Homeopatia - Parte 2

    homeo2Homeopatia (do grego homoios, semelhante + pathos, doença) é um termo criado por Christian Friedrich Samuel Hahnemann (1755-1843) que designa um método terapêutico cujo princípio está baseado na similia similibus curantur ("os semelhantes curam-se pelos semelhantes"). É importante salientar que a homeopatia é comumente confundida com a fitoterapia ou com uma medicina mais natural, com relação aos produtos usados em suas formulações - o que não é verdade. O tratamento homeopático consiste em fornecer a um paciente sintomático doses extremamente pequenas dos agentes que produzem os mesmos sintomas em pessoas saudáveis, quando expostas a quantidades maiores.

    A droga homeopática é preparada em um processo chamado dinamização, consistindo na diluição e sucussão da substância em uma série de passos.  Os altos níveis de diluição (variando de acordo com o medicamento), aliados ao grande número de estudos científicos com resultados negativos, fazem com que haja bastante controvérsia em torno do funcionamento da Homeopatia - ver argumentos.

    Hipócrates

    É dito que os princípios gerais da homeopatia foram enunciados por Hipócrates há cerca de 2500 anos. Segundo Albert Lyons, podemos resumir os princípios do método hipocrático em quatro pontos:

    • Observar. Para Hipócrates, grande parte da arte médica consiste na capacidade de observação do médico. A observação deve ser feita sem nenhum tipo de preconceito ou julgamento, estando o prático aberto aos relatos explícitos e implícitos do paciente.

    • Estudar o doente, e não a doença. Este princípio, proposto no Ocidente pela primeira vez no tempo de Hipócrates, assentou as bases da holística, estabelecendo que na compreensão do processo saúde/enfermidade não se divide a pessoa em sistemas ou órgãos, devendo-se avaliar a totalidade sintética do indivíduo. Este ponto é essencial no entendimento das históricas divergências entre as escolas de Cós (cujo expoente principal é o próprio Hipócrates) e de Cnido. Esta última pregava a especialização, a impessoalidade, o organicismo e a classificação das doenças.

    • Avaliar honestamente. Dá-se importância à leitura prognóstica dos problemas da pessoa.

    • Ajudar a natureza. A função precípua do médico é auxiliar as forças naturais do corpo para conseguir a harmonia, isto é, a saúde.

    Esses princípios guardam evidente semelhança com as conclusões de Samuel Hahnemann no século XVIII, como veremos adiante.

    Hipócrates foi também o primeiro a descrever as duas maneiras principais de se abordar a terapêutica:

    • Similia similibus curantur. Semelhantes são curados por semelhantes, base terapêutica da homeopatia.

    • Contraria contrariis curantur. Contrários são curados por contrários. Princípio seguido por Galeno que estabeleceu as bases da alopatia.

     

     

    A visão integradora de Hipócrates permeia toda a sua obra, cujos textos mais conhecidos são Aforismos e Juramento. A saúde, para ele, é resultado da harmonia entre os quatro humores presentes no corpo e da interação da pessoa com o meio. Higiene, dieta, exercícios físicos, clima e outras circunstâncias são levadas em consideração na avaliação da saúde. O adoecimento obedece a três estágios facilmente reconhecíveis por um observador atento: degeneração (desequilíbrio) dos humores, cocção e crise. Não dá importância à classificação das doenças, levando muito mais em conta a pessoa e seu contexto. Na terapêutica é parco no uso de medicamentos, interferindo somente nos momentos considerados necessários, quando a natureza o indicar. Ficou muito conhecido no seu tempo por sua honestidade científica e na relação com os pacientes e seus familiares, insistindo na necessidade de se trabalhar com a verdade e de se fazer a leitura do prognóstico do estado de saúde. Estabeleceu as bases da ética nas relações entre médicos, entre médico e discípulos e entre médicos e pacientes.


