Mequinho: 3º do mundo no xadrez e esquecido pelo próprio país

Mequinho: 3º do mundo no xadrez e esquecido pelo próprio país

Mequinho: o gênio brasileiro que fez o mundo tremer no tabuleiro — e que o Brasil insiste em esquecer. Imagina só: um garoto do interior do Rio Grande do Sul, filho de bancário, sentado sozinho do outro lado do tabuleiro, encarando os melhores cérebros que a União Soviética já produziu. Sem federação forte, sem apoio de governo, sem patrocínio bilionário, sem nada. Só ele, a cabeça e trinta e duas peças.

E, ainda assim, esse moleque chegou a ser o terceiro melhor jogador de xadrez do planeta inteiro. Não é personagem de filme. É a vida de Henrique Costa Mecking, o Mequinho, e se você nunca ouviu falar dele direito, calma — você não está sozinho, e essa é justamente a parte mais revoltante dessa história.

Enquanto Santos Dumont voa alto nos livros escolares e Machado de Assis estampa capa de vestibular, Mequinho segue como aquele nome que o brasileiro médio ouve, franze a testa e pensa "ah, sim, o cara do xadrez, não é?". Pois é. O cara do xadrez que, nos anos 70, fez tremerem nomes como Korchnoi, Karpov, Tal e Petrosian. O cara que jogou de igual para igual com o próprio Bobby Fischer. Sozinho. Representando um país que mal sabia que tinha um gênio em casa.

Um moleque que via fantasmas no tabuleiro

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A história começa em Santa Cruz do Sul, no dia 23 de janeiro de 1952. Henrique nasceu numa família de origem alemã, filho de um funcionário do Banco do Brasil, e ainda bebê já estava se mudando para São Lourenço do Sul, no litoral sul gaúcho. Foi lá, e depois em Pelotas, que a mãe dele, Maria José, cometeu o que hoje parece ter sido um dos atos mais decisivos da história do esporte brasileiro: deu um tabuleiro de xadrez para o filho de cinco anos e ensinou como as peças se moviam.

Bola, carrinho, brinquedo comum? Isso não era bem a praia do Henrique. Antes mesmo de aprender a ler direito, o menino já surpreendia adulto em cima do tabuleiro. Aos seis anos, praticamente ninguém no clube de xadrez de Pelotas conseguia vencê-lo. E não estamos falando de um clube cheio de amadores de fim de semana — eram jogadores adultos, com anos de prática, apanhando de uma criança que mal tinha idade para entrar no cinema sozinha.

O talento cresceu rápido demais para o tamanho do garoto. Aos 13 anos, no fim de 1965, ele já tinha o título de campeão brasileiro absoluto no bolso. Pensa nisso com calma: enquanto a maioria dos adolescentes brasileiros estava preocupada com prova de matemática, Mequinho já dava xeque-mate nos melhores adultos do país inteiro.

Aos 19 anos, ele virou lenda — e o Brasil nem percebeu direito

O passo seguinte foi ainda mais impressionante. Em 1967, com apenas 15 anos, Mecking se tornou o mais jovem jogador da história a conquistar um campeonato continental, o Sul-Americano daquele ano, e de quebra virou um dos Mestres Internacionais mais jovens que o xadrez mundial já tinha visto. E olha que estamos falando de uma época em que essa modalidade praticamente não existia no radar esportivo brasileiro — aqui o assunto era futebol, e só.

Cinco anos depois veio o title que selou seu nome na história. No dia 13 de janeiro de 1972, faltando dez dias para completar 20 anos, Henrique Mecking conquistou em Hastings, na Inglaterra, o título de Grande Mestre Internacional. O mais alto grau que um enxadrista pode alcançar. E o primeiro brasileiro — o primeiro sul-americano, na real — a chegar lá. Quando ele desembarcou de volta no Brasil, a bateria da escola de samba Mangueira estava esperando no aeroporto para recebê-lo. Não tem como não sorrir pensando nessa cena: um físico gaúcho recém-saído da faculdade de Física da UFRGS sendo recebido a tambor pela mais tradicional escola de samba do Rio.

