O Homem Que Comeu a França (E Quase Engoliu um Bebê Também). Cinco quilos de carne crua, um cesto inteiro de maçãs e, de sobremesa, pedras. Não é o cardápio de um restaurante nórdico conceitual, nem a dieta da moda de um bilionário excêntrico do Vale do Silício. É o almoço de um francês que pesava 45 quilos e cheirava tão mal que era impossível não notá-lo. A história de Tarrare não é sobre gula. A fome que o consumia não cabia no prato, na moral ou na anatomia humana comum.
Era uma falha na Matrix do corpo, um curto-circuito biológico que transformou um homem numa lenda grotesca, numa arma de guerra fracassada e, muito provavelmente, num assassino. Antes de Joey Chestnut enfiar 76 cachorros-quentes goela abaixo sob os holofotes da ESPN, existiu um abismo. Um lugar onde a fome não terminava com o cronômetro, não premiava com troféus e dinheiro, e certamente não tinha patrocinadores. Nesse abismo, a comida era um tormento perpétuo e o cardápio incluía o que ninguém, em sã consciência, chamaria de alimento.
Um Estômago Sem Fundo e uma Pele de Bexiga Murcha
Esqueça os endocrinologistas de Instagram. O diagnóstico de Tarrare era um espetáculo de horror. Imagine um homem de estatura mediana, aparência perpetuamente subnutrida, olhos fundos e uma palidez de quem já viu o próprio túmulo. Agora, imagine que, quando ele abria a boca, o mundo recuava. Sua mandíbula se deslocava como a de uma serpente, revelando uma cavidade tão larga que parecia um alçapão para outro universo. Os relatos da época descrevem sua garganta como um canal tão dilatado que era possível enxergar, dali de cima, o conteúdo do seu estômago.
Era uma arquitetura de pesadelo. Seus pais, camponeses franceses que não tinham a menor condição — física ou financeira — de lidar com aquela máquina de consumir calorias, fizeram o que qualquer família falida faria no século XVIII: expulsaram o adolescente de casa. Ele era um buraco negro que engolia salários.
Sem o aconchego familiar, Tarrare descobriu que sua desgraça podia ser um ativo. Vagou pela França como atração de feira. Ele não era um artista, era uma catástrofe ambulante que cobrava ingresso. Em praças públicas e tavernas escuras, o homem magricelo devorava, diante de plateias boquiabertas, cascas de frutas podres, animais vivos que se debatiam até sumir naquele esôfago infinito, rolhas, facas e pedaços de vidro. O sujeito triturava objetos com os dentes como se fossem biscoitos. O público ria, aplaudia e, provavelmente, sentia um leve enjoo.
O detalhe mais desconcertante, porém, não era o que entrava. Era o que exalava. De Tarrare emanava um fedor cadavérico tão insuportável que as pessoas não conseguiam ficar a menos de vinte passos dele. Não era suor. Era uma putrefação interna, um miasma que parecia vir do centro da terra. Quando sua barriga não estava milagrosamente distendida pela ingestão de uma quantidade absurda de comida — porque sim, ele não engordava —, a pele do abdômen caía sobre si mesma, formando um avental de couro humano, flácido e enrugado. Uma bexiga vazia. Um saco de ossos com um odor de fossa.
O Espião que Fedia a Morte
Seria mais fácil se Tarrare fosse apenas um fenômeno circense. Mas ele queria ser um herói. No auge das Guerras Revolucionárias Francesas, decidiu se alistar. O patriotismo, contudo, esbarrava na logística. Um soldado que precisa comer quatro rações completas para não desmaiar de fome não é um soldado, é um problema estratégico. Enquanto seus companheiros dividiam pão duro, Tarrare rondava o lixo, o esterco, qualquer coisa que pudesse aplacar a fornalha em seu abdômen.