    De Hipócrates a Paracelso

    Os séculos seguintes apresentaram preponderância crescente das crenças de Cnidos e das práticas de Galeno, chegando ao dogmatismo. O establishment da Antigüidade e, posteriormente, da Idade Média, não permitia qualquer tipo de oposição às idéias galênicas que reinaram quase absolutas por quinze séculos. Galeno ficou conhecido por seus preparados farmacêuticos que incluíam várias substâncias em cada um deles. Sua teriaga, uma de tantas misturas preparadas, chegou a ter mais de setenta ingredientes em sua composição até a época de sua morte. Na Idade Média o preparado já continha mais de cem substâncias, sendo usado como antídoto universal. Até o final do Século XIX a teriaga estava registrada nas farmacopéias oficiais de vários países europeus.


    Paracelso

    Um dos maiores críticos de Galeno, e, não casualmente, devoto de Hipócrates, foi Paracelso (1491 – 1541). Dotado de um espírito questionador, iconoclasta e revolucionário, esse médico e alquimista, nascido em Zurique, abalou as estruturas acadêmicas de sua época, questionando os clássicos e afirmando a necessidade de se realizarem experiências e observações próprias para o conhecimento da ciência. A medicina paracelsista é um retorno à filosofia da natureza, ao holismo. Ele vê a pessoa submetida às mesmas leis e princípios que governam o universo; em suas palavras: “Assim como é em cima, é em baixo”. Para ele, a saúde é resultante da harmonia entre o homem (microcosmo) e o Universo (macrocosmo). Paracelso aceita o princípio da cura pelo semelhante e prescreve: “Scorpio escorpionem curat”.


    Samuel Hahnemann

    No Século XVIII, Samuel Hahnemann (1755-1843) nasce na Alemanha e inicia sua prática médica em 1779 em um ambiente em que imperava a falácia médicaica. Naquela época, sangrias, eméticos e purgantes eram receitados sem nenhum resguardo. Os médicos julgavam-se autoridades máximas, acima da natureza, e não duvidavam de seus métodos mesmo diante de desastrosas evidências do dano que causavam.

    Hahnemann frustra-se profundamente com a prática médica e decide abandoná-la em 1789. Um de seus escritos reflete a angústia e o desânimo que pousaram sobre ele naquela época: “converter-me em assassino de meus irmãos era para mim um pensamento tão terrível que renunciei à prática para não me expor mais a continuar prejudicando”. Essa postura mostra sintonia com a máxima hipocrática: “Primo nil nocere”, ou seja, primeiramente não prejudicar.

    Ele era um poliglota, consta que conhecia grego, latim, hebraico, árabe, caldeu, alemão, inglês, francês, italiano, espanhol, entre outras línguas. O conhecimento desses idiomas é decisivo no futuro de Hahnemann, pois, havendo abandonado a prática médica, começa a sobreviver realizando trabalhos de tradução. Traduz, sobretudo, obras médicas e científicas, retomando estudos de antigos mestres como Hipócrates, Paracelso, Jan Baptista van Helmont, Thomas Sydenham, Boerhaave, Stahl e Albrecht von Haller.

    A história registra sua personalidade prodigiosa, dotada de uma ímpar capacidade de observação e de agudo senso crítico. Foi quando trabalhava na tradução da Materia Medica de Cullen, em 1790, que um fato descrito por aquele autor chamou sua atenção. A Cinchona officinalis (quinina ou simplesmente quina) era usada na Europa, proveniente do Peru, para o tratamento do paludismo. Segundo explicações do autor do livro, a Cinchona atuaria fortalecendo o estômago e produzindo uma substância contrária à febre. Movido por curiosidade e intuição científicas, Hahnemann decide provar, nele mesmo, o medicamento. Observou em si o aparecimento de sintomas semelhantes ao das crises febris da malária (esfriamento das extremidades, rubor facial, sonolência, prostração, pulsações na cabeça) ao ingerir a quina e seu desaparecimento ao cessar o uso. Repetiu várias vezes o experimento com a quinina e depois continuou fazendo provas com beladona, mercúrio, digital, ópio, arsênico e outros medicamentos. Inspirado pela obra de von Haller, que preconizava o estudo do medicamento na pessoa saudável, antes de ser ministrada ao doente, inclui seus parentes nas experiências, observa e anota pormenorizadamente os resultados.

