim não entra no grupo dos trinta maiores tributadores. O Brasil cobra como se fosse Escandinávia e entrega como se fosse outra coisa.

A Equação Impossível: Arrecada Muito, Gasta Mal, Devolve Pouco

Existe um terceiro elemento nessa história que vai além da corrupção. Mesmo quando o dinheiro não é roubado, ele pode ser desperdiçado com uma eficiência impressionante. Os gastos primários da União chegaram a 19,3% do PIB em 2023, crescimento expressivo desde 1997, quando representavam 14,1%. O Estado brasileiro cresceu, ficou mais caro, contratou mais, pagou mais — e entregou proporcionalmente menos. É o paradoxo do elefante burocrático: quanto mais ele cresce, mais lento fica.

Segundo a OCDE, a satisfação do brasileiro com o sistema de saúde é de apenas 45%, enquanto a média dos países desenvolvidos é de 68%. Isso quer dizer que mais da metade dos brasileiros está insatisfeita com o serviço de saúde que recebe — o mesmo serviço que teoricamente é financiado pelos impostos que eles pagam. É como pagar uma academia de ginástica cara, não poder usar a maioria dos aparelhos e ainda ter que esperar na fila pro que sobrar.

O Que Está em Jogo (Além do Dinheiro)

Tudo isso não é só uma questão de finanças públicas. É uma questão de confiança. Quando o Estado cobra muito e entrega pouco, ele manda uma mensagem implícita pra toda a sociedade: as regras valem para você, mas não para quem as faz. O trabalhador que tem o imposto descontado na fonte todo mês não tem escolha. Mas o gestor que decide onde esse dinheiro vai, muitas vezes, tem todas as escolhas.

João Eloi Olenike, presidente-executivo do IBPT e autor do estudo, é direto na análise: "Desde a primeira edição do estudo, o Brasil tem se mantido em 30º lugar. Isso demonstra que o valor arrecadado com tributos continua sendo mal aplicado no país." E completa com uma frase que deveria estar escrita na entrada de todo ministério: "Só com menos desvios e mais recursos destinados à educação, saúde, habitação, saneamento, pesquisa e segurança, poderemos corrigir essa rota e oferecer um retorno real para os contribuintes brasileiros."
Parece óbvio, né? É tão óbvio que dói não ver acontecer.

A Reforma Tributária Resolve?

Tem muita esperança depositada na Reforma Tributária, regulamentada pela Lei Complementar 214/2025, que promete simplificar o sistema com a criação do IVA Dual — o CBS federal e o IBS estadual e municipal — além do Imposto Seletivo. A ideia é reduzir a complexidade absurda do sistema brasileiro, que hoje exige que empresas gastem centenas de horas por ano só para cumprir obrigações fiscais. Mas é preciso ser honesto: simplificar o sistema não é o mesmo que torná-lo justo ou eficiente. Se o dinheiro continua sendo mal gasto depois de arrecadado, a reforma não muda o resultado final do IRBES. A questão não é como se cobra — é o que se faz depois de cobrar. Um caixa automático mais moderno não resolve o problema se o gerente do banco continua desviando o dinheiro dos clientes. A reforma pode ser um passo necessário, mas está longe de ser suficiente.

O Paradoxo que Não Envergonha Mais Ninguém

O mais perturbador de tudo isso talvez não seja o dado em si, mas a naturalização dele. Depois de quatorze anos no último lugar, o Brasil virou um caso de estudo em ineficiência crônica que não provoca mais escândalo. A notícia saiu, alguns veículos publicaram, especialistas comentaram, políticos ignoraram e a vida seguiu. Amanhã tem outra crise, outro escândalo, outro assunto que vai engolir esse.

E o brasileiro vai continuar trabalhando cinco meses do ano para pagar imposto. Vai continuar esperando horas no pronto-socorro. Vai continuar colocando o filho numa escola sem estrutura. Vai continuar pegando estrada esburacada. Vai continuar pagando conta de luz com encargos e impostos embutidos. E vai continuar não associando tudo isso ao mesmo problema: um Estado que arrecada como potência e governa como se não tivesse responsabilidade com o resultado.

O estudo ressalta que, apesar de o Brasil ter uma carga tributária comparável à de países desenvolvidos como Reino Unido, França e Alemanha, o desenvolvimento humano no país ainda é muito precário. Essa frase, dita assim com calma técnica, esconde uma indignação que deveria ser coletiva. Porque não estamos falando de algo abstrato. Estamos falando da fila do hospital. Do filho que não aprendeu a ler direito. Da estrada que mata porque não tem manutenção. Do saneamento básico que não chegou ainda em comunidades inteiras em 2025. É dinheiro público. É dinheiro que saiu do bolso de cada trabalhador desse país. E o Brasil, pela décima quarta vez seguida, prova que não sabe — ou não quer — devolvê-lo da forma que a população merece.