Cavernas do céu no Nepal

    cavr101/04/2016 - As cavernas em penhascos no antigo reino de Mustang revelam seus segredos. O crânio, um crânio humano, está em cima de um penedo desmoronadiço no remoto norte do distrito de Mustang, no Nepal. Pete Athans, chefe de uma equipe interdisciplinar de montanhistas e arqueólogos, ajusta as alças de seu equipamento e se prende a uma corda. Escala o penedo de 6 metros enquanto outro montanhista, Ted Hesser, sustenta a corda fazendo a segurança. Ele se aproxima do crânio, calça luvas azuis de látex para impedir que seu DNA contamine o achado e o remove aos poucos dos detritos.

    Athans é quase certamente a primeira pessoa a segurar esse crânio em 1.500 anos. Terra sai das cavidades oculares. Ele guarda o crânio em um saco vermelho acolchoado e o manda para os três cientistas à espera lá embaixo: Mark Aldenderfer, da Universidade da Califórnia em Merced; Jacqueline Eng, da Western Michigan University; e Mohan Singh Lama, do Departamento de Arqueologia do Nepal.

    Aldenderfer se empolga especialmente com a presença de dois molares. Dentes podem dar pistas sobre a alimentação, a saúde e o local aproximado do nascimento de uma pessoa. Eng, que é bioarqueóloga, logo determina que o crânio provavelmente pertenceu a um homem jovem. Ela nota três fraturas curadas no crânio e uma na mandíbula direita. “Sinais de violência”, ela aventa. “Ou seria um coice de cavalo?”

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    Ainda mais intrigante do que o crânio é o lugar de onde ele caiu. O penedo que Athans escalou fica bem embaixo de um penhasco de rocha parda com veios brancos e rosados. Perto do topo da escarpa há várias cavernas pequenas, laboriosamente escavadas à mão na pedra quebradiça. A erosão causou o desmoronamento parcial da face do penhasco e desalojou o crânio. Agora a mesma questão fermenta na cabeça de todos: se um crânio caiu, o que mais haverá lá em cima?

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    Mustang, um antigo reino no centro-norte do Nepal, abriga um dos grandes mistérios arqueológicos do mundo. A mão humana abriu um extraordinário número de cavernas nesse lugar poeirento e varrido pelo vento, entranhado no Himalaia e profundamente fendido pelo rio Kali Gandaki (comparado a alguns trechos desse desfiladeiro, o Grand Canyon do Arizona parece um mero barranco). Algumas são solitárias: uma boca aberta numa vasta face ondulada de rocha gasta. Outras estão agrupadas, um grande coro de covas, às vezes com oito ou nove andares — um verdadeiro bairro vertical. Algumas foram escavadas na face de um penhasco, outras abertas a partir de um túnel vindo de cima. Muitas têm milhares de anos. O número total de cavernas em Mustang, em estimativa moderada, é 10.000.

    Ninguém sabe quem as escavou. Ou por quê. E nem mesmo como as pessoas subiam até lá. (Cordas? Andaimes? Degraus esculpidos? Quase todos os indícios foram apagados.) Setecentos anos atrás, Mustang era um lugar movimentado: centro de saber e arte budista e, possivelmente, a mais acessível ligação entre as jazidas de sal do Tibete e as cidades do subcontinente indiano. O sal era na época um dos produtos básicos mais valiosos do mundo. No apogeu de Mustang, diz Charles Ramble, antropólogo da Sorbonne em Paris, caravanas atravessavam as trilhas acidentadas da região transportando sal.

    Tempos depois, no século 17, reinos vizinhos passaram a dominar Mustang, diz Ramble. Sobreveio o declínio econômico. A Índia passou a fornecer sal mais barato. As grandes estátuas e as mandalas coloridas dos templos de Mustang começaram a se esfarelar. Logo a região se viu quase esquecida, perdida além das grandes montanhas. Em meados dos anos 1990, arqueólogos da Universidade de Colônia e o Nepal começaram a sondar algumas das cavernas mais acessíveis. Encontraram dezenas de corpos, todos com no mínimo 2.000 anos, alinhados em leitos de madeira e decorados com joias de cobre e contas de vidro, produtos que, por não serem fabricados na região, atestavam a condição de artéria comercial de Mustang.

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    Pete Athans teve seu primeiro vislumbre das cavernas de Mustang quando percorria trilhas nas montanhas em 1981. Muitas das cavernas pareciam inacessíveis — davam a impressão de que era preciso ser pássaro para chegar lá. E esse desafio instigou Athans, um talentoso alpinista que subiu ao cume do Everest sete vezes. Mas só em 2007 ele conseguiu a indispensável autorização. Mustang, diz ele, tornou-se então “a maior expedição da minha vida”. A presente excursão, na primavera de 2011, é sua oitava na área.

