Dossiê: o perigoso e tentador universo das Smart Drugs

    mardru topo12/10/2018, por Breno França e Otávio Nadaleto - Cada vez mais, pessoas saudáveis fazem uso recreativo de drogas utilizadas em tratamentos para doenças como déficit de atenção para aumentar a produtividade. Em meio a uma crise criativa, o escritor americano Eddie Morra descobriu a solução para sua vida semifracassada. Um pequeno comprimido chamado NZT, assim que ingerido, fazia seu cérebro trabalhar numa velocidade inimaginável. Pensando incrivelmente rápido e com poder de dedução elevadíssimo, Morra ingressou no mercado financeiro, fez sucesso, ganhou status e muito, muito dinheiro. Quem se importaria, nessa situação, com efeitos colaterais como apagões?

    A premissa é base do roteiro do filme Sem Limites (ou Limitless, seu nome original), com Bradley Cooper no papel de Eddie Morra, que acaba de virar uma série produzida pela CBS, lançada no fim de setembro nos Estados Unidos. Se a arte imita a vida, muita gente saudável está fazendo cada vez mais uso de medicamentos vendidos em farmácias para turbinar o cérebro. Prescritos originalmente para doenças como déficit de atenção, hiperatividade, epilepsia e até mal de Alzheimer, os remédios podem não ser tão eficientes quanto o NZT, mas podem melhorar a capacidade cognitiva.

    Ingerir drogas para esse fim não é exatamente algo novo. O psicanalista Sigmund Freud, por exemplo, incentivava o uso de cocaína como estimulante há mais de um século. No Brasil, já se usava anfetaminas para trabalhar desde a década de 1950. Mas agora esse hábito chegou a outro nível. A cultura foi retomada com força, na década de 1990, por estudantes americanos que começaram a ingerir metilfenidato e modafinila, princípios ativos de remédios como Ritalina e Modafinil, para estudar mais atentamente e obter notas melhores. Pouco depois, mais substâncias passaram a ser utilizadas por trabalhadores do Vale do Silício e do mercado financeiro americano.

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    Os números do comércio de medicamentos também mostram o tamanho do crescimento que já tivemos no Brasil. Segundo dados da IMS Health (uma das maiores bases de dados do mundo sobre saúde), o mercado de psicoestimulantes (sendo a Ritalina o principal) cresceu 25% no país entre junho de 2011 e junho de 2015. Mas o impacto poderia ser ainda maior, uma vez que esses dados só levam em conta o mercado legal e, segundo a Organização Mundial da Saúde, 20% dos remédios vendidos no Brasil são falsificados ou contrabandeados.

    Substâncias desse tipo passaram agora, com seu uso por pessoas saudáveis, a ser conhecidas como nootrópicos ou smart drugs. “Do ponto de vista bioquímico, nootrópicos são substâncias distintas entre si. A ideia delas é ativar o sistema nervoso central, mas o fazem de maneiras diferentes”, afirma Gisele Sampaio Silva, gerente-médica do Programa Integrado de Neurologia do Hospital Israelita Albert Einstein. Na origem do conceito, nootrópicos são drogas que não causam efeitos colaterais e tampouco viciam. Porém, a definição sofreu alterações e hoje os critérios estão longe de ser consensuais – algumas pessoas não consideram remédios psicoestimulantes como a Ritalina um nootrópico, por exemplo.

    “O termo ‘vício’ pode ser desmembrado em ‘adição’ e ‘dependência’. A adição é caracterizada pela perda de controle sobre o uso da substância, uso continuado apesar de prejuízo, uso compulsivo e fissura. Dependência é caracterizada por tolerância (necessidade de uso de doses cada vez maiores para ter o mesmo efeito) e abstinência (sintomas colaterais após interrupção do uso). Essas medicações podem causar adição, mas têm risco menor de causar dependência”, explica Fábio Porto, neurologista do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da USP. Além disso, os efeitos positivos mostrados em alguns estudos realizados no exterior podem levar a uma falsa ideia de que essas drogas são milagrosas.

    “Quando os níveis de dopamina e norepinefrina (neurotransmissores, substâncias químicas que atuam nas sinapses entre os neurônios) estão anormalmente baixos nas regiões cerebrais responsáveis pela melhora do desempenho, o aumento dessas substâncias causado pelos remédios melhora os sintomas de pessoas com transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), por exemplo. Porém, o excesso delas causa reação contrária e provoca sintomas semelhantes à própria doença”, afirma Porto.