Os anos 70: o auge, contra os monstros soviéticos

Foi na década de 70 que Mequinho virou, de fato, um fenômeno mundial. Ele venceu o Interzonal de Petrópolis em 1973 de forma invicta, batendo nomes gigantes como Paul Keres e David Bronstein, e repetiu a dose em 1976 no Interzonal de Manila. Disputou por duas vezes o cobiçado Torneio de Candidatos — a fase que decide quem vai desafiar o campeão mundial — caindo nas quartas de final tanto para Korchnoi quanto, depois, para Polugaevsky. Chegar tão perto do topo do xadrez mundial, sozinho, representando um país sem tradição nenhuma na modalidade, era coisa de outro planeta.

E não parou por aí. Mequinho encarou frente a frente alguns dos maiores nomes que o jogo já produziu: bateu Mikhail Tal, um dos gênios mais criativos da história do tabuleiro, em Las Palmas. Venceu Vassily Smyslov, ex-campeão mundial. Empatou com Bobby Fischer, o americano que revolucionou o xadrez e que, até hoje, é comparado ao próprio Mequinho por causa da precocidade dos dois. Foi atleta do Flamengo — sim, o clube de futebol carioca também tinha departamento de xadrez, e Mecking tem até hoje seu nome gravado na Calçada da Fama do Flamengo. Desfilou em carro aberto pelas ruas, virou capa de revista, foi parar no programa do Chacrinha. Naquele momento, ele era, sem exagero, um dos brasileiros mais conhecidos internacionalmente.

O ponto mais alto veio em janeiro de 1977, quando alcançou a marca de 2.635 pontos no ranking Elo da FIDE, a federação internacional de xadrez. Em 1978, ele consolidou a posição de terceiro melhor jogador do mundo, atrás apenas de dois gigantes: o campeão mundial da época, o soviético Anatoly Karpov, e o vice-líder do ranking, Viktor Korchnoi, justamente o carrasco que o havia eliminado do Torneio de Candidatos anos antes. Terceiro do mundo. Sozinho. Sem verba pública, sem federação estruturada, sem qualquer tipo de suporte que os russos tinham em escala industrial na época — porque para a União Soviética, xadrez era questão de orgulho nacional, e para o Brasil, era um esporte de nicho que ninguém entendia direito.

O dia em que os médicos disseram que ele ia morrer

E foi bem naquele ano de glória, 1978, que a vida de Mequinho virou de cabeça para baixo. Sintomas estranhos começaram a aparecer: cansaço fora do normal, fraqueza muscular, dificuldade até de mastigar e escovar os dentes. O diagnóstico veio like um soco: miastenia gravis, uma doença autoimune grave que ataca a comunicação entre nervos e músculos. Em 1979, no Interzonal do Rio de Janeiro — disputado, ironicamente, em casa —, Mecking teve que abandonar a competição logo depois da primeira rodada, um empate contra Borislav Ivkov. O corpo simplesmente não aguentava mais.

E aqui vem a parte que ninguém maquia: a doença era tão severa que, na época, boa parte da comunidade médica e enxadrística acreditava que ele fosse morrer. Não é força de expressão. Existem relatos de que, no auge da crise, Mequinho não tinha nem força para se alimentar sozinho. Enquanto isso, nos bastidores do próprio meio enxadrístico, teve gente cruel o suficiente para insinuar que a doença era desculpa, que ele estava com medo de encarar os grandes nomes do circuito depois de tropeços nos Candidatos. Um comentário raso, covarde e, cravado nos registros médicos da época, completamente falso — miastenia gravis é uma doença real, documentada, physicamente incapacitante, e não dá pra fingir esse tipo de degradação motora por mais de dez anos. Porque foi isso que aconteceu: Mequinho ficou fora dos tabuleiros durante praticamente toda a década de 1980. Uma década inteira. No momento em que qualquer atleta de elite está no auge da carreira, ele estava lutando, literalmente, pela própria vida.