    Durante estadas anteriores, Athans e sua equipe fizeram algumas descobertas sensacionais. Em uma caverna, encontraram um mural de 8 metros de comprimento com 42 retratos primorosos de grandes iogues da história budista. Em outra, acharam um tesouro composto de 8.000 manuscritos caligrafados — uma sortida coleção de mais de 600 anos que incluía reflexões filosóficas e um tratado sobre mediação de disputas.

    O que Athans e os cientistas mais queriam era uma caverna com itens anteriores à era dos registros escritos, para esclarecer os principais mistérios: quem viveu primeiro nas cavernas? De onde vieram essas pessoas? Em que acreditavam? A maioria das cavernas que Athans entrevira estava vazia, embora contivesse indícios de habitação doméstica: fogueiras, depósitos de grãos, dormitórios. “Dá para passar a vida toda procurando nas cavernas erradas”, comenta Aldenderfer, em cuja longa carreira de arqueólogo não faltam buscas infrutíferas.

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    A caverna ideal, ele supõe, seria usada como cemitério em vez de habitação, teria vestígios de cerâmica da era pré-budista espalhados lá embaixo, estaria em um penhasco alto demais para ser alcançado por saqueadores e numa parte de Mustang onde o povo da região não se incomodasse com forasteiros perturbando os ossos de seus ancestrais. Tudo isso, e um fator adicional: “Às vezes, é preciso sorte”, admite Aldenderfer.

    O local mais promissor é um complexo de cavernas próximo a Samdzong, um minúsculo vilarejo ao sul da fronteira com a China. Athans e Aldenderfer estiveram em Samdzong em 2010 e encontraram uma rede de cavernas funerárias. No primeiro dia de trabalho no sítio na primavera de 2011, durante uma caminhada de reconhecimento pela base das cavernas, o fotógrafo da equipe, Cory Richards, avista o crânio.

    Na manhã seguinte, os escaladores preparam-se para investigar as cavernas acima do local do crânio encontrado. Os penhascos de Mustang são deslumbrantes. Seus paredões colossais parecem derreter como cera de vela sob o sol alto. O perfil das cristas ganhou contornos singulares com a erosão: dedos ossudos segurando imensas bolas de basquete rochosas, tubos gigantescos enfileirados como um interminável órgão de igreja. A cor da rocha, que vai mudando ao longo do dia, parece abranger todos os tons de vermelho, ocre, marrom e cinza.

    Mas a escalada é terrível. “Um massacre”, diz Athans. “Monótona, deselegante, puro trabalho braçal”, remata. A rocha, frágil como paçoca, esfarela ao toque. É extraordinariamente perigosa. Alguns meses antes, um videógrafo, Lincoln Else, teve a cabeça atingida por uma pedra logo depois de tirar o capacete e fraturou o crânio. Foi submetido a uma cirurgia de emergência em Katmandu e sobreviveu. Em 2010, Richards, escalador e fotógrafo, despencou e quebrou um osso da região lombar. Como Else, ele teve de ser removido de helicóptero de Mustang.

    Para chegar às cavernas de Samdzong, Athans e Hesser, os principais escaladores da equipe, contornam a pé a encosta do outro lado do penhasco até uma área plana acima das cavernas. Ali, com permissão especial das autoridades, cravam na rocha várias barras de aço compridas e prendem uma corda. Athans vai confiar sua vida a essa ancoragem. Há um debate sobre o que fazer se a barra começar a se soltar. Hesser sugere que ele grite um palavrão bem cabeludo.

    “Boa ideia!”, replica Athans. Calmamente, ele desce em rapel da borda do penhasco. Uma chuva de terra e pedras estrala em seu capacete.

    Lá embaixo, em terreno plano, senta-se Aldenderfer, com sua prodigiosa cabeleira prateada presa por uma bandana vermelha — ele diz que não se senta numa cadeira de barbeiro há 20 anos. Aldenderfer segura um pequeno monitor sem fio que recebe dados da videocâmera de Athans; isso permite ao antropólogo dirigir a busca de um lugar seguro.

    Perto, de túnica castanho-avermelhada, está o lama local, Tsewang Tashi, de 72 anos. Sentado de pernas cruzadas, ele acende uma pequena fogueira com gravetos de zimbro e enche um cálice com água sagrada trazida numa velha garrafa plástica de Pepsi. Entoa baixinho um cântico, toca um sino de bronze e molha os dedos na água: uma cerimônia budista de proteção para espantar espíritos turbulentos que possam por em risco o trabalho do grupo.