    Depois de seis anos de pesquisas intensas, Hahnemann dá à luz um “Ensaio sobre um novo princípio para descobrir as virtudes curativas das substâncias medicamentosas, seguido de alguns comentários a respeito dos princípios aceitos na época atual.” É assim que o ano de 1796 entra para a História da medicina como o ano de sistematização dos conhecimentos homeopáticos (para alguns o “nascimento” da homeopatia). Como vimos acima, os princípios já haviam sido enunciados por outros médicos anteriormente, mas é Hahnemann quem dá um corpo único, coerente, sintético, com fundamentos nitidamente compreensíveis à homeopatia. É curioso mencionar que foi ele quem cunhou os termos homeopatia (à qual também se referia como Arte de Curar) e alopatia (prática abusiva, agressiva e pouco eficaz).

    A partir de 1801 Hahnemann começa a usar medicamentos dinamizados (técnica própria da homeopatia que visa ao desenvolvimento da força medicamentosa latente na substância e que consiste em submeter a droga a diluições e sucussões sucessivas) e observa que isso dá mais potência ao medicamento. Em 1810 publica sua obra fundamental, “Organon da Medicina Racional”, mais tarde, “Organon da Arte de Curar”. Em vida, chega a publicar cinco edições do Organon. A sexta e definitiva edição vai para o prelo post mortem, em 1921.


    Princípios da prática homeopática

    Além da visão holística impressa em toda a obra de Hahnemann, ou seja, a visão do todo sobre as partes, há quatro princípios que orientam a prática homeopática, quais sejam:

    • Lei dos Semelhantes. Resultado de suas releituras dos Clássicos e, sobretudo, de suas próprias experiências, anuncia esta Lei universal da cura: similia similibus curantur. Exemplificando, um medicamento capaz de provocar, em uma pessoa sadia, angústia existencial que melhora após diarréia e febre, curará uma pessoa cuja doença natural apresente essas características.

    • Experimentação na pessoa sadia. A fim de conhecerem as potencialidades terapêuticas dos medicamentos, os homeopatas realizam provas, chamadas patogenesias; em geral são eles mesmos os experimentadores. Tipicamente não se fazem experiências com animais. Uma condição básica para a escolha dos provandos é que sejam saudáveis. Esses medicamentos são capazes de alterar o estado de saúde da pessoa saudável e justamente o que se busca é os efeitos puros dessas substâncias. A experimentação homeopática é completamente segura, uma vez que, simplesmente, a "medicação" é água diluída com água.

    • Doses infinitesimais. A preparação homeopática dos medicamentos segue uma técnica própria que consiste em diluições infinitesimais seguidas de sucussões rítmicas. Essa técnica “desperta” as propriedades latentes da substância. Toma-se o cuidado de prescrever a menor dose possível, porquanto o poder do medicamento homeopaticamente preparado é grande e há pessoas sensíveis a ele.

    • Medicamento único. A homeopatia é uma ciência muito criteriosa em sua prática. Primeiro o homeopata avalia se a natureza individual está a “pedir” intervenção com medicamento, pois esse é um dos meios que o médico tem para auxiliar a pessoa e não o único. Sendo o caso, usa-se um medicamento por vez, levando-se em conta a totalidade sintomática do paciente. Só assim é possível ver seus efeitos, a resposta terapêutica e avaliar sua eficiência ou não. Após a primeira prescrição é que se pode fazer a leitura prognóstica, ver se é necessário repetir a dose, modificar o medicamento ou aguardar a evolução.