    Segundo os médicos, outro indicador também pode servir como explicação para as melhorias alcançadas pelas smart drugs. Segundo a IMS Health, a prescrição de remédios para TDAH em pessoas com mais de 20 anos nos Estados Unidos está crescendo numa velocidade maior do que para crianças, o que levanta algumas dúvidas.

    “Os medicamentos funcionam em pessoas doentes porque há um mecanismo de ação. Quem sabe os bons resultados em algumas pessoas não sejam por causa de um diagnóstico que não foi feito quando mais jovem?”, afirma Gisele. “É possível que essas pessoas tenham alguma disfunção leve não diagnosticada em que o uso provoque um resultado melhor. Mas em pessoas com o QI médio entre 90 e 140 é muito difícil medir exatamente quanto há de ganho”, completa Porto. A questão mais complexa, segundo ele, são os efeitos do uso recreativo dessas substâncias em longo prazo, principalmente em adolescentes e adultos jovens, a faixa etária que mais as utiliza para esses fins.

    “Isso porque as smart drugs agem sobre uma parte do cérebro mais recente na evolução humana e que só costuma estar totalmente desenvolvida por volta dos 30 anos de idade. Existem estudos que comprovam, por exemplo, que o metilfenidato atrapalha o crescimento em crianças e adolescentes que precisam do medicamento. Esse é o tipo de coisa que só conseguimos ver em pesquisas extensas. Como essas substâncias não estão aprovadas para o uso recreativo, é difícil fazer estudos em longo prazo e muito populosos. Portanto, fica uma dúvida sobre as reações desses medicamentos depois de cinco ou dez anos de uso”, afirma.

    João Fabiano Lourenço, filósofo e pesquisador da Universidade de Oxford, discorda. “Existem estudos de qualidade mostrando que o aumento do desempenho cognitivo de pessoas saudáveis com o uso de certas drogas é considerável. Não há muitos estudos dos efeitos em longo prazo, mas isso também é verdadeiro sobre qualquer outro remédio comum”, afirma. Ainda segundo ele, a verdadeira discussão não é a respeito do risco que se assume, mas a motivação para o uso desse tipo de substância. Enquanto alguns tomam remédio para voltar ao estágio normal de funcionamento, outros querem tomar para obter um nível acima. Sobre o risco de se ingerir essas substâncias, o pesquisador faz uma comparação com o uso de aspirina para resfriado, em vez de ficar de repouso.

    “As pessoas usam esses medicamentos simplesmente porque não querem ficar um dia sequer de cama ou porque não sabem dos efeitos colaterais. Talvez a principal explicação esteja relacionada a quanto a indústria farmacêutica se dispôs a gastar aprovando a droga para determinado uso. Custa em torno de 1 bilhão de dólares conseguir ter uma droga aprovada pela FDA [órgão americano que regulamenta o comércio de alimentos e medicamentos]”, afirma.

    É ético?

    Um dos usos mais polêmicos das smart drugs diz respeito a provas e circunstâncias nas quais o nível de desempenho é um diferencial. O questionamento que surge é similar ao que existe hoje no esporte profissional: tomar essas substâncias para passar em um concurso disputado ou se destacar no trabalho pode ser considerado doping? Os neurologistas Porto e Gisele concordam que sim: a lógica é a mesma do doping. “Acho que essas medicações deveriam ser proibidas para esse uso por questões éticas”, afirma Porto. Alguns vão mais longe e falam inclusive de um futuro em que, antes das avaliações, seja feito um exame antidoping intelectual.

    “O objetivo de um exame é avaliar se o individuo sabe ou não determinado conteúdo ou se é capaz de raciocinar logicamente. Se ele faz isso com a ajuda de uma droga, me parece irrelevante”, discorda Lourenço. “Mesmo no esporte o uso de melhoramentos já é tão universal que seria mais honesto admiti-lo entre as regras. A tendência é que os testes antidoping desapareçam dos esportes. Introduzi-los em provas e concursos me parece sem sentido.”

    O que parece ser consenso é que, independentemente de se tratar de substâncias controladas ou não, todo medicamento deve ser usado com cautela.

    “Boa parte do risco associado à nicotina, por exemplo, surge do fato de que por muito tempo seu uso na forma do cigarro era inclusive encorajado. A cultura que se constrói ao redor da substância influencia muito. Seria mais razoável chamar também a cafeína e a nicotina de drogas e pregar um uso mais cuidadoso e racional de todas essas substâncias”, conclui Lourenço.

    AS DROGAS DA PERFORMANCE MENTAL

    Os medicamentos mais usados por quem quer turbinar o cérebro, para que foram criados e seus efeitos colaterais.