    Athans, pendurado na corda verde, faz manobras ágeis e penetra na caverna menor. Precisa se curvar para entrar; ela tem menos de 2 metros de altura por cerca de 2 de largura e 2 de profundidade. Essa caverna, fica claro, foi uma tumba vertical oculta, ou caverna mortuária, escavada na forma de uma garrafa de vinho bojuda. Quando foi escavada, só a borda do poço ficava visível. Os corpos eram baixados pelo gargalo do tamanho de um duto de esgoto, e o buraco era enchido com pedras. Quando a face do penhasco desabou, toda a caverna ficou exposta em um corte transversal.

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    Uma rocha grande caiu do teto no chão da caverna. Se houver alguma coisa no local, estará debaixo dessa rocha. Athans, vai empurrando a pedra com a ajuda de alavancas até a entrada da caverna. Por fim, grita: “Rocha!”, e o penedo despenca fragorosamente pelo abismo, levantando uma nuvem de poeira cor de âmbar. Cerca de quinze séculos depois de ter sido selada, como provará mais tarde a datação por carbono, a caverna está novamente limpa de detritos.

    Aldenderfer divide o uso das cavernas em Mustang em três grandes períodos. No primeiro, de talvez 3.000 anos atrás, as cavernas foram câmaras funerárias. No segundo, há cerca de 1.000 anos, foram usadas principalmente como habitações. Alguns séculos mais tarde, o vale de Kali Gandaki — o gargalo da ampulheta que liga os planaltos e planícies da Ásia — pode ter sido alvo de frequentes disputas. “O povo se amedrontou”, diz Aldenderfer. As famílias, preferindo a segurança à conveniência, mudaram-se para as cavernas.

    Finalmente, no século 15, a maioria das pessoas já residia em vilarejos tradicionais. As cavernas continuavam em uso — como locais de meditação, postos de observação militar ou depósitos. Algumas permaneceram como habitação, e até hoje algumas famílias moram nelas. “É mais quente no inverno”, diz Yandu Bista, que nasceu em 1959 numa caverna de Mustang e residiu em uma caverna até 2011. “Mas é difícil levar água lá para cima.”

    A primeira coisa que Athans encontra na câmara do tamanho de um armário — mais tarde batizada de Tumba 5 — é madeira, magnífica madeira de lei escura, cortada em várias tábuas, ripas e cavilhas. Aldenderfer e Singh Lama conseguem montar as peças e obtêm uma caixa com cerca de 1 metro de altura: um ataúde. Foi engenhosamente construído para que as partes passassem através da entrada estreita da tumba e pudessem ser facilmente montadas na câmara principal. “Precursor dos pré-moldados”, diz Eng.

    Pintada na caixa com pigmentos laranja e brancos vê-se uma imagem rudimentar, mas inconfundível: uma pessoa a cavalo. “Provavelmente o cavalo favorito dele”, supõe Aldenderfer. Mais tarde, como que para confirmar o gosto daquele homem por cavalos, um crânio equino é encontrado na caverna.

    Na viagem de 2010 a Samdzong, nas duas cavernas maiores do penhasco a equipe encontrara os restos mortais de 27 indivíduos: homens, mulheres e uma criança. Havia também esquifes rudimentares ou semelhantes a leitos nessas cavernas, porém feitos de madeira muito inferior e de construção bem mais simples, sem pinturas.

    A Tumba 5, teoriza Aldenderfer, teria sido o jazigo de alguém do alto escalão, talvez um líder local. Os exploradores constataram que ela continha dois corpos: um homem adulto e uma criança, talvez de dez anos. Esta deu o que pensar. “Não quero caracterizar a criança como algum tipo de sacrifício ou escravo porque não tenho dados”, diz Aldenderfer. “Mas a presença de uma criança sugere um ritual complexo.”

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    Eng, a perita em ossos do grupo, faz uma descoberta surpreendente quando estuda o achado: os ossos de 76 por cento de todos os indivíduos que ela examina têm inconfundíveis marcas de faca. E claramente foram feitas após a morte, segundo Eng. “Não foram punhaladas desferidas a esmo”, ela diz. Os ossos estão relativamente intactos e não têm sinais de fraturas ou queimaduras deliberadas. “Todos os indícios sugerem que não houve canibalismo aqui”, diz Eng.

    Os ossos datam dos séculos 3 a 8, quando o budismo ainda não chegara a Mustang, mas a descarnadura pode estar relacionada à prática budista do “funeral no céu”. Até hoje, mortos em Mustang podem ter o corpo, incluindo os ossos, cortado em pedaços pequenos que são rapidamente levados pelos abutres.

    Na época dos sepultamentos nas cavernas de Samdzong, Aldenderfer supõe, a carne era removida do corpo, mas os ossos permaneciam articulados — “como um esqueleto de Halloween”, explica. O esqueleto era posto na tumba, dobrado para caber na caixa de madeira. “Depois, quem estivesse com ele, subia e saía”, diz Aldenderfer.