Foi um general, talvez dotado de um senso de humor mórbido ou de uma genialidade excêntrica, quem teve a ideia: "Vamos usar o monstro como correio." O plano era simples e bizarro. Tarrare engoliria uma caixa de madeira contendo uma mensagem secreta, atravessaria as linhas inimigas prussianas, e então a recuperaria do lado de lá — digamos assim. Matéria orgânica como correio diplomático.
A execução foi um fiasco digno de sátira. Primeiro, Tarrare não falava uma palavra de alemão. Um camponês prussiano mudo? Estranho. Mas o grande sabotador do disfarce foi o seu já mencionado odor pútrido. A nuvem de fedor que o acompanhava era uma assinatura química impossível de esconder. Os prussianos não precisaram de cães farejadores. Farejaram o francês com o nariz humano a quilômetros de distância. Capturado, ele foi espancado e torturado, mas a informação que carregava era tão inútil que o comandante prussiano, exasperado e provavelmente com náuseas, mandou soltá-lo. Mandaram-no de volta, humilhado, para que o cheiro parasse de empestear a prisão.
Quando a Fome Venceu a Alma
De volta ao hospital militar, Tarrare implorou por uma cura. O Dr. Percy, um cirurgião meticuloso, tentou de tudo. Drogas, ópio, vinagre, dietas absurdas. Nada funcionava. A fome de Tarrare era uma entidade viva dentro dele. Sem o controle do exército e sem o palco das feiras, ele se tornou um animal acuado dentro da enfermaria.
Primeiro, foram os restos de comida dos outros pacientes. Depois, o lixo hospitalar, um banquete de miasmas e fluidos descartados. Os relatos médicos então cruzam a fronteira do insuportável: Tarrare foi flagrado sorvendo os barris de sangue retirados nas sangrias dos enfermos. Um vampirismo famélico. Ele invadia o necrotério e mastigava os cadáveres deixados para estudo anatômico. A medicina do século XVIII, tão acostumada à brutalidade da carne, ficou horrorizada. Mas ele era "fascinante demais" para ser descartado. Era a joia macabra do laboratório.
Até que um bebê de quatorze meses desapareceu do hospital.
O silêncio que se fez naquela ala deve ter sido aterrador. Todas as suspeitas convergiram para o único homem capaz de engolir uma vida humana sem precisar de talheres. A gota d’água, o ponto final na biografia de uma tragédia humana. Expulso como um cão sarnento, Tarrare voltou às ruas, carregando a culpa, o estigma e a fome que jamais sossegava.
O Segredo Revelado Pelo Pus
Quatro anos depois, o Dr. Percy foi chamado a Versalhes. Tarrare agonizava, os pulmões consumidos pela tuberculose. Mesmo moribundo, aquele cheiro característico, aquele fedor que era sua maldição, se intensificava, insuportável. Quando a morte finalmente o levou, os cirurgiões correram para o cadáver. A curiosidade científica venceu o nojo momentaneamente. Não era época de sutilezas: abriram o homem.
O que encontraram foi a origem do mito. Seu corpo era uma fábrica de pus. O fígado era uma massa disforme. A vesícula biliar, gigante. O estômago era uma bolsa monstruosa, tão vasta que ocupava quase toda a cavidade abdominal, coberta de úlceras. O esôfago era um tubo largo e escancarado. A autópsia não revelou uma compulsão psiquiátrica, uma fraqueza moral, uma possessão demoníaca. Revelou uma monstruosidade anatômica. Um desarranjo físico que o transformou em um motor de combustão infinita, que precisava de matéria orgânica para não engolir a si mesmo.
O odor, intensificado pela morte, expulsou os médicos da sala antes que pudessem terminar. Tarrare os derrotou uma última vez. Ele apodreceu como viveu: sendo matéria insuportável demais para o convívio humano. A diferença entre Tarrare e os comedores competitivos de hoje não é apenas o glamour da TV ou o valor do prêmio. É que para Joey Chestnut, a competição acaba e ele vai para casa. Para Tarrare, a competição nunca acabou. O prêmio era continuar existindo por mais uma hora, mesmo que isso significasse engolir o mundo inteiro e, no fim, devorar a própria humanidade.