    É surpreendente que Hahnemann tenha enunciado os princípios da homeopatia no final do século XVIII, somente como resultado da observação, pois só no século XX (principalmente na segunda metade) é que a expressão integral desse preceito começou a ser notada pelos cientistas contemporâneos, com destaques para as pesquisas de George Vithoulkas, Masaru Emoto, Jacques Benveniste, Fritjof Capra, C.G.Jung, Lovelock, Lynn Margulis, Gregory Bateson, Humberto Maturana, Lorenz, Bohr dentre vários outros. É evidente que esta pequena lista mostra cientistas de ramos muito diferentes e que a relação de suas pesquisas com a homeopatia pode não ser direta. Mas todos têm algo muito forte em comum: a ruptura com a visão cartesiana-positivista de parte substancial da ciência ocidental.

    Depois de Hahnemann, a homeopatia expandiu-se por boa parte do mundo. Mas a expansão não foi linear, tendo seu desenvolvimento e sua aceitação atingido diferentes níveis nas várias regiões do mundo. Por exemplo, na Índia e no Brasil a homeopatia faz parte das políticas oficiais de saúde. Já na Argentina está banida das políticas públicas, chegando a ser praticamente proibida em algumas províncias.


    Escolas da homeopatia

    • Unicismo - Prescrição de um único medicamento, igualmente a Hahnemann.

    • Pluralismo - É chamado também de alternismo, dois medicamentos administrados em horas distintas, um complementando o outro.

    • Complexismo - São prescritos dois ou mais medicamentos que podem ser administrados simultâneamente. A indústria produz em larga escala medicamentos ditos complexos, que tem objetivos de tratar doenças particulares, não considerando a lei dos semelhantes.


    • Organicismo - O medicamento é prescrito conforme o órgão doente. Esta prática aproxima-se muito da alopatia.


    Quadro de dinamizações

    Potência Diluição Concentração Expoentes
    1ª dinamização centesimal hahnemanniana = 1CH 1/100 1 para 100 10-2
    2ª dinamização centesimal hahnemanniana = 2CH 1/10000 0,01 para 100 10-4
    3ª dinamização centesimal hahnemanniana = 3CH 1/1000000 0,0001 para 100 10-6
    4ª dinamização centesimal hahnemanniana = 4CH 1/100000000 0,000001 para 100 10-8
    12ª dinamização centesimal hahnemanniana = 12CH 1/1 x 1023 0,(21 zeros) para 100 10-24


    Os medicamentos homeopáticos

    Para uma lista não exaustiva de medicamentos homeopáticos, veja Lista de remédios homeopáticos.


    Argumentos a favor da homeopatia

    A homeopatia tem uma visão integrada do ser humano, vendo-o como um todo onde corpo e psique são indissociáveis. Neste aspecto aproxima-se das medicinas clássicas orientais e do que viria a formar, no século XX, o pensamento sistêmico.


    Homeopatia na Saúde Pública

    Estudos da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH), no Brasil (Soares Iracy Aparecida Ansaloni et al. Programa de Atendimento em Homeopatia, Acupuntura e Medicina Antroposófica na Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, 2002), mostram resultados muito positivos em favor da homeopatia, quando comparada à alopatia na Atenção Primária de Saude. Menor índice de encaminhamentos e menor número de exames complementares estão a explicitar maior resolução dos problemas. Os custos do tratamento para o Sistema Único de Saúde são também sensivelmente menores. Assim sendo, a PBH ampliou o acesso gratuito da população de Belo Horizonte aos serviços de homeopatia, criando o PROHAMA e colocando médicos homeopatas nas Unidades de Saúde do Município, à par dos alopatas.

    Uma pesquisa para dissertação de mestrado da Universidade Federal de Minas Gerais (Novaes Thaís C. Percepções do Paciente Usuário dos Serviços Homeopáticos do Sistema Único de Saúde em Belo Horizonte – Estudo de Caso no Centro de Saúde Santa Terezinha (dissertação de mestrado do Curso de Pós-Graduação em Saúde Pública). Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2003.)) apontou a percepção que tinham da homeopatia os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) quando comparada com a alopatia. Os resultados foram positivos para a homeopatia, o que explicaria a enorme demanda por homeopatas no SUS do Brasil e as longas filas de espera por uma consulta.