    Modafinila (princípio ativo do modafinil)

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    É a droga sobre a qual mais se pesquisou os efeitos em pessoas saudáveis – é aprovada no Brasil para uso de alguns profissionais noturnos, como médicos.
    Serve para quê? Narcolepsia e sonolência diurna por apneia do sono.
    Usada por indivíduos saudáveis para: aumentar a atenção e a concentração e facilitar a memória verbal e numérica.
    Efeitos colaterais: aumento de pressão, alteração na função cardíaca, perda de sono e perda de apetite.
    Disponibilidade no Brasil: sob prescrição médica (receita amarela).

    Anfetamina-dextroanfetamina (princípio ativo do Adderall)

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    Tem ação similar à Ritalina, mas mais forte. Aqui, não é muito usado para tratar doenças e, portanto, é de difícil acesso.
    Serve para quê? TDAH.
    Usada por indivíduos saudáveis para: aumentar a atenção e a concentração melhorando a vigília, facilitar a memória de trabalho e o aprendizado.
    Efeitos colaterais: ansiedade, impulsividade, arritmia, insônia, diminuição do nível de crescimento (em pessoas doentes) e tem potencial de abuso.
    Disponibilidade no Brasil: sob prescrição médica (receita amarela).

    Metilfenidato (princípio ativo da Ritalina)

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    Um dos nootrópicos mais consumidos (o uso da Ritalina aumentou 775% no Brasil em 10 anos), é análoga das anfetaminas.
    Serve para quê? Déficit de atenção, hiperatividade e narcolepsia.
    Usada por indivíduos saudáveis para: melhorar a atenção e a concentração deixando a pessoa mais vigilante, facilitar a memória de trabalho e o aprendizado.
    Efeitos colaterais: pressão alta, arritmia, perda de sono e apetite e diminuição do nível de crescimento (em doentes).
    Disponibilidade no Brasil: sob prescrição médica (receita amarela).

    Pirodina-acetanida (princípio ativo do Piracetam)

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    Um dos primeiros nootrópicos sintetizados nos anos 1960. Deu origem ao termo, mas hoje tem similares mais eficientes. Faz parte da família dos racetams (usados no tratamento de doenças neurológicas).
    Serve para quê? Epilepsia e vítimas de AVC.
    Usada por indivíduos saudáveis para: aumento da atenção e da memória de longo prazo e facilidade de aprendizado.
    Efeitos colaterais: causa sonolência e ganho de peso.
    Disponibilidade no Brasil: sob prescrição médica (receita branca/comum).

    Depoimento: Marcelo Morais, usuário de nootrópicos e autor do blog Infinitatis.net

    “Comecei a usar nootrópicos com o objetivo de terminar um projeto longo de um sistema. Depois de assistir ao filme Sem Limites, tinha em mente que se eu procrastinasse menos, tivesse uma capacidade maior de concentração e mais tempo durante o dia, iria conseguir terminar o trabalho bem antes do prazo. Foi aí que descobri essas substâncias. Durante um mês, revirei a internet em busca do que poderia tomar para atingir meu objetivo. Sabendo que não poderia usar drogas como Ritalina durante meses por causa dos efeitos colaterais, montei meu primeiro combo e durante cerca de seis semanas usei Piracetam, Colina, L-Theanina, alta concentração de cafeína, ginseng, guaraná em pó, alpha GPC, 5-HTP, Inositol, ômega 3, ômega 6 e DMAE.

    O resultado? Longos períodos de concentração e motivação para escrever milhares de linhas de código e adiantar muito minhas tarefas. Seis horas de sono por dia eram o bastante e, como conseguia trabalhar sem parar, ainda sobrava tempo para atividades sociais. Ao longo dos meses fui modificando e fazendo ciclos com as substâncias de acordo com minhas necessidades. Consegui terminar o projeto em seis meses antes do prazo final. Recebi muitos elogios e dinheiro extra.”

    Depoimento: Auro Pontes, usuário de nootrópico e agente do mercado financeiro na Europa

    “Meu primeiro contato com smart drugs foi em 2005, com a modafinila. Nessa época, trabalhava ao menos 14 horas por dia e dormia menos de cinco horas por noite – muitas vezes nem dormia. Mas não me sentia cansado, ao contrário: minha produtividade era cada vez maior e o dinheiro compensava qualquer receio de que isso afetasse minha saúde. Durante seis anos, consumi a modafinila com semirregularidade e sem nenhum acompanhamento médico. Em 2011, já morando na Europa, comecei a consultar um psiquiatra especializado em déficit de atenção em adultos. A partir disso, comecei a me medicar com metilfenidato – primeiro com a Ritalina, depois com o Concerta e ultimamente com ambos – e posso dizer que minha vida mudou completamente depois desse passo: as ideias fluíam com clareza e os projetos começaram a ser executados no prazo.

