Idade, Saúde, Artes Marciais e um pouco de Ciência

    artesaude120/04/2020 - Envelhecer é um processo inevitável, mas existe um razoável esforço da ciência para lidar com o processo e, possivelmente, torná-lo mais lento. A prática de artes marciais por pessoas de quarenta anos ou mais está entre elas. Dentre os efeitos inevitáveis da idade no cérebro estão: perda de memória de curto-prazo, redução de capacidade muscular (incluindo a cardiorespiratória) e redução de velocidade no processamento cerebral.

    O processo de envelhecimento é complexo e muda de acordo com a pessoa. Alguns permanecem como eram quando jovens enquanto outros demonstram um certo declínio. Tais diferenças seriam causadas por diferentes níveis de saúde, com um grande impacto do estilo de vida. Porém memórias já internalizadas, como se lembrar como nadar ou falar parecem ser menos afetadas pelo envelhecimento. Ao mesmo tempo seria possível compensar essa perda de capacidade, o que os neurologistas chamam de plasticidade cerebral. Algo especialmente importante para quem é mais velho e pensa em começar algo.

    É algo aceito na comunidade científica que a prática de atividades físicas em geral reduz o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares e neurodegenerativas. Ela não apenas aumenta seu tempo de vida como melhora sua qualidade. Pessoas mais velhas que tem estilos de vida mais ativos e praticam atividades regulares geralmente tem memória e habilidades de aprendizagem melhores do que pessoas sedentárias da mesma idade.

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    Os estudos afirmam que atividades que envolvem coordenação motora e exercícios aeróbicos, algo básico na maioria das artes marciais, são as mais efetivas para combater os efeitos do envelhecimento. Essa combinação demonstra ser mais efetiva do que exercícios simples, especialmente no aspecto cerebral. Outras atividades que oferecem ganhos próximos seriam dança e, por incrível que pareça, video games com exercício físico, os exergames. A prática contextualizada parece fazer a diferença.

    O Medical News Buletin publicou um ótimo artigo mostrando um pouco sobre a prática de artes marciais como forma de lidar com a idade. O site Evolve MMA também é otimista ao considerar que artes marciais podem ser algo próximo a uma fonte da juventude. A prática, além de tornar as pessoas mais saudáveis, também atrasa o processo de envelhecimento. Dentre esses o meu preferido foi o de Paul Zehr na Psychology Today, por melhor apresentar referências, quase uma revisão de literatura. Uma das razões para eu gostar tanto do site.

    Os Estudos

    Estudos usando neuroimagem indicam que, em pessoas mais velhas, a prática de artes marciais melhora a velocidade de reação, raciocínio espacial e visão periférica, melhorando a capacidade de perceber objetos se movendo rápido. Uma revisão de literatura sobre neurologia pedagógica sugere uma impacto positivo da prática de capoeira.

    Outro estudo comparou pessoas que treinam karate ou judo e pessoas sedentárias da mesma idade. Os que treinam mostraram mais habilidade para observar detalhes em objetos em movimento e, como outros estudos, melhor visão periférica. Um estudo neurológico taiwanes observou que Praticantes de Tai Chi demonstraram melhor maior ativação do córtex-pré frontal do cérebro e maior habilidade para analisar figuras complexas do que sedentários da mesma idade.

    Outro, da Universidade Otto-von-Guericke publicado em 2016 observou que 5 meses de karatê praticado duas vezes por semana em sessões de 60 minutos melhorou a capacidade fazer de tarefas múltiplas e andar entre homens e mulheres com idade de 62 a 86 anos. Essa capacidade pode parecer usual mas é preciso considerar que quedas são um risco para idosos e melhorar essa capacidade pode significar um ganho de longevidade.

    Uma vantagem cognitiva é que o aprendizado de uma arte marcial muito variado. E um bom aprendizado é essencialmente um desequilíbrio cognitivo controlado, a novidade mantém o cérebro atento. Assim, sempre existe uma coisa nova para aprender. Para um praticante dedicado é uma nova experiência a cada aula, o que também exercita a capacidade cerebral e física. Outro ganho é o da socialização dentro das aulas: um ambiente de treino saudável funciona como uma comunidade de aprendizado conjunto. A simples mudança de parceiro de treino ou mesmo uma sessão de sparring, um treino de luta com semi-contato, já oferecem novas e estimulantes situações de aprendizagem. O que também rende um ganho de autoconfiança para o praticante, sem contar que esse fator somado à socialização reduz o risco de depressão.