Da beira da morte de volta ao topo: a volta que ninguém apostava

Foi nesse período mais sombrio que Mecking encontrou refúgio na fé. Ele se aproximou da Renovação Carismática Católica, chegou a considerar seguir o caminho do sacerdócio (decidiu depois que não era bem aquilo), se formou em teologia e filosofia, e credita à espiritualidade a melhora progressiva do quadro de saúde. Ele mesmo relatou essa trajetória no livro "Como Jesus Cristo Salvou a Minha Vida", publicado originalmente em 1981.

E então, contra praticamente todo prognóstico, ele voltou. Em 1991, depois de mais de uma década longe da competição, Mecking retornou aos tabuleiros em partidas contra o iugoslavo Predrag Nikolić e, no ano seguinte, contra o americano Yasser Seirawan — nomes de altíssimo nível internacional. E o mais impressionante: jogou bem. Muito bem, considerando tudo que o corpo dele tinha passado. Não era mais o menino prodígio que assombrava o circuito nos anos 70, claro, aquela janela de oportunidade para o título mundial já tinha se fechado de vez. Mas a essência do jogador continuava lá, intacta, afiada, teimosa.

Ele foi ficando cada vez mais ativo ao longo dos anos 2000. Em 2005, ficou em segundo lugar no Torneio Zonal 2.4 da FIDE. Em 2006, venceu de forma invicta o torneio aberto de Lodi, na Itália. Em 2008, conquistou o primeiro Campeonato Brasileiro por Internet, batendo o também Grande Mestre Rafael Leitão numa decisão por tie-break. Entre 2009 e 2013, chegou a representar oficialmente a cidade de São Bernardo do Campo em competições regionais e estaduais, e em 2010 ajudou a equipe da cidade a ser campeã dos Jogos Abertos do Interior. Passou também a disputar torneios open pelo Brasil afora, inclusive edições do Caraça Chess Open em Minas Gerais, enfrentando geração após geração de novos talentos do xadrez nacional.

Por que o Brasil esqueceu o próprio gênio?

Essa é a pergunta que dói. Porque a história de Mecking tem tudo que costuma virar mito nacional: superação, genialidade precoce, quase morte, resiliência através da fé, volta triunfal. Só que, diferente de Santos Dumont ou Machado de Assis, Mequinho nunca ganhou um lugar cativo nos livros didáticos, nunca virou nome de rua em toda esquina, nunca se tornou assunto obrigatório de redação de vestibular.

Parte da explicação é simples e um tanto injusta: xadrez nunca foi — e talvez nunca seja — esporte de massa no Brasil. O país que respira futebol simplesmente não desenvolveu o hábito de acompanhar tabuleiro. E tem também o fator institucional: durante o auge de Mecking, o Brasil vivia sob regime militar, e o apoio do governo ao xadrez de alto rendimento foi, para dizer o mínimo, irrisório. Enquanto a máquina soviética formava campeões em escala industrial, com bolsa, estrutura, equipe de preparadores e análise, Mequinho corria atrás de patrocínio avulso, treinava sozinho, viajava com o mínimo de estrutura possível e ainda assim conseguia chegar ao pódio dos melhores do mundo. Dá pra imaginar o que teria sido essa carreira com um mínimo de apoio institucional decente?

O jornalista Uirá Machado, da Folha de S.Paulo, resolveu escavar essa história inteira durante a pandemia, quando descobriu, meio por acaso, que um brasileiro tinha rivalizado nos tabuleiros com gente do calibre de Garry Kasparov. O resultado foi a biografia "Entre Bispos e Reis: A Trajetória de Mequinho, um Gênio Brasileiro do Xadrez", lançada em 2026, fruto de mais de cem entrevistas e milhares de reportagens consultadas. Um livro necessário — e, de certa forma, uma correção histórica tardia para um país que deixou seu maior enxadrista de todos os tempos praticamente invisível no imaginário popular.