    Daí em diante, os negócios prosperaram como nunca – e com a estabilidade que eu não tinha quando consumia a modafinila de forma irregular. Hoje sou presidente de uma empresa financeira e de uma startup de biotecnologia e ainda sobra tempo para ter vida social e me exercitar com regularidade. Seria muito difícil fazer tudo isso com eficiência sem um boost químico.”

    Depoimento: Jesse Lawler (EUA), programador, diretor de cinema e proprietário do podcast Smart Drug Smarts

    “Eu tomei minha primeira smart drug há uns nove anos e, de uns quatro pra cá, isso se tornou um hobby. Sem contar cafeína, tomo algum tipo de smart drug de cinco a seis dias por semana. Não tomo todo o tipo de drogas, apenas aquelas que sinto que terei a relação correta entre risco e recompensa: baixo risco, alta recompensa, que é basicamente a mesma regra que uso para tomar todas minhas decisões da vida, incluindo o que comer no café da manhã.

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    `Droga’ é uma palavra assustadora para muitas pessoas. Mas o fato é que drogas podem, sim, aumentar a capacidade cognitiva das pessoas, isso não é uma questão em aberto. A questão não é se elas funcionam, mas sim quais são os riscos associados, e isso varia de droga para droga. Nós vivemos em um sistema tecnológico que requer computadores e satélites para as pessoas serem produtivas. Todos parecem ok com essa realidade. Smart drugs são apenas outra forma de tecnologia para potencializar nossa biologia básica. Não acho que é algo que possa ser interrompido, nem que nós quiséssemos.”

     

    Pílula da inteligência: o que o modafinil faz no cérebro realmente te deixa mais esperto?

     

    Por Luis Felipe Silva - Imagine uma pílula capaz de deixar você muito mais inteligente, que aumente seu QI e permita que você aprenda mais e mais rápido. Não, isso não existe ainda. O remédio que é conhecido como “a droga da inteligência” não faz nada disso, ele apenas deixa o sujeito mais desperto e pode aumentar a concentração e eventualmente até o aprendizado, mas a curto prazo. A substância que recebeu este apelido é o modafinil, e seu uso clínico não se relaciona em nada com o tal ganho de inteligência. O remédio foi criado para o tratamento de pacientes que sofrem com narcolepsia, que é doença comumente chamada de “distúrbio do sono” - quando têm tal quadro, as pessoas são acometidas por episódios de sonolência espontâneas, e simplesmente dormem, sem mais nem menos.

    “O modafinil ataca o sono, regula o ciclo de sono-vigília. É indicado exclusivamente para os casos de narcolepsia e tem uma função importante em seu tratamento”, explica o psiquiatra Mario Louzã, especializado em saúde mental. “Há um problema quando há uso inadequado da droga”, contrapõe.

    Pílula da inteligência: o que faz o modafinil?

    A droga foi desenvolvida para interromper os ciclos de sono fora de hora dos pacientes de narcolepsia. A doença não tem seus mecanismos completamente compreendidos pelos cientistas, mas sabe-se que o núcleo de sua ação fica no centro cerebral, que é a região reguladora do sono. E é lá que o modafinil age. O remédio funciona ao atuar sobre neurotransmissores relativos ao estado de alerta e sono> ele aumenta a concentração de dopamina, norepinefrina, acetilcolina e serotonina. Quando todas essas substâncias apresentam quantidades elevadas no cérebro, há diminuição da necessidade do sono e ampliação da capacidade de concentração. É muito comum que haja interferência no estado psicológico, com episódios de excitação mental.

    O que a ciência diz sobre a “droga da inteligência”?

    A maior pesquisa já realizada sobre a substância foi publicada em 2015 no jornal científico European Neuropsychopharmacology. Foram analisados estudos produzidos entre 1990 e 2014 sobre os efeitos da droga, que é aprovada pela agência de saúde norte-americana assim como é pela Anvisa, aqui no Brasil.

    “O modafinil aumenta diretamente os níveis de catecolaminas corticais, aumenta indiretamente os níveis de serotonina cerebral, glutamato, orexina e histamina e diminui indiretamente os níveis cerebrais de ácido gama-amino-butriático”, afirma o texto do artigo em relação a sua ação bioquímica. “Além do seu uso aprovado, tratando a sonolência excessiva, pensa-se que o modafinil é amplamente descartado para o aprimoramento cognitivo”, sentencia, em seguida. O levantamento afirma que aproximadamente metade dos testes demonstrou algum grau de melhoria na atenção, aprendizagem e memória, e parte deles relatam até deficiências para o desenvolvimento do pensamento criativo e crítico. Contudo, nos testes com mais complexidade de informações, constatou-se aprimoramento de atenção e aprendizado consistentes, mas em relação ao uso em curto prazo.

