De canibalismo a ratos: A grande fome de Mao, o "Holomodor" chinês

    holocor225/01/2020 - Uma série de políticas públicas equivocadas resultou na morte de 45 milhões de chineses — casos de canibalismo e execuções por descumprimento das determinações comunistas eram frequentemente relatados. O Holodomor foi um dos maiores crimes cometidos pela gestão stalinista na antiga União Soviética. Estima-se que, entre 1932 e 1933, 3.9 milhões de pessoas morreram de fome. Entretanto, o que poucos sabem, é que um paralelo desse caso aconteceu na China de Mao Tse Tung, vitimando mais de 45 milhões de chineses.

    Entre 1958 e 1962, o líder do Partido Comunista Chinês implementou um programa de aceleração do crescimento no país. O plano, que parecia ser excelente, ao menos no papel, prometia levar a China a sobrepujar, economicamente, qualquer nação do Ocidente em até 15 anos. Entretanto, na prática, o projeto foi uma catástrofe de dimensões continentais. O programa, que falava em igualdade e justiça social, causou o óbito de um número inestimável de vidas humanas — que não pereceram em virtude de uma Guerra ou de uma catástrofe natural, mas sim de uma péssima sequência equivocada de decisões governamentais.

    Além do mais, qualquer pessoa com pensamentos opostos ao que estava sendo aplicado, era desqualificada sistematicamente. Em casos mais extremos, alguns dos opositores eram presos ou exilados em campos de trabalho forçado. O capítulo, considerado com o mais sombrio da História da República Popular da China, é descrito por Frank Dikötter, professor catedrático na Universidade de Hong Kong, no livro A grande fome de Mao – A história da catástrofe mais devastadora da China, publicado no Brasil pela Editora Record.

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    Dikötter teve acesso aos arquivos do Partido Comunista pouco antes das Olimpíadas de Pequim, em 2008. Segundo o autor, os relatos fazem parte de um catálogo de horrores e incluem casos de canibalismo em aldeias de diferentes regiões do país: como relatos de camponeses que desenterram cadáveres de parentes para a alimentação; ou daqueles que comiam ratos, e até mesmo cascas de árvores e terra. Ao mesmo tempo em que essas barbáries aconteciam no país, o governo vendia, por meio da propaganda oficial, uma imagem de um povo feliz e de uma economia prospera. “A fome tomou dimensões muito além do que se pensava anteriormente”, descreve o autor.

    “Os especialistas estimavam a catástrofe demográfica entre 15 e 30 milhões de mortes. Com as estatísticas compiladas pelo próprio Gabinete de Segurança Pública na época, descobre-se uma calamidade muito maior: pelo menos 45 milhões de mortes prematuras entre 1958 e 1962. Mas não é simplesmente a extensão do número de mortos que conta, mas também como essas pessoas morreram”.

    “Não é que as pessoas morressem de fome porque não havia comida disponível. A comida era, na verdade, usada como uma arma para forçar as pessoas a cumprirem as tarefas atribuídas pelo Partido. E as pessoas que eram consideradas como de direita ou conservadoras, as pessoas que dormiam no serviço, que estavam muito doentes ou enfraquecidas para serem obrigadas a trabalhar se viram sem acesso à cantina e morriam mais rapidamente de fome. Pessoas fracas ou os elementos considerados como inaptos pelo Partido foram, portanto, deliberadamente levados à fome”, explica.

    Dikötter relatou que o Estado do país usou da violência extrema para impor a criação de grandes comunas agrícolas. Lá, homens e mulheres viviam separados e perdiam qualquer direito que tinham de criarem seus filhos. Além do mais, eles também eram proibidos de cozinhar dentro de suas casas. Os camponeses eram forçados a se privarem de comer e se viram obrigados a falsificar os números de tudo o que produziam — já que eles deviam ceder ao Estado todos os grãos que colhiam.

    O autor aponta que por acreditarem cegamente em Mao Tsé Tung e no Partido Comunista chinês, a população passou por uma espécie de lavagem cerebral intensa e sistemática. “Tudo foi coletivizado”, diz. “Muito rapidamente o paraíso utópico provou ser um enorme quartel militar. A coerção e a violência eram as únicas formas de garantir que as pessoas executassem as tarefas que lhes eram ordenadas pelos membros locais do Partido”.

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    No mesmo período da fome, o poder maoísta torturou, matou e executou entre 2 e 3 milhões de pessoas que discordavam das diretrizes do sistema. Aqueles que roubavam um punhado de grãos, ou batatas para se alimentarem, também eram severamente punidos. Em um relato, encontrado nos registros oficiais do PC chinês, é descrito o caso de um homem que foi forçado a enterrar seu filho vivo de 12 anos. O garoto teria saqueado alguns grãos. O pai morreu de desgosto algumas semanas depois.

    Apesar dos diversos casos chocantes, o partido comunista chinês trata o período com certa normalidade. Eles alegam que as mortes ocorreram em virtude das condições ambientas, e também dizem que elas foram a menor escala do que o registrado: apenas 15 milhões de pessoas. Eles tratam essa fase como “O difícil período de três anos”.