    Antes de subir, os antigos sepultadores garantiram que o corpo fosse regiamente adornado para o além-mundo. Athans, agachado na Tumba 5, vasculha o pó horas a fio e descobre os ornamentos. “Era tão fascinante que me esqueci de beber e comer”, ele diz depois.

    Athans encontra uma valiosa porção de contas e as guarda em sacos plásticos de amostras; essas contas costuravam vestes há muito desintegradas. Singh Lama separa-as meticulosamente. São mais de mil contas de vidro, algumas minúsculas como sementes de papoula, em meia dúzia de tons. As análises laboratoriais mostrarão que elas provêm de vários lugares: algumas da atual região do Paquistão, outras da Índia, outras do Irã.

    Também são encontradas três adagas de ferro, com lâminas pesadas e cabos graciosamente arqueados. E uma xícara de bambu com delicada alça circular. Uma pulseira de cobre. Um espelhinho de bronze. Panela e concha de cobre, e um tripé de ferro para apoiar a panela. Pedaços de tecido. Um par de chifres de iaque ou vaca. Um enorme caldeirão de cobre, que daria para cozinhar uma bola de praia. “Aposto que é uma panela de chang”, diz Aldenderfer, referindo-se à cerveja de cevada fermentada consumida na região.

    Finalmente, Athans manda para baixo uma máscara funerária. É de ouro e prata malhados, e tem os traços faciais em relevo. Os olhos são contornados em vermelho, a boca está ligeiramente curvada para baixo, o nariz é linear; há sinais de barba. Orifícios delineiam a borda. Provavelmente a máscara foi costurada a um tecido e posta sobre o rosto. As contas faziam parte da máscara.

    Aldenderfer, normalmente muito circunspecto e professoral, não se contém com a máscara nas mãos. “É estupendo!”, ele diz. “A perícia que isso requereu, a óbvia riqueza que representa, as cores, a delicadeza — é a melhor coisa já encontrada em Mustang. Ponto final.”

    Quase todos os artefatos na caverna foram importados. Até a madeira do caixão veio de alguma área tropical. Como é que uma pessoa conseguiu reunir tais riquezas neste local, hoje tão desprovido de recursos que meramente juntar lenha para fogueira exige horas de esforço? O sal, muito provavelmente. Controlar parte do comércio de sal, na época, pode ter sido o equivalente a ser dono de uma jazida petrolífera hoje.

    O achado completo, nessa que parecia uma caverna sem nada de especial, deixa Aldenderfer atarantado para situá-lo em um contexto histórico. “Isso é único”, ele diz. “Espetacular. É reescrever radicalmente a pré-história da região.”

    Tudo que o grupo encontrou é deixado aos cuidados dos principais do vilarejo de Samdzong. Além disso, como já fez em outras partes de Mustang, Athans faz uma doação pessoal para a criação de um modesto museu. “O povo de Mustang dever orgulhar-se de sua rica história”, ele diz. Os cientistas levam apenas minúsculas amostras e pedaços de osso. Elas serão estudadas em vários laboratórios. Os dentes irão para a Universidade de Oklahoma; os metais, para o University College em Londres. As pinturas serão separadas em componentes químicos para se determinar que plantas foram usadas em sua produção. Uma lasca de madeira, um fio de tecido, um pó de esmalte dentário, tudo será rigorosamente analisado. O processo pode levar uma década.

    Isso se não forem adicionados outros achados. Supõe-se que inicialmente Mustang tenha sido governado por reis poderosos. Com tantas cavernas expostas e um número ignorado de criptas ocultas, talvez achados muito mais notáveis estejam à espera de ser encontrados. “Podem estar na próxima caverna em que entrarmos”, diz Aldenderfer. “Podem estar em cem outras cavernas.” E de fato, quase ao fim dos trabalhos do grupo em Samdzong, surge outra descoberta. Andando no alto do penhasco depois de remover as barras de suporte da escalada, Hesser topa com uma depressão que se destaca no cascalho por sua circularidade artificial. É bem provável que seja a entrada de outra tumba, ainda lacrada e com seu conteúdo intacto.

    A autorização de viagem da equipe está prestes a expirar, e eles têm uma longa jornada pela frente. Não há escolha, é preciso deixar passar essa pista. Pelo menos por ora. Como sempre, os penhascos de Mustang guardam segredos a ser descobertos.

    Para chegar a uma série de cavernas escavadas em um penhasco 47 metros acima do fundo do vale, Matt Segal (no alto) escala uma rocha tão frágil que se desintegra ao contato. Ligadas por uma saliência na rocha, as cavernas de 800 anos, hoje vazias, podem ter guardado manuscritos no passado. Ted Hesser (à esquerda) passa pela entrada de uma caverna em sua escalada.

    FONTE: http://viajeaqui.abril.com.br

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