    Outra pequisa realizada em São Paulo, por Moreira Neto (2001)(Moreira Neto Gil. Homeopatia em Unidade Básica de Saúde: Um Espaço Possível. São Paulo: Associação Paulista de Homoepatia. Revista de Homeopatia 2001; 66(1): 5-26.) e publicada em revista aceita oficialmente pela CAPES, em Unidades Básicas de Saúde (UBS), confirmaram os estudos da Prefeitura de Belo Horizonte. Ele encontrou que os homeopatas daquele município encaminhavam 1 de cada 41 pacientes atendidos, sendo que solicitavam 1 exame complementar em cada 31,3 consultas realizadas, a um custo médio de R$ 0,50 por exame (valores da tabela do SUS de 1995).


    Homeopatia e VIH / SIDA

    Recente estudo da Fundação de Saúde do Distrito Federal, Brasil, está considerando a diferença na qualidade de vida dos pacientes com SIDA já desenvolvida e submetidos a tratamento homeopático, em relação àqueles que se submetem somente ao tratamento alopático. O estudo segue a metodologia do uso de placebo com distribuição tipo duplo-cego


    Estudos controlados e experimentos clínicos

    Dana Ullman, em seu livro de 1995, The Consumer's Guide to Homeopathy, devota um capítulo inteiro para "Evidências Científicas para a Medicina Homeopática". Ele cita um estudo de 1991, em que escreve:

    Três professores de medicina dos Países Baixos, nenhum deles homeopatas, fizeram uma meta-análise de 25 anos de estudos clínicos usando medicamentos homeopatas e publicaram seus resultados no periódico British Medical Journal. Essa meta-análise cobriu 107 estudos controlados, dos quais 81 mostraram que medicamentos homeopáticos foram eficazes, 24 se mostraram ineficazes e 2 foram inconclusivos. Os professores concluiram, "A quantidade de resultados positivos veio como uma surpresa para nós".

    Ainda sobre meta-análise, um dos últimos trabalhos do pesquisador Jacques Benveniste relacionados à homeopatia (Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? A meta-analysis of placebo-controlled trials. Lancet, Volume 350, Issue 9081, 20 September 1997, Pages 834-843 [1] -link somente acessível via computadores de Universidades) demonstra que, se comparados tratamentos homeopáticos com os placebo, há uma intrigante vantagem no primeiro tipo. Nesse trabalho, propos-se avaliar a eficácia de ambas alternativas revisando trabalhos da literatura, e a homeopatia pareceu se sair melhor. Em seguida, foram publicadas na mesma revista 2 críticas de céticos. Um deles levanta a questão de se estar comparando dois elementos não-comparáveis, uma vez que, por princípio, parece não haver diferença entre o medicamento homeopático e a água, e as diferenças observadas nesse estudo serem fruto do acaso (apesar do elevado número de casos avaliados). O outro levanta a questão de viéses na análise, uma vez que os pacientes apresentam diferenças entre si, de método de diagnóstico, entre os trabalhos analisados por Benveniste e colaboradores.


    Críticas à homeopatia

    Falta de indícios de eficácia terapêutica

    Os defensores do paradigma cartesiano consideram a homeopatia como um resquício pseudocientífico dos tempos da alquimia. Os resultados iniciais atribuídos à homeopatia podem ser explicados como efeito placebo. Alega-se que os medicamentos homeopáticos foram cientificamente testados (no chamado estudo duplo cego, para controlar os efeitos placebos) várias vezes e alguns desses testes produziram resultados positivos. A maioria dos cientistas rapidamente atribuem isso a flutuações aleatórias, uma vez que os resultados quase não são mensuráveis, não podem ser reproduzidos de modo confiável e há uma grande quantidade de testes em que a homeopatia falha. Além disso, o modo básico como os testes são realizados leva uma pequena fração dos testes a produzirem falsos resultados positivos. Normalmente, isso é evitado por meios estatísticos, mas quando uma grande quantidade de testes são realizados, um ou dois produzirão resultado positivo por efeitos aleatórios.