Hoje, décadas depois, ainda é referência

Mequinho mora há quase quarenta anos em Taubaté, no interior paulista, uma cidade de pouco mais de 300 mil habitantes. Segue com rotina disciplinada: corrida, alimentação controlada, estudo constante de xadrez, vida de fé intensa. Nunca mais chegou perto do topo absoluto do ranking mundial — aquela janela histórica pertence de fato aos anos 70 —, mas segue competitivo o suficiente para deixar boa parte da nova geração de enxadristas em maus lençóis nas partidas simultâneas que costuma disputar Brasil afora, um recorde que já soma mais de quatro décadas de invencibilidade nesse formato específico.

E entre quem acompanha de perto o circuito sênior mundial de xadrez, o nome de Mecking segue sendo tratado com um respeito que beira a reverência: muitos especialistas e apaixonados pelo jogo consideram Mequinho, ainda hoje, o melhor jogador em atividade entre os enxadristas acima dos 70 anos de idade no planeta. Não como um troféu empoeirado guardado numa prateleira, mas como um cara que, mesmo depois de quase morrer, mesmo depois de perder uma década inteira de carreira para uma doença gravíssima, continua sentando à mesa e fazendo estrago.

Curiosidades que quase ninguém conhece sobre o Mequinho

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Tem detalhe curioso sobrando na trajetória desse cara. Ele foi citado nominalmente numa canção do cantor e compositor baiano Raul Seixas, que usou o nome de Mecking como exemplo do brasileiro genial que o próprio país insiste em não reconhecer — praticamente uma profecia sobre o esquecimento que viria décadas depois. Ele tem nome cravado na Calçada da Fama do Clube de Regatas do Flamengo, ao lado de ídolos do futebol, coisa rara para alguém que nunca chutou uma bola profissionalmente. Circulam por aí números de QI atribuídos a ele em torno de 180 pontos — patamar de gênio raro —, embora esse tipo de medição informal precise sempre ser encarado com uma pitada generosa de ceticismo, já que não existe fonte científica oficial e verificável para esse número específico.

Tem ainda o detalhe do ex-campeão mundial Tigran Petrosian, que chegou a fazer comentários ácidos sobre o entendimento posicional de Mecking depois de vencê-lo três vezes seguidas no início da carreira dele — crítica que, décadas depois, soa mais como reconhecimento tardio do adversário difícil que Mequinho se tornaria do que como demérito real. E tem o detalhe mais bonito de todos: quando ele voltou ao Brasil com o título de Grande Mestre em 1972, uma bateria inteira de escola de samba foi recebê-lo no aeroporto, como se ele fosse um herói de guerra. Foi, à sua maneira, exatamente isso. Mequinho representou o Brasil em quatro Olimpíadas de xadrez ao longo da carreira — 1968, 1974, 2002 e 2004 —, um intervalo de mais de três décadas entre a primeira e a última participação, o que por si só já resume bem a extensão dessa trajetória fora do comum.

O legado que o Brasil ainda deve a esse gênio

No fim das contas, a história de Henrique Mecking não é só sobre xadrez. É sobre um país que teve, em suas mãos, um dos maiores talentos que já produziu em qualquer esporte da mente, e não soube — ou não quis — dar a estrutura que ele merecia. É sobre superar uma doença que os próprios médicos acreditavam ser fatal e, ainda assim, voltar a competir contra os melhores do mundo. É sobre um gaúcho de Santa Cruz do Sul que, sozinho, sem exército de preparadores, sem verba pública robusta, chegou ao terceiro lugar do ranking mundial numa época dominada pela máquina soviética de xadrez.

Da próxima vez que alguém perguntar quem foram os maiores gênios que o Brasil já produziu, vale lembrar que a resposta não se resume a quem construiu avião ou quem escreveu romance. Tem um cara, ainda vivo, ainda jogando, morando tranquilo em Taubaté, que fez o mundo inteiro parar para prestar atenção num tabuleiro de 64 casas — e que, décadas depois, segue esperando o reconhecimento que, convenhamos, já devia ter chegado há muito tempo.