    Qual a melhor arte?

    Essa pergunta tem uma resposta bem pessoal, cada um vai ter uma solução diferente. Dentre as várias opções estão Muay Thai, Jiu-Jitsu, Aikido, Karate, Judô. Minha preferência seria para as lutas com menos impacto, com manipulação de articulações, como o Jiu-Jitsu, Aikido, Suai Jiao, Systema russo e Judô. Eu também recomendo as artes armadas filipinas como o Arnis Kali, ou a japonesa Kobudo. O uso de armas brancas compensa a questão da força muscular e os ganhos de reflexo, autoconfiança e coordenação motora são similares. Inclusive, as vantagens do Arnis para os idosos são semelhantes às vantagens para mulheres. Como esse tipo de treino costuma a usar proteções, como luvas, capacetes e armas de sparring, o risco de dano físico é reduzido.

    O principal é encontrar um professor que se adeque às características de alguém mais velho. Alguém mais focado em performance ou que não esteja atento as peculiaridades de cada aluno pode ser um risco de lesões. Professores mais velhos podem ter essa percepção ou mesmo aqueles que tenham experiência em massagem, fisioterapia ou medicina. O professor-curandeiro é meu estereótipo preferido. Assim, é importante que alguns praticantes mais velhos considerem 5+1 recomendações para praticantes com mais de 40 anos.

     

    5 Dicas (+1) para Novatos em Artes Marciais com mais de 40 anos

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    04/05/2017 - Encontrei um artigo do blog The Stick Chick que descreve bem os prazeres a agruras de praticar artes marciais na meia idade, com algumas dicas úteis. Não em termos técnicos, mas especialmente sobre como deve ser a atitude de quem está começando. E Jackie Bradbury, a autora, pode falar com propriedade do assunto já que começou a treinar aos 39 anos, é faixa preta de segundo grau e professora de Arnis Moderno no Texas. As 5 primeiras dicas são dela e a última é minha, as imagens são do artigo dela.

    1. Saiba lidar com os desafios físicos

    Geralmente cursos de artes marciais são planejadas considerando adolescentes ou adultos jovens (vinte e poucos anos), especialmente a parte de capacidade física. Provavelmente você vai sentir que não pode, ou não deve, reduzir a carga. Como, por exemplo, fazer menos repetições por exercício. Afinal, ninguém quer parecer incapaz ou menos esforçados que os mais novos.

    Porém, a verdade é: você já não é mais um jovem e se exigir como se ainda fosse aumenta desnecessariamente o risco de ferimentos (como agravante veja a dica 2). E a atividade escolhida já tem chances de ferimento o suficiente para você não precisar forçar a barra.

    Flexibilidade é um bom exemplo. Têm gente que nasceu flexível e consegue colocar encostar o pé na cabeça ou no teto sem problemas. Porém, para a maioria dos mortais, isso é algo que leva tempo para ser desenvolvido e é rapidamente perdido se o aluno parar. Portanto não se pode considerar o coleguinha de 20 anos que pratica desde os 6 anos de idade como um termo de comparação justo.

    2. Demora mais para se curar

    Em qualquer atividade física existe o risco de lesões. Porém, quando você fica mais velho, aquelas pequenas coisas que antes seriam resolvidas com um pouco de gelo e uma noite de descanso passam a demandar um tempo de cura bem maior. Assim, o hematoma ou dolorido que some após dois dias num adolescente pode durar mais de uma semana em um quarentão.

    3. Aceite gente (bem) mais jovem te ensinando

    Isso é algo que algumas pessoas podem considerar incomum ou mesmo incômodo: ter pessoas bem mais jovens em posição de autoridade. A solução: supere, aceite e acostume-se. Se a academia é boa o instrutor-com-idade-para-ser-seu-filho tem uns bons anos de experiência no assunto em questão e têm competência para te corrigir e instruir. Eventualmente, ele pode ser muito experiente tecnicamente mas nem tanto como instrutor. Didática é algo que melhora com a experiência. Nesse caso, seja um bom aluno, aceite seu instrutor (com a mesma deferência que teria por um instrutor mais velho) e trabalhe com ele para entender os exercícios e as posições corretamente. Isso vai ajudar ele a entender suas necessidades e melhorar sua didática, ensinar é uma via de mão dupla. Existe uma diferença clara entre questionamento produtivo e não confiar na competência do instrutor. Portanto, não seja um velho mala e trabalhe de forma construtiva. A outra vantagem é que isso também diminui o risco de ferimentos causados por exercícios feitos de forma errada. Em determinadas posições uma diferença de alguns milímetros ou graus é o que separa um exercício saudável de algo que vai causar dano cedo ou tarde.