    Efeitos colaterais

    Não há indícios de efeitos colaterais diretos causados pelo remédio. “Importante, não observamos preponderâncias para efeitos colaterais ou mudanças de humor”, afirma o estudo. Por outro lado, há problemas no uso contínuo do remédio quando não recomendado por médicos. Se o modafinil ajuda a regular o sono de quem tem problemas, ele altera o sono de pessoas saudáveis que ingerem a substância por dias seguidos. No limite, a droga da inteligência não só não ajuda a aprender, como atrapalha o rendimento.

    “O remédio tira horário de sono e o indivíduo deveria repor, porque o cérebro precisa de descanso e reorganiza memória e as fixa. A falta do sono prejudica concentração, gera fadiga e sonolência. Nesse sentido, não adianta estudar 24 horas porque o cérebro não terá rendimento adequado”, explica o Mario Louzã. No mais, não é um remédio perigoso. Não há registro de grandes complicações resultantes de seu uso inadequado.

    Efeito placebo

    Ao tomar o remédio, é comum que haja um ganho de confiança imediato. Há dois porquês: um deles é a ação da substância nos neurotransmissores e outro é o próprio efeito placebo - o sujeito realmente acredita que já está mais inteligente. O psiquiatra explica que como o modafinil tira o sono e a sensação de cansaço, quando a pessoa fica mais acordada ela estica seu tempo de estudo, pesquisa ou trabalho. Essa perspectiva de aumento de rendimento dá a sensação de ganho de inteligência.

    O remédio, no máximo, estica seu tempo de desempenho. Se você está em seu 100% de rendimento, ele não aumenta isso, mas permite que fique mais tempo nesse pico”, explica. “Mas até um limite determinado pelo sistema nervoso, se passar disso, começa a atrapalhar”.

    A outra droga da inteligência

    Também muito famosa, a ritalina é bastante usada com foco em aumento de rendimento intelectual e aprendizado. A função deste remédio é o tratamento do TDAH, ou transtorno do déficit de atenção com hiperatividade. Mas sua fama se deu, principalmente, pelo suposto reforço que dá a vestibulandos e "concurseiros". A ritalina também age no sistema nervoso e aumenta, principalmente, a concentração de dopamina no organismo, que é o neurotransmissor relacionado às sensações de prazer. Com a dopamina em alta, a concentração e o rendimento se mantém em pico de desempenho de forma mais prolongada e constante.

    Por outro lado, é mais perigosa que o modafinil. A ritalina é uma substância cujo uso apresenta tendência de vício. Quando o nível de dopamina caí, imediatamente o indivíduo tende a buscar mais e tomar mais doses da droga - o efeito no organismo, em escala bem menor, é verdade, é semelhante ao da cocaína. Além disso, tem efeitos colaterais diretos mais agudos. “De cara, piora o sono e tira o apetite, e ainda pode aumentar a pressão arterial em níveis preocupantes”, explica o psiquiatra.

    Droga da inteligência é doping?

    Em esportes de rendimento oficiais, sim. modafinil e ritalina são duas substâncias proibidas para atletas profissionais, exceto em caso de comprovada patologia cujo tratamento dependa dessas drogas. Comissões de ética já colocaram em debate se as “drogas da inteligência” deveriam ser controladas também concursos e vestibulares. Elas seriam colocadas em uma lista de substâncias proibidas, nos mesmos moldes que as agências internacionais fazem com atletas. Contudo, a dificuldade - ou mesmo impossibilidade - de avaliar todos os concorrentes tornam a ideia impraticável.

    “No esporte, essas drogas já estão na lista. Mas em eventos de desempenho intelectual também são doping. A diferença é que não tem a regra, é uma questão moral individual”, conclui Mario Louzã.

    Recomendação médica

    O modafinil e a ritalina são substâncias que podem ser compradas apenas mediante prescrição e orientação médica. Na Índia, o comércio da droga é liberado, então é possível encontrar sites que comercializem o produto online, mas de maneira ilegal e sem qualquer garantia sobre a pureza e qualidade da substância. Os médicos contraindicam qualquer uso de tais drogas sem orientação especializada.

    Fonte: https://exame.abril.com.br/
               https://www.vix.com/

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