História e Cultura

    “Rumorese”: A estratégia de controle mental mais sutil que opera em toda a sociedade

    rumormen127/02/2020 - Em “O Grande Ditador”, Hynkel, o personagem interpretado por Charles Chaplin, fala Grammelot, uma linguagem composta de sons, palavras e rumores que têm significado que, no entanto, outros parecem entender. No romance “1984”, George Orwell se referiu a uma “linguagem neo” a serviço do sistema de controle, na qual todas as palavras consideradas “perigosas” para o regime foram eliminadas. O lema do partido é: “Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força”.

    Na verdade, essa linguagem sem sentido, que fala muito sem dizer nada, se espalhou entre nós a uma velocidade vertiginosa, como uma epidemia real. O filólogo Igor Sibaldi chamou de “rumorese”. E é importante ser capaz de detectá-lo, porque – sem perceber e de maneira sub-reptícia – pode acabar restringindo nosso pensamento e, portanto, limitando nossas decisões de vida.

    O que é rumorese?

    Rumorese é falar muito sem dizer nada, é a “capacidade” de colocar uma palavra após a outra, rapidamente, sem se preocupar que a mensagem seja consistente, tenha significado ou valor. Um discurso em rumorese é composto de palavras vazias ou termos excessivamente ambíguos que são frequentemente contraditórios entre si. Rumorese é, portanto, a linguagem de todos aqueles que querem se destacar, mas não têm nada importante para contribuir com o mundo. É também a linguagem daqueles que querem exercer controle sem recorrer à razão ou ao entendimento. É uma linguagem em que os sons prevalecem e o significado é óbvio.

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    Vivendo na sociedade da loquacidade

    Nos tempos em que conta mais quantidade do que qualidade, não deve nos surpreender que falar muito sem dizer nada tenha se tornado a norma. Como Thoreau disse, “parece que o importante é falar com rapidez e não com bom senso”. Quem não aprende esse idioma, mas fala de maneira sensata, pode ser visto com desconfiança pelos outros. Seu discurso será classificado como muito complicado e raro, porque exige uma capacidade de atenção e reflexão perdida. Assim, discursos razoáveis, lógicos e coerentes tornam-se incompreensíveis para a maioria, uma maioria que foi convenientemente lobotomizada graças a uma educação sistemática à loquacidade. De fato, para funcionar em certos contextos sociais e ter “sucesso”, muitas pessoas são forçadas a aprender a falar mais e dizer menos. Quem não se sente perdido, como um peixe fora d’água, como se fosse o único são em um manicômio, testemunhando uma cena absurda que se desenrola com extraordinária normalidade. Quem não fala esse idioma acaba, portanto, se sentindo marginalizado, excluído e raro.

    O “rumorese” cria o absurdo que nos lobotomiza

    “Estamos prontos para fazer as modificações necessárias, de uma justiça por parte do cidadão, implementando reformas que não modificam o processo em andamento …” Essas palavras, tiradas de um jornal, podem nos parecer familiares, uma vez que fazem parte dos rumores políticos, embora seja verdade que existem muitas outras variantes que falam muito sem dizer nada que se estenda a diferentes áreas de nossas vidas. Nesse exemplo, embora o leitor possa se sentir feliz porque as “reformas necessárias” serão aplicadas, na realidade elas “não modificarão o processo em andamento”, o que significa que tudo mudará para que nada mude. A isto se acrescenta que o fato de a justiça ser da parte do cidadão é uma contradição, uma vez que a justiça não deve estar em lugar nenhum, mas ser imparcial.

    O rumorese, portanto, serve apenas para gerar confusão e criar expectativas que nunca serão satisfeitas, por isso acaba gerando frustração. As contradições flagrantes e o absurdo que ele gera fazem com que uma parte do nosso cérebro se desligue, cansada de procurar uma lógica inexistente. E é precisamente esse tipo de lobotomização autoinfligida que se adapta a todos aqueles que aproveitam os rumores para alcançar seus objetivos. A isto se acrescenta que, como os rumoreses não têm significado em si, geralmente é mais credível quem tem maior autoridade. Se não entendermos dois discursos antagônicos, teremos a tendência de fundamentar e acreditar no discurso institucionalizado e canonizado. O poder do referente trabalha sua mágica onde não há hábito do pensamento livre. E isso significa que a razão e o diálogo não prevalecem, mas o poder. Como Thoreau advertiu, “o homem aceita não o que é verdadeiramente respeitável, mas o que é respeitado”.

    A reflexão como arma contra palavras vazias

    O rumorese é composto por uma série de idéias projetadas para serem acreditadas, independentemente de sua veracidade ou racionalidade. Geralmente, trata-se de especulações ou deturpações que se espalham porque causam impacto em nossas emoções mais atávicas. De fato, o rumorese se espalha de maneira extremamente eficaz e é uma ferramenta de manipulação perfeita, porque geralmente ajustamos nossa visão de mundo à percepção que os outros têm. Pensamos que muitas mentes não podem estar erradas, portanto, quem eu estou errado sou eu. O melhor antídoto para conter essa conversa vazia é a razão. Precisamos passar tudo pela peneira do nosso pensamento. Não importa de onde venham as palavras ou quem as disse, temos que questioná-las e, se necessário, refutá-las. É nesse ato de desconstrução do que foi dito que encontramos nossa verdade e nos tornamos livres.