    Em agosto de 2005, a revista científica The Lancet publicou um artigo no qual cientistas afirmam que remédios homeopáticos têm propriedades terapêuticas similares às dos placebos. Os autores do artigo avaliaram 110 pesquisas sobre o tema.


    Falta de consistência lógica

    Uma outra crítica à homeopatia é que ela não é logicamente consistente.

    A homeopatia assume que a água "memoriza" as propriedades químicas das moléculas que entram em contato com ela. Por essa técnica, dilui-se a solução original ao ponto de retirar todas as moléculas, ainda assim alega-se que a água retém algumas propriedades químicas dessas moléculas.

    Não há nenhuma evidência científica que suporte esta tese.


    Mau uso da ciência para alegação de mecanismos

    Muitos defensores da homeopatia utilizam-se de conceitos errôneos de princípios físicos de difícil compreensão, como a física quântica, para justificar mecanismos de ação dos princípios ativos ultradiluidos, mas sem qualquer demonstração prática de que esses mecanismos teriam algum efeito biológico.


    Pensamento mágico

    Muitas pessoas aceitam a homeopatia devido ao pensamento mágico. Em Magical Thinking in Complementary and Alternative Medicine article[2] (Skeptical Inquirer journal, November–December, 2001) Dr. Phillips Stevens afirma:

    A Homeopatia e outras terapias populares demonstram os princípio antigos e universais do pensamento mágico, que algumas pesquisas recentes sugerem serem fundamentais à cognição humana, sendo mesmo enraizados na neurobiologia. Muitos dos sistemas atuais de cura “complementares” ou “alternativos” envolvem crenças mágicas, manifestando modos de pensar baseados nos princípios de cosmologia e causalidade que são atemporais e absolutamente universais. Tão similares são esses princípios entre todas as populações humanas que alguns cientistas cognitivos sugerem que eles são inatos na espécie humana e essa sugestão tem sido fortalecida pela pesquisa científica corrente. [...] Alguns dos princípios das crenças mágicas acima descritas são evidentes nos sistemas atuais de crenças populares. Um exemplo claro é a Homeopatia. Falácias das alegações homeopáticas foram discutidas por muitos, incluindo Barrett (1987) e Gardner (1989) neste periódico; mas é curioso que esse sistema de cura não foi mais amplamente reconhecido como baseado no pensamento mágico. O princípio fundamental de seu criador, Samuel Hahnemann (1755–1843), similia similibus curentur (“o semelhante cura o semelhante”), é uma expressão explítica de um princípio mágico.


    A superdiluição

    Alguns cientistas acreditam que diluir substâncias tanto quanto é feito na Homeopatia diminui drasticamente o efeito que a substância em questão possua.

    Robert L. Park, professor de Física e diretor do escritório de Washington da American Physical Society, escreve em seu livro Voodoo Science: The Road from Foolishness to Fraud:

    [Samuel] Hahnemann [o “inventor” no século 18/19 da Homeopatia] utilizou um processo de diluições seqüenciais para preparar seus medicamentos. Ele diluía um extrato de certas ervas e minerais “naturais”, na proporção de uma parte de medicamente para dez partes de água, ou 1:10, agitava a solução e, então, diluía por outro fator de dez, resultando ao final em uma diluição de 1:100. Uma terceira repetição do processo produzia 1:1.000 e assim por diante. Cada diluição subseqüente adicionaria outro zero à direita. Ele repetia o processo várias vezes. Diluições extremas são rapidamente obtidas por esse método. O limite de diluição é alcançado quando sobra apenas uma molécula do medicamento. Além desse ponto, não sobra nada a se diluir. Em um sem número de medicamentos homeopáticos, por exemplo, a diluição de 30X é basicamente o padrão. A notação 30X significa que a substância foi diluída em uma parte em dez e agitada e o processo, então, repetido seqüencialmente trinta vezes. A diluição final é de uma parte de medicamento em 1.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 partes de água. Isso está além do limite de diluição. Para ser exato, em uma diluição de 30X seria necessário se beber 7.874 galões [30 m³ ou 30.000 litros] da solução para se esperar encontrar apenas uma única molécula de medicamento. Comparado a muitas preparações homeopáticas, mesmo 30X é concentrado. Oscillococcinum, o remédio homeopático padrão para a gripe, é produzido a partir de fígado de pato, mas o seu uso generalizado na Homeopatia cria pouco risco à população de patos — a diluição padrões é de estonteantes 200C. O C significa que o extrato é diluído em uma parte em cem e agitado, repetindo-se duas centenas de vezes. Isso resultaria em uma diluição de uma molécula de extrato para cada 10400 moléculas de água — isto é, 1 seguido de 400 zeros. Mas há apenas 1080 (1 seguido de 80 zeros) átomos em todo o universo. A diluição de 200C está muito, muito além do limite de diluição de todo o universo visível!

    Uma das questões que se coloca é: como os homeopatas chegaram a estes números, como o 30X ou 200C? Foram feitas avaliações científicas, para verificar se não seria melhor 29X, ou 31X, 199C, ou 201C?

    Park destaca que Hahnemann provavelmente não estava ciente do limite da ultradiluição porque ele desconhecia o número de Avogadro, uma constante física que torna possível calcular o número de moléculas em uma amostra com uma certa massa de uma substância.

    Park explica o sucesso que a Homeopatia teve no início comparando com o uso à época de tratamentos verdadeiramente perigosos: “Os médicos ainda tratavam os pacientes com sangria, lavagens e freqüentes doses de mercúrio e outras substâncias tóxicas. Se o nostrum infinitamente diluído de Hahnemann não faziam nenhum bem, ao menos não faziam nenhum mal, permitindo as defesas naturais do paciente corrigirem o problema.”

    Park explica ainda como os modernos homeopatas concordam que realmente não há nenhuma molécula de medicamento em seus remédios, mas que o líquido se “lembra” da substância após o processo de diluição. Como essa memória da substância é obtida nunca foi satisfatoriamente explicada. Os críticos também apontam a dissociação espontânea da água em ácido e base (o que explica porque seu pH é 7). A quantidade de ácido em um medicamento homeopático, embora pequena, é geralmente muito maior do que a quantidade de agentes ativos. Em estudo realizado na Universidade de Toronto, demonstrou-se que realmente há uma "memória da água" sem a presença do soluto, mas ela só resiste por apenas 50 fentosegundos, ou seja 1/20.000.000.000.000 de segundo.

    A memória da água também parece se comportar de forma curiosamente seletiva, pois só se lembra dos ingredientes que o preparador do medicamento deseja. Supondo que a amostra inicial de água, com a qual se dilui pela primeira vez um medicamento homeopático, pudesse conter traços de ferrugem de canos, impurezas e outros elementos indesejáveis, concluiria-se que os seus efeitos também seriam dinamizados. Mesmo que um preparador ateste que a amostra de água inicial é pura (por não conter impurezas), o próprio argumento da memória da água indicaria que os efeito de contaminações passadas podem estar presentes, ainda que nenhuma molécula de impureza seja detectada.

    Recentemente, céticos em relação à Homeopatia consumiram diante do público grandes quantidade de medicamentos homeopáticos a fim de demonstrar sua falta de efeito. Alguns, como James Randi, Richard Saunders e Peter Bowditch consumiram caixas inteiras de pílulas homeopáticas para dormir no começo de suas palestras públicas. SKEPP (um grupo de céticos belgas) realizou um conferência à imprensa na qual céticos tentaram cometer suicídio coletivo tomando diluições homeopáticas de veneno. [3]. Porém, o ato “falhou” porque ninguém ficou nem ao menos doente.