    4. Você não está liberado da necessidade de praticar

    Na verdade, muito pelo contrário. Acredito que gente mais velha precisa praticar ainda mais para acompanhar os mais novos. Como disse James Garr, um comentarista, é preciso aceitar seus diferenças. Além da vantagem física, gente mais nova costuma a aprender mais rápido. Assim, é preciso aceitar que alguém mais velho vai ter de se esforçar mais. Encare o processo como uma maratona e não como 100 metros rasos. Os resultados podem demorar mais um pouco comparando com os alunos mais novos, mas eles virão e valem a pena.

    Claro que a falta de tempo é agravada pelos afazeres típicos da vida adulta: filhos, trabalho e outros compromissos já deixam a vida cheia o suficiente. Ainda assim, é importante arranjar algum tempo, por menor que seja, para praticar um pouco, mesmo que sejam apenas movimentos básicos. E, por mais tentador que seja, falte apenas quando necessário. Tudo bem que você não vai perder nada que não possa ser reposto em outro aula, mas é uma oportunidade de prática a menos numa agenda que já é naturalmente apertada. Lembre-se que correr uma maratona é mais uma questão de ritmo e constância do que de velocidade.

    Nesse aspecto volto a um outro conselho da Jackie. Não deixe de treinar se você se machucar levemente, mesmo que seja para pegar leve. Afinal, se a cura total leva mais tempo, continuar treinando vai fazer com que não se perca o ritmo.

    5. Não se preocupe com o que os outros vão pensar

    Nesse aspecto a Jackie comenta sobre as próprias dúvidas. Como é ser a pessoa mais velha numa classe de gente bem mais nova. O que outras pessoas pensariam do seu hobby? Achariam esquisito uma adulta ganhando hematomas como diversão, a essa altura do campeonato?

    Creio que essas dúvidas dela já ficaram para trás. Como ela mesmo diz jornada essa jornada é pessoal e cada um têm sua trajetória. Se você descobriu artes marciais só após os 40 é assim que vai ser. Mesmo que você seja uma minoria na academia, muita gente também começou tarde e não se arrependeu. Você pode ser incomum, mas não é estranho e não está sozinho. Convenhamos, o que importa a opinião dos outros? Vai te fazer bem, te deixar mais saudável e é divertido. Isso já é motivo o suficiente.

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    Pessoalmente, eu creio que tive sorte nesse ponto. Não sou o cara mais velho da minha turma, mas estou longe de ser o mais novo. Meu Guro na Magka-Isa tem mais de 65 anos e trata todo mundo igual, independente da idade. Eu já treinei, lutei, ganhei, perdi, aprendi e ensinei várias pessoas por lá, seja gente nova demais para tirar carteira ou de gente bem mais velha. Por exemplo, aprendi muito com uma simpática senhora de 61 anos, dona de uma segurança inspiradora. Tanto no que estava disposta a fazer quanto no que não estava. De vez em quando treino com um senhor de uns 69 anos e se eu estiver com 80% da disposição e força dele quando chegar a essa idade já vou estar para lá de satisfeito.

    +1. Os incomodados que se retirem

    Essa é minha dica e considero até uma vantagem em não ser mais tão jovem: a de não sentir necessidade de me testar ou provar algo para alguém. Se você se sentir incomodado com algo ou que a experiência de treinar não está sendo boa, a melhor solução pode ser procurar outro lugar. Sinta-se livre para usar essa opção.

    A melhor arte marcial é aquela que funciona para você. Até distância da academia e horário de aula são fatores a serem considerados. Ainda mais com o tempo apertado da vida adulta. A solução é muito pessoal e vai envolver, entre outras, variáveis como: o professor, a turma e o estilo que se adequar melhor às suas necessidades e limitações. Bruce Lee em seu Tao do Jeet Kune Do dizia que é o estilo que deve ser adaptado ao corpo e não o contrário. O que é especialmente interessante quando nossa capacidade física está começando a diminuir como efeito da idade. E em termos de lidar com limitações, certas artes, como o Arnis Kali, podem apresentar casos inspiradores.

    Portanto, se a primeira opção não for a melhor não há nenhum problema em se tentar de novo. Inclusive, é comum que as pessoas pratiquem várias artes diferentes ao longo da vida.

    Fonte: https://teclogos.wordpress.com/

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