     

    O Perigo da Rumorese

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    06/11/2020, por Solon Saldanha - O filósofo, dramaturgo e tradutor italiano de origem eslava Igor Sibaldi é um renomado estudioso de línguas e literatura. Foi ele que “batizou” com o nome de “rumorese” a linguagem incongruente que surgiu do nada e se espalhou entre nós, sendo tão ou mais perigosa do que o coronavírus. Ela ataca o pensamento, não o sistema respiratório das pessoas. Mas as suas sequelas são de tal forma limitadoras para o indivíduo e para a sociedade, que mereceria igual ou maior quarentena. E sem cloroquina, porque daí os sintomas podem evoluir até o óbito – se bem que a morte cerebral neste caso é bem mais rápida e provável.

    A rumorese é uma linguagem sem sentido, que fala em demasia sem que diga de fato nada. E se instala de um modo ardiloso e clandestino, limitando a capacidade de pensar e decidir do infectado. Na ficção isso já havia sido mostrado em mais de uma ocasião – a arte antecipando a vida real. E um dos mais claros exemplos está no distópico 1984, obra escrita por George Orwell. Nele um sistema de controle das pessoas foi sendo instalado pelo regime político, que tratou de subtrair todas as palavras consideradas perigosas para a sua manutenção. Altera-se o falar e o escrever para atingir o pensar e reagir. Não por acaso o lema do partido em questão era “Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força”. Também é característico que todos os regimes de exceção que se instalaram na história da humanidade trataram de proibir e eliminar livros e censurar toda a forma de expressão artística. Eles sempre buscaram e buscam controlar conteúdos por ela produzidos. Tiraram e tiram dos currículos escolares a filosofia e a sociologia, reescrevem a história, reduzem os recursos para a educação formal, incentivam a alienação, a religiosidade cega e a ignorância.

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    A linguagem sem sentido hoje é epidêmica. A sucessão de palavras que propõe é rápida e sem mensagem consistente, ou com mensagens propositalmente contraditórias. A ambiguidade é a norma, capaz de destacar quem não tem nada a dizer. O vazio como método para controlar o entendimento e a razão. Nunca se disse tanta asneira quanto agora, desde a chegada da rumorese. E é ela, não mais o inglês, que está nos universalizando. Nela o caminho para o sucesso, o poder e a glória. Com ela não se relatam mais fatos e “verdades” – até porque a verdade não tem mais nenhum valor. O que se descreve é a intenção, ou a total falta dela, desde que disfarçada. Tanto se “ficou sabendo”, nos últimos tempos, que não se sabe mais nada. É fantástica a parcela da população que foi lobotomizada sem cirurgia, mas com a simples propagação proposital da rumorese. O campo político é muito fértil para sua proliferação, mas ocorre também fora dele. Um exemplo está nos coaches de enriquecimento, outra praga dos dias atuais, com suas frases feitas, tentando provar que você só não é rico porque não quer. “Mude seu mindset, você quer você pode. Acorde cedo, seja proativo. Para deixar de ser pobre você tem que investir”.

    O mais incrível é que a rumorese se espraia como se fosse um EAD que não exigiu a matrícula de ninguém. Se propaga graças às mídias sociais, aos robots – que neste caso nem sequer têm corpo físico, sendo meros impulsos virtuais – e à programação televisiva, essa a mais antiga aliada de sua disseminação, de antes mesmo que tivesse esse nome. Também algumas letras de músicas e determinados filmes têm sua parcela de culpa, mas muito menor, até porque em geral seus produtores estão do outro lado do muro nesta queda de braço entre a razão e a estupidez. Acontece o mesmo na imprensa, prevalecendo o interesse empresarial sobre o jornalístico. Depois, a rumorese se multiplica como que por osmose: passa de pessoa para pessoa. E, uma vez instalada, ela dita o que seja credibilidade, que não está mais no conhecimento de quem se pronuncia, mas na suposta autoridade de quem faz isso. O asno se torna doutor, assim como o doutor é reduzido a asno. “O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas e as pessoas idiotas estão cheias de certezas”, antecipou o filósofo inglês Bertrand Russell, que faleceu em 1970.

    Não se deve confundir fake news com rumorese. As notícias falsas são um dos alimentos que nutrem os organismos tomados pela rumorese. As notícias falsas circulam no exterior, atingindo as pessoas de fora para dentro. A rumorese percorre o caminho inverso, repleta de loquacidade vazia. E serve apenas para gerar confusão e criar expectativas que jamais serão satisfeitas. Ou, o que é um efeito ainda mais danoso, para destruir expectativas que, se fossem atendidas, poderiam mudar nossa vida para melhor. Mas, acreditem: há antídoto para isso e ele se chama reflexão. Pensar pode ser difícil, mas faz um bem danado

    Fonte: https://www.pensarcontemporaneo.com/
               https://virtualidades.blog/

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