    O problema da "tradição"

    Outra crítica à homeopatia é de que os argumentos em seu favor levariam muito em consideração práticas consolidadas sem questionamentos e de que seu conhecimento se pautaria em demasia nas afirmações de Hahnemann acriticamente.


    A alegada ausência de efeito placebo em bebês, animais e plantas

    Argumenta-se freqüentemente que evidências do efeito favorável da homeopatia em bebês, animais domésticos e plantas seriam provas de que a homeopatia não agiria por efeito placebo, pois estes não estariam suscetiveis a esse efeito. No entanto, bebês e animais domésticos estão sim sujeitos aos efeitos benéficos do aumento de cuidados e atenção por parte do cuidados que ministra o preparado homeopático, que podem produzir as melhoras observadas. Além disso, as evidências a respeito geralmente são baseadas em dados subjetivos por parte de pesquisadores cientes do tratamento, o que pode levar a vieses de interpretação dos resultados. Esses vieses seriam eliminados através de estudos aleatorizados caso-controle duplo-cegos.


    Aceitação da homeopatia

    Apesar das críticas, a homeopatia é aceita em muitas partes do mundo como uma forma de medicina.

    • No Brasil, a partir de 1979 a homeopatia passou a constar no Conselho de Especialidades Médicas da Associação Médica Brasileira e em 1980, do rol de especialidades do Conselho Federal de Medicina, deixando de fazer parte das medicinas alternativas e passando a constituir parte do que hoje se chama medicinas integrativas. O SUS - Sistema Único de Saúde - a inclui em suas rotinas de atendimento e hoje está estabelecida como política de Estado. Há no País médicos veterinários e odontólogos, além de farmacêuticos, que trabalham oficialmente com homeopatia.

    • Em Portugal, a Ordem dos Médicos não reconhece a homeopatia como especialidade médica. No entanto, existem duas associações, uma em Lisboa (SPH) e outra no Porto (SPMH), que aceitam apenas médicos como membros. As farmácias em Portugal vendem medicamentos homeopáticos com autorização do Infarmed.

    • Na Espanha a homeopatia é reconhecida como especialidade médica, sendo ensinada nas universidades de Sevilha, Valladolid, Múrcia, Barcelona, Bilbao e Málaga.

    • Na França a homeopatia segue as regras estabelecidas por Phillipe de Lyon, que só aceita as potências até C 30. Estes medicamentos, prescritos por médicos, são reembolsados pelo sistema público de saúde. Quase todas as farmácias francesas vendem medicamentos homeopáticos.

    • Nos EUA, depois de ter sido popular no começo do século XX e ter declinado, a homeopatia ressurge, com escolas de formação em vários estados. Na década de '80 havia cerca de 1000 médicos homeopatas, e outros três mil profissionais usando homeopatia, inclusive dentistas, veterinários e psicólogos.

    • Na Romênia a homeopatia foi legalizada em 1969, e é exercida apenas por médicos. Há cerca de setecentos homeopatas no país.

    • No Reino Unido e na Austrália a homeopatia é legalizada como prática médica. Um ato do parlamento inglês de 1950 (Ato da Faculdade de Homeopatia) reuniu as leis e regulamentos sobre a prática da homeopatia.

    • Na República Checa há cerca de mil médicos homeopatas clássicos, que não receitam apenas remédios homeopáticos porque as companhias de seguro não cobrem os gastos.

    • Na Bélgica a homeopatia é reconhecida, desde que praticada por médicos. Cerca de 25% da população belga utiliza por vezes medicamentos homeopáticos

    • Nos Países Baixos a homeopatia não tem reconhecimento oficial, mas uma lei de 1996 garante o direito de cada pessoa escolher entre o tratamento pela medicina oficial ou por outra forma de terapia.

    • Na Índia há mais de 120 escolas de homeopatia, ligadas a universidades e a hospitais. 19 delas são mantidas pelo governo.

    PARTE 3

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