     

    Mao Tsé-Tung: por que ele foi o maior ditador do Oriente

     

    Por Pâmela Carbonari, 09/02/2020 - Deixando de lado os posicionamentos muito radicais, ainda dá para estimar que Mao matou tanta gente quanto Gêngis Khan: 40 milhões de pessoas. Ditador da República Popular da China entre 1949 e 1976, Mao Tsé-Tung foi um rolo compressor sobre seu próprio povo. Nos primeiros anos, ninguém se arriscava a criticar o governo. Mas, em 1956, Mao permitiu que os opositores expusessem suas opiniões. Era uma pegadinha. Quem levantasse a voz contra ele ganhava um alvo na cabeça. Foi a chamada Campanha Antidireitista, que enviou, por exemplo, intelectuais para trabalhar em depósitos de minérios radioativos.

    Em 1958, Mao lançou o Grande Salto à Frente, que desejava transformar a China em uma superpotência industrial. Camponeses viraram operários, vilarejos se transformaram em comunas, e todos tinham que aumentar a produção de ferro e aço. Cerca de 90 milhões de pessoas do campo deixaram sua terra para derreter grampos de cabelo e ferramentas de cozinha a fim de atingir a cota de metais. Resultado: a produção de aço dobrou em um ano e a de cereais caiu 25% em dois. Já que ninguém come grampo de cabelo, milhões morreram de fome.

    Naquele ano, a política de Mao provocou distúrbios em Lhasa, capital do Tibete, nação ocupada desde a Guerra Civil Chinesa, em 1950. Como se tratava de um povo antigo, com uma cultura muito forte, os chineses caíram matando no Tibete. De 100 mil monges e monjas, 87 mil foram assassinados, segundo o governo em exílio do Dalai Lama, o líder religioso e político da nação.

    Não bastou o Grande Salto (para o precipício), Mao instituiu a Revolução Cultural. Uma das civilizações mais antigas do mundo, a China estava ameaçada pela loucura de um líder que, ao perder espaço para os moderados, apelou à influência espiritual que ainda tinha sobre parte do povo. Milhares de casas em Pequim foram invadidas. Destruíram manuscritos, instrumentos musicais, quadros. Acabaram com 5 mil dos 7 mil monumentos históricos. Espancaram e torturaram milhares de pessoas que tinham algum sinal confuciano ou ocidental.

    Usa gravata? Motivo para ser espancado até a morte. Em Guangxi, lanchonetes exibiam cadáveres de inimigos do Estado pendurados nos ganchos e serviam a quem quisesse comê-los. Estudantes cozinharam e almoçaram diretores de escola.

    Mao se afastou da vida pública e morreu em 1976. Assim como no caso de Stálin, muita ideologia para poucos dados dificultam cravar um número de mortes que não seja distante do que já se propôs, à direita e à esquerda do espectro ideológico. Uma conta mais ponderada, que leva em conta todas as atrocidades, incluindo os mortos de fome, aponta que Mao exterminou 40 milhões de pessoas. Foi a segunda maior matança de todos os tempos, empatada com Gêngis Khan e atrás apenas da Segunda Guerra, que fulminou 66 milhões de seres humanos.

    No entanto, se levarmos em conta a população da Terra naquele infeliz momento, o evento mais mortal da história foi a pouco conhecida Rebelião de An Lushan. Nascido por volta de 703, próximo de Bucara, a antiga e sofisticada cidade do Uzbequistão destruída por Gêngis 450 anos depois, An Lushan foi um guerreiro brutal que se tornou um líder morbidamente obeso e intempestivo.

    Na rebelião, entre 755 e 763, ele marchou em direção à China, tomou a capital ocidental Luoyang e provocou a fuga do imperador. Foi um período de saques, estupros, pilhagens e decapitações. As estimativas mais conservadoras falam em 13 milhões de mortes. Se fosse no século XX, isso equivaleria a 154 milhões de pessoas (antes que você se pergunte: as 40 milhões de vidas consumidas nas conquistas mongóis do século XIII equivaleriam a 278 milhões de pessoas no século de Mao e Stálin).

    A maior parte desses multicídios contemporâneos se deve a um tipo de violência pragmática e necessária para o grande tirano. Ideologia: ele quer uma para matar. Não que precisasse de uma, afinal desculpa é o que não falta. Das guerras religiosas às opressões comunistas antirreligião, um homem sempre inventa um argumento qualquer para cobrir outro homem de tiro, porrada e bomba. Acredita em Deus e o faz de escudo. Ou não gosta de padre, de madre, de frei, de bispo, de Cristo e não diz “amém” – e mata todo mundo que diz.

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    Este conteúdo foi originalmente publicado no livro 3 mil anos de guerra: como 30 séculos de sangue, suor e bala criaram o mundo em que você vive, do jornalista Felipe Van Deursen.

    Fonte: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/
               https://super.abril.